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Opinião

Era uma vez um certo cinema e uma certa juventude…

Paulo Penisga
Última Atualização: 2022/Ago/Sex
Paulo Penisga
4 anos atrás
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Ah, bela, belíssima Laura Antonelli, diva dos nossos sonhos adolescentes, toda a sedução e desejo com que animaste a nossa juvenil imaginação e a felicidade ali logo à mão perdurarão na memória do tempo. Símbolo erótico do cinema dos anos 60 e 70, a atriz, de grande beleza e sensualidade, foi estrela em muitas comédias picantes italianas, tais como Malícia (1973), Divina Criatura (1975), apesar dessa imagem de marca tão popular, que se colou à sua pele e com a qual nem sempre conviveu bem, entrou também em filmes como   L’innocente/O inocente (1976) de Luchino Visconti.

Abundante nesses anos, a pornografia também marcava presença regular na programação do cineteatro de Silves como por esse país fora. Apesar de tão massivamente ofertada, nesses anos de eufórica liberdade, esta indústria com toda a sua crueza e mecanização da sexualidade e exploração adulterada do sexo, não matou de vez a imaginação dos sonhos de amor com que crescemos. Sim, nada de falsos moralismos, sejamos verdadeiros, muitos bons chefes de família frequentavam essas sessões. E nós éramos apenas uns miúdos.

O filme Melody (1971) é uma história de amor adolescente: Daniel, um garoto de apenas 10 anos apaixona-se perdidamente pela bela Melody Perkins, uma miúda da mesma idade, e os dois decidem casar. Porém, as famílias de ambos tentam convencê-los de que isso é impossível, devido à sua idade. Com a ajuda de amigos, o jovem e apaixonado par decide fugir ao som do tema First of May dos Bee Gees. para desespero dos pais. Filme sensível, musical, narrado do ponto de vista juvenil, com música dos Bee Gees mas também com uma colaboração da banda norte-americana Crosby, Stills, Nash & Young, este filme faz-nos sonhar com o primeiro amor e aprofunda os primeiros beijos nos bancos do jardim.

Mas nem só no Cineteatro havia filmes. Por esses anos, o Racal Clube, memorável instituição que desenvolvia muitas atividades (concurso internacional de fotografia, congresso do Algarve, rali do Algarve, jogos florais, …) também num determinado período de tempo, finais de 70 (?), funcionou um cineclube, com sessões na Casa Velha, no piso onde hoje está um restaurante. Aí passou Easy Rider (1969), realizado por Dennis Hopper, que igualmente contracena com Peter Fonda, este road movie é a história de dois amigos e do seu anseio de liberdade, percorrendo com as suas motos os Estados Unidos. Retrato da contracultura da época, não só no tema mas também na sua concepção e produção, pois Hopper faz parte da geração de outsiders de Hollywood (Coppola, Scorsese, Lucas, Bogdanovich, …) que vão mostrar nas décadas seguintes que é possível conseguir sucessos de bilheteira com filmes menos convencionais. Com um final trágico, os jovens são  mortos a tiro numa pequena localidade do interior e as suas motos, símbolos de liberdade, ardem incendiadas. Tal como o provincianismo tacanho abate muitas vezes a ousadia da modernidade.

Ao professor de História, José Alberto Quaresma, devemos também por esses anos o alargar dos nossos horizontes, não só nas aulas com o seu bom humor e saber inovador (dos primeiros professores que nos pôs a pesquisar, em contacto com as fontes na biblioteca da escola, ainda no nono); mas também ao convidar-nos, a mim, ao Fernando Vicente, ao Rui Luz, para irmos ao jazz no Caldeirão, em Ferragudo, e a ver o filme If/Se… no Boa Esperança, em Portimão. Curiosamente, este filme inglês, de 1968, cuja ação decorre num colégio interno na Inglaterra do final dos anos sessenta, seria então muito do agrado pedagógico de professores e pessoas ligadas à cultura, pois numa noite de Inverno, vagueando com a malta ao sabor do acaso, fomos parar ao teatro Gregório Mascarenhas, talvez atraídos pela luz projetada no interior, onde estava a ser exibido pelo Sr. José Luís Cabrita e pelo professor Olímpio, que lá nos convenceram a vê-lo apesar de não estarmos para aí virados… Com Malcolm McDowell, futura vedeta de A Clockwork Orange/Laranja Mecânica, no desempenho de um jovem insatisfeito e rebelde que incita os seus colegas de escola a revoltarem-se contra o sistema disciplinar e hierárquico vigente, o filme é uma denúncia da perversidade gerada pelos ambientes autoritários e repressivos e um manifesto apelo à revolta juvenil.

Já no início da década de 90, com o Cineteatro em acentuada decadência, vi com a minha irmã a versão Blade Runner – Director`s Cut , filme de culto dos anos 80, o qual víamos agora em versão integral numa sala em que para espanto nosso éramos os únicos espetadores. Assim, no imenso vazio escuro da sala, a imersão no fantástico universo de uma Los Angeles futurista, uma cidade sombria e iluminada apenas por néon, com ruas apinhadas de gente e chuva ácida permanente, mais admirável foi; e mais intensamente despertou em nós a emoção do sentimento humano, o mesmo com que o último dos replicantes morre dizendo – (…) todos esses momentos serão perdidos como lágrimas na chuva.

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