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História & PatrimónioSociedade

1º de Maio – Dia do Trabalhador

Vera Gonçalves
Última Atualização: 2018/Mai/Ter
Vera Gonçalves
8 anos atrás
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Exposição “1º de Maio – Dia do Trabalhador”

Em Silves, no edifício da Câmara, encontra-se patente, até ao final do mês de maio, a Exposição do Arquivo Municipal com o tema “ 1º de Maio – Dia do Trabalhador ”.
A exposição é acompanhada de imagens e documentos.
O Terra Ruiva colabora com esta iniciativa do Arquivo Municipal publicando uma versão resumida do texto da exposição. A versão integral está disponível aqui: Expo_DM_Maio_2018

1º de Maio – Dia do Trabalhador

O Dia do Trabalhador, que é celebrado anualmente no dia 1 de Maio em numerosos países do mundo, nasceu de um protesto operário ocorrido em Chicago, em 1886.
Em 1889, o Congresso Operário Internacional, reunido em Paris, decretou o 1º de Maio como o Dia Internacional dos Trabalhadores, um dia de luto e de luta, como homenagem às lutas sindicais de Chicago.

Em Portugal, os trabalhadores assinalaram o 1º de Maio logo em 1890, o primeiro ano da sua realização internacional. Todavia as ações do Dia do Trabalhador limitavam-se inicialmente a alguns piqueniques de confraternização, com discursos pelo meio e a algumas romagens aos cemitérios em homenagem aos operários e ativistas caídos na luta pelos seus direitos laborais.
Em Silves o movimento operário está essencialmente ligado ao sector corticeiro, uma vez que, desde meados do século XIX, constituíram quase exclusivamente a massa operária na população de Silves. Em 1890, numa população citadina de seis mil habitantes, o número de operários corticeiros rondava o milhar, dispersos por onze unidades industriais.

A luta pela redução do horário de trabalho deu lugar a movimentações dos operários de Silves, sendo o 1º de Maio, data que simboliza a luta pelas 8 horas, assinalada desde bastante cedo.

Há o registo do 1º de Maio de 1894, em que ninguém trabalhou em Silves, as fábricas encerraram, uma grande manifestação operária percorreu as principais ruas da cidade, realizando-se depois um comício no salão da escola da Cooperativa Silvense em que terão participado, segundo um jornal operário da época, cerca de 2000 pessoas e em que interveio, entre outros oradores, a então muito conhecida poetisa e jornalista Angelina Vidal.
Os primeiros anos do século XX foram vividos em Silves debaixo de muita agitação social, notando-se forte presença da propaganda republicana, de modo que eram evidentes os sinais de descontentamento operário perante o desemprego, os baixos salários, as paragens do trabalho nas fábricas. A fome e o desemprego temporário atingiu muitas das famílias silvenses e a culpa da crise corticeