A Sociedade de Instrução e Recreio Messinense (SIRM) comemora por estes dias mais um aniversário, fundada que foi a 24 de Fevereiro de 1929.
Na verdade, não terá sido a primeira existente na então aldeia de São Bartolomeu de Messines. Em 1906, por exemplo, temos notícia de uma «Sociedade Recreativa Messinense» e também de um clube, para em 1928 surgir na imprensa regional a notícia da inauguração, no dia 23 de Fevereiro, de «uma nova Sociedade de Instrução e Recreio». Seria esta coletividade a génese da atual SIRM, constituída oficialmente um ano depois? Onde se localizaram estas agremiações? São questões para as quais não temos resposta. Certo é que aquando da fundação da SIRM em 1929 não encontramos na imprensa qualquer notícia ou referência à mesma. Quanto à sua sede parece que esteve primeiramente instalada num edifício no Beco da Rua do Remexido.
Incontestável é porém a dinâmica que logo evidenciou. No Carnaval de 1930 uma comissão de sócios organizou um «salão popular», com um «tocador de harmonium», tido como um dos melhores do Algarve. No periódico «Folha de Alte», veio inserta uma pequena nota sobre os festejos carnavalescos na aldeia: «pelo Carnaval, que foi nas sociedades e salões, extremamente divertido». Existiriam duas sociedades em simultâneo? Mais uma interrogação cuja resposta ignoramos. A 30 de março era organizado na SIRM o «baile da pinhata», muito concorrido e animado, tal como o da Páscoa, efetuado pouco depois. Nestes eventos foram angariados 429$60 escudos, dos quais 80$00 distribuídos aos pobres e igual quantia entregue no hospital de Silves. A sua ação não se circunscrevia ao recreio, estendendo-se desde logo ao apoio social.
Em Maio de 1931 o total de sócios cifrava-se em 140, por essa altura decorriam trabalhos na sala de baile e na recepção. A audição de concertos transmitidos pela telefonia também mobilizava os sócios, principalmente o «posto de Toulouse, que se ouve distinta e nitidamente». Quanto ao ensino, em dezembro de 1931, foi organizada uma comissão com o objetivo de criar um curso noturno «para instrução rudimentar dos sócios analfabetos».
A taxa de analfabetismo na freguesia, naqueles anos, aproximava-se dos 80 %. Uma chaga nacional cujas consequências ainda hoje se fazem sentir.
A 11 de Janeiro de 1932 o grupo «Jaz-band» de Faro abrilhantava mais um baile, que se prolongou até às 4:30 da madrugada. A 28 de Fevereiro seguinte um evento similar mas temático, «baile encarnado», com a sala decorada a preceito, tal como os pares, estendeu-se até ao romper da aurora. Mas nem tudo corria bem, em Maio, um grupo de sócios pedia a realização de uma assembleia extraordinária para expulsar um associado. Pedido depois indeferido pela direção.
Problemas que não quebravam a dinâmica instalada, de forma que em Maio de 1933 ocorre uma mobilização com o objetivo de criar uma biblioteca. Para o efeito foram enviadas cartas circulares a diversos indivíduos e entidades, pedindo a sua colaboração. A adesão foi espontânea e em Junho eram já muitas as obras recebidas. José Nobre Ruivo, correspondente do «Folha de Alte», em nome da Direção da Sociedade divulgava, na edição de julho de 1933 daquele periódico, os beneméritos, e se os havia de Messines, como o próprio Ruivo, Teófilo Fontainhas Neto, José Gama, Amadeu Campanela, Eduardo Calado, entre outros, eles estenderam-se a São Marcos da Serra, S. Teotónio, Amoreiras- Gare, Lisboa, Albufeira, Algoz, Ourique, Faro, ou a entidades como o Ministério da Marinha, a Câmara Municipal de Silves, o Diário de Notícias, as livrarias Avelar Machado e Sá da Costa, de Lisboa, sem esquecer distintas personalidades, como o Visconde de São Bartolomeu de Messines, José do Espírito Santo Battaglia Ramos. Comprometendo-se ainda a agremiação a adquirir outros livros sempre que as receitas o permitissem. Muitas destas obras conservam ainda no seu interior os cartões dos beneméritos doadores.
A ação da SIRM é imparável e assim no verão de 1934, nos dias 26 e 27 de Agosto, promoveu «grandes festas em Messines». Dois dias festivos, «com grandiosas festas cívicas e desportivas», e um programa atraente. No primeiro dia, alvorada às 7:30 com foguetes e morteiros, quermesses, com venda de fotografias comemorativas (como a representada), música no coreto, protagonizada pela banda Artistas de Minerva de Loulé, fogo de artifício à noite (solto e preso, por um conceituado pirotécnico), verbena e lançamento de balão aeróstato.
No segundo dia, alvorada às 8:00 com foguetes e pela banda, receção às 12:30 na sede da SIRM dos cavaleiros, ciclistas, atiradores e grupos de futebol, para meia hora depois se iniciar a prova de ciclismo (com um percurso de 40 km, entre Messines, Algoz, Silves e Messines) e de seguida o torneio de tiros aos pratos. Às 16:00 corrida de cavalos (1 km) e às 18:00 o amigável desafio de futebol entre a equipa local e uma regional. Entretanto, às 16:30, realizaram-se ainda corridas de bicicletas – fitas. Por fim, às 21:30, abriu a quermesse, repetindo-se o concerto pela banda, as verbenas, etc.
O destino da receita líquida obtida foi desde logo anunciado: 70% destinava-se à Sociedade, 20% aos pobres mais necessitados da freguesia, enquanto os restantes 10% para a Misericórdia de Silves, ou seja, para o hospital.
Cinco anos após ter sido constituída oficialmente, as atividades da SIRM destacavam-se não só na aldeia, como no concelho e na região.
As suas iniciativas, ao longo de quase um século, não cessaram ainda que com períodos mais ou menos felizes. Na atualidade são célebres os bailes ou os encontros de xadrez, recentemente levados a efeito depois de algumas décadas de interregno, as exposições, ou o Grupo de Teatro «Penedo Grande».
Mas, se materialmente dos primeiros anos muito pouco subsistiu, há porém uma exceção, a biblioteca. Não obstante alguma degradação que muitos livros apresentam, advinda da idade e do manuseamento, eles são o testemunho vivo e a força de vontade de muitas gerações que à frente da Sociedade, pugnaram não só pelo recreio, como pela instrução dos seus sócios. Afinal, como afirmava o seu patrono João de Deus: «porque eu posso ser homem sem saber retórica: o que não posso é ser verdadeiramente homem sem saber ler». Quase a atingir o centenário, urge salvaguardar e recuperar essas obras, património da coletividade, para que possam ser de novo consultadas e legadas às novas gerações, enfim, tão somente cumprir o objetivo para que foram doadas. Este é um desafio que se impõe aos sócios e entidades nos nossos dias. Parabéns à SIRM!







