Com o desaparecimento de Maria Gabriela Rocha de Gouveia Martins, em Junho último, cessa em Silves a presença de uma família ímpar, hoje injustamente votada ao esquecimento, que denodadamente pugnou, durante três gerações, pelo engrandecimento da cidade e do concelho.

O seu avô Henrique Martins, natural de Santarém, fixou-se em Silves em 1901, constituindo aí família (casou com Aurora Glória da Silva Callapez Martins, de cujo matrimónio nasceram oito filhos) e onde veio a falecer, a 25 de Maio de 1959.

A sua ação foi multifacetada, solicitador, presidente e vice-presidente da Câmara Municipal de Silves (Comissão Executiva), presidente da Associação Comercial de Silves, provedor do Hospital da Santa Casa da Misericórdia, presidente Geral da Junta de Província do Algarve e sócio fundador da Empresa Cinematográfica Silvense. Personalidade ainda incontornável na criação da Escola Comercial e Industrial de Silves, em 1920, predecessora da Escola Secundária.
Em 1907 filiou-se no Partido Republicano, que nessa data se organizou em Silves e no qual viria a militar até à sua morte, ou não fosse um democrata convicto. Funcionário do Registo Civil, Henrique Martins dirigia ainda uma papelaria (o primeiro estabelecimento a vender livros em Silves) e uma tipografia «Artística do Algarve». Nesta última, imprimia o jornal «Voz do Sul», de que foi proprietário, fundado a 8 de outubro de 1916, o qual dirigiu até ao seu falecimento, defendendo sempre os interesses do concelho e do seu engrandecimento.
Semanário considerado, segundo o Prof. Vilhena Mesquita, na obra «História da Imprensa no Algarve», como «um dos mais notáveis órgãos da imprensa algarvia», noticioso e literário, atento aos problemas regionais, sem descurar as reivindicações dos sectores laborais, educativo, cultural, económico, turístico, industrial e comercial. Com o advento da Ditadura Militar e depois do Estado Novo, como estratégia de sobrevivência, o «Voz do Sul» tornou-se um órgão de características nitidamente culturais e regionalistas, publicando trabalhos de excelso valor para a história de Silves. Anteriormente, em 1911, já Henrique Martins havia participado na fundação do periódico «Alma Algarvia», juntamente com Julião Quintinha, granjeando como jornalista, ao longo de décadas, grande respeito na região.
Integrou o MUD (Movimento de Unidade Democrática, fundado em 1945), bem como as comissões concelhias de apoio às candidaturas dos oposicionistas Norton de Matos, de Arlindo Vicente e de Humberto Delgado. Encarado como um dos principais oposicionistas de Silves foi, com toda a sua família, alvo de forte vigilância pela polícia política afeta ao Estado Novo.
Por sua morte, é o filho José Júlio Martins que vai prosseguir com a publicação regular de «Voz do Sul», até Setembro de 1966 e irregular até Novembro de 1968, quando o título foi suspenso, ao fim de mais de 50 anos de publicação, o que faz dele uma fonte imprescindível para a história da cidade e do Algarve (coleção integralmente disponível na internet, no sítio da hemeroteca digital do Algarve).
Ora José Júlio Martins nasceu em Silves a 23 de abril de 1916, advogado e desportista, veio a falecer em Lisboa a 26 de Agosto de 1982. Na universidade (1934-1939) fez parte das equipas de futebol e de râguebi da Faculdade de Direito. Casou a 21 de Abril de 1947 com Maria Gabriela de Albuquerque Rodrigues Rocha de Gouveia, natural da Madeira (Calheta), mas a residir em Faro, onde o pai era notário. Deste casamento resultaram três filhos, Maria Gabriela (1948-2024), José (1950-2000) e Paulo (1955-2001).
Tal como Henrique Martins, José Júlio Martins foi oposicionista ao Estado Novo, vindo a conhecer alguns dissabores por essa veleidade. Glória Maria Marreiros, na obra «Quem foi quem? 200 algarvios do século XX» destaca, na sua biografia, as intervenções acaloradas nos comícios das campanhas eleitorais dos generais Norton de Matos e Humberto Delgado, que lhe valeram perseguições e incómodos.
