Criação de trabalho e valor em Silves

Em Portugal, um dos problemas evidentes em concelhos afastados dos centros urbanos é, sem dúvida, a captação de investimento. O investimento de empresas, sejam locais ou externas, é a chave que abre a porta a vários elementos positivos de um determinado território. A principal é a criação de emprego, que é normalmente uma matéria apontada à responsabilidade de governos centrais, mas que os municípios podem e devem fomentar através de mecanismos e políticas públicas dentro das suas capacidades. Outro benefício é a retenção de talento, que infelizmente a maioria dos concelhos do interior em Portugal não consegue reter, sejam jovens licenciados ou profissionais especializados, que migram para locais de maior oportunidade.

Podemos enumerar outros factores positivos que advém do investimento, como o aumento de receita para o município por via dos impostos (derrama municipal por exemplo), o melhoramento das infraestruturas do concelho, e também, a atração de outras empresas, entidades educativas e novas tecnologias. São poucas as consequências de um concelho com elevado investimento privado quando devidamente coordenado pelo município, todos os agentes públicos e a sociedade civil, inseridos numa visão estratégica global e sustentada.

Nada disto é novo e todas as câmaras municipais o sabem. Li há pouco tempo neste jornal uma entrevista do atual Chefe de Gabinete da Presidente da Câmara Municipal de Silves, onde era mencionado o facto deste concelho estar conectado com o seu ambiente exterior e dependente das dificuldades e desafios da região onde se insere. Silves não é uma ilha, não poderia estar mais de acordo. O Algarve é uma região com dificuldade de captação de investimento, à exceção do turismo e imobiliário, um modelo que alguns podem considerar esgotado. E mesmo nesse sector, Silves está muito longe do nível de investimento de outros concelhos algarvios como Portimão, Albufeira ou Faro, por muitos motivos fora do controlo da autarquia. Mas mais importante que nos restringirmos às condicionalidades da região é perceber que políticas públicas podemos aplicar para contrariar essas condicionalidades.

Que soluções podem ser pensadas e utilizadas para criar um ambiente atrativo para as empresas? Existem muitos exemplos de autênticas ilhas de inovação e emprego dentro de regiões com condicionantes. São essas as ilhas que temos de ambicionar ser.

Um exemplo clássico de uma Câmara Municipal com sucesso na captação de investimento e retenção de talento é Leiria. A Câmara Municipal desta cidade apostou numa abordagem proactiva nesta área, sendo que compreende as transformações do mundo atual e tenta aplica-las no seu concelho. Uma das transformações atuais é o digital, uma estratégia que também está em linha com o Governo português atual (para além da transição energética). Um exemplo claro nesta proatividade é a criação de um centro de negócios voltado apenas para empresas TICE (tecnologia, informação, comunicação e energia) tal como a instalação de uma incubadora (Startup Leiria), com empresas locais que trabalham global. Estas unidades estarão situadas no Estádio Municipal (construído para o Euro 2004), por forma a dinamizar duplamente o meio empresarial e do trabalho, e também transformar positivamente um local de polémica (neste caso, o estádio). Mais no interior, Bragança tem sido, nos últimos anos, uma das regiões com mais dinamismo. A autarquia tem aplicado medidas de isenção de impostos a empresas que invistam e reabilitem infraestruturas de elevado interesse no concelho. Ainda no mesmo distrito, Macedo de Cavaleiros tem várias linhas de financiamento destinadas à compra de habitação para os mais jovens e aos empreendedores interessados em investir no concelho.

Conhecer as características endógenas do território é importante, no sentido de identificar as potencialidades, numa postura reativa perante as oportunidades que vão aparecendo. Mas também é necessária a identificação das oportunidades no mercado global com uma postura ativa, de diplomacia económica, em coordenação com a estratégia de desenvolvimento do concelho e políticas públicas sustentáveis. Não existe em Silves essa postura. Conseguimos tirar essa conclusão com a própria inexistência de gabinetes de apoio à internacionalização e ao investidor. Não existem mais produtores ou empreendedores apenas locais, pois esses só podem sobreviver em estreita relação com o global. Conseguimos perceber que as Câmaras Municipais com mais sucesso do país são aquelas com uma visão e estratégia de proatividade, desenvolvendo um conjunto de atividades, diligencias, serviços e funcionalidades que permitem mais eficiência junto dos diferentes agentes económicos. Esses atributos não se conseguem apenas com gabinetes de prestação de informação.

Por fim uma breve menção à educação e investigação, que é importante num concelho onde existe uma universidade, que apesar de privada, está apta para uma maior colaboração com a autarquia no desenvolvimento de novas iniciativas, num campus claramente subaproveitado. As realidades são completamente distintas entre Oeiras e Silves, mas são os bons exemplos que podemos replicar em diferentes dimensões. Oeiras gasta quase 2 milhões de euros por ano a criar projetos para atrair os melhores cientistas do mundo para o seu município, realizando projetos inovadores com aplicação imediata no mercado. Desta forma, não só atrai agentes externos como consegue reter os seus talentos locais nos diferentes programas e empresas criadas através dessas políticas públicas.

Silves deve aproveitar as suas vantagens e competir ativamente no palco global, colocando-se nas principais rotas de projetos e redes internacionais. No mundo de hoje, isso apenas se faz com proatividade.

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