Após o que se dedicou à carreira de advogado, que tornou brilhante (abrindo escritórios em Silves, Portimão, Loulé e Lagos), e ao desporto. Simultaneamente foi professor (vencidas as dificuldades levantadas pelo regime) na Escola Comercial e Industrial, hoje Secundária de Silves. O seu apaziguamento político, por esses anos, viria a ser utilizado contra si, no pós 25 de Abril.
No campo desportivo foi membro da Federação Portuguesa de Futebol, transitando depois para o Conselho de Disciplina, de que foi presidente até ao seu falecimento. Pioneiro nas ações de descentralização do desporto, agendava reuniões aos órgãos a que presidia fora de Lisboa, onde se sediava a Federação. Presidiu também ao Silves Futebol Clube e à Associação de Futebol do Algarve. Sócio do Sporting Clube de Portugal e amante do ténis, râguebi e desportos náuticos, tornou-se num dos mais prestigiantes dirigentes desportivos do Algarve.
Depois do 25 de Abril regressou à política, sendo em 1979 eleito para presidente da Assembleia Municipal de Silves, pelo Partido Socialista, cargo que desempenhava aquando o seu falecimento, aos 67 anos de idade.
O jornal «Comércio de Portimão», na notícia do obituário, na edição de 2 de Setembro de 1982, considerou-o como uma «figura altamente respeitada e prestigiada», enquanto em Faro «O Algarve», de 8 de Setembro, lembrava-o como «uma individualidade de representação na vida cultural e social da nossa Província». Na verdade o seu contributo não se circunscreveu a Silves e à região ele estendeu-se, no campo desportivo, ao país.
O seu filho José Júlio Albuquerque Rocha Martins foi médico, em Silves, Algoz e Portimão, fixando-se em Lisboa, onde foi diretor clínico no hospital dos Capuchos. Também desportista, foi campeão nacional de judo. Faleceu no hospital de Portimão, aos 50 anos, em 2000.
Por sua vez, Paulo Manuel Rocha Martins, licenciado em Desenvolvimento Económico e Direito, substituiu o pai, no seu escritório em Silves, aquando o seu falecimento, como advogado. Presidiu igualmente à Assembleia Municipal de Silves, eleito em 1989, pelo Partido Socialista, até 1993. Faleceu com 45 anos, em 2001, no hospital de Portimão.
Ambos constam na obra «Algarvios pelo coração, Algarvios por nascimento», de Glória Maria Marreiros, para a qual remetemos o leitor interessado em mais detalhes biográficos. Quanto a Maria Gabriela Rocha de Gouveia Martins, a sua biografia encontra-se publicada neste jornal. ( https://www.terraruiva.pt/2024/06/12/faleceu-gabriela-rocha-martins/)
É pois inquestionável o contributo de Henrique Martins, do seu filho José Júlio Martins e destes três netos, para o engrandecimento de Silves e do concelho. Personalidades, indeléveis da história da cidade nos últimos cem anos, que com toda a justiça devem ser lembradas e perpetuadas e não votadas ao esquecimento, pelas entidades e demais silvenses, como parece ser apanágio dos nossos tempos.








Leio o Terra Ruiva, desde o início da sua publicação, e tive ainda oportunidade de apreciar a participação regular que a senhora em causa mantinha, no jornal.
Não obstante todos os seus restantes atributos louváveis – quem sou eu para contestar os seus méritos, até porque não tive oportunidade de os acompanhar –, e sem que seja, propriamente, um crítico literário, é-me lícito, porém, como leitor da poesia da referida senhora Catarina Martins, ter a minha visão dos seus textos e deles aqui deixar a minha singela apreciação, a qual, sinceramente e com mil desculpas por não poder ser mais simpática, não consegue encontrar outra definição que não seja a de uma escrita quase impenetrável, de um interpretação extremamente difícil, que talvez se filie nalguma nova escola literária, a que a minha ignorância ainda não chegou.
Talvez a dificuldade desta minha visão decorra do facto de transportar, sobre os ombros, com todos os seus defeitos, um cérebro eminentemente lógico e refractário a tudo o que não siga esses cânones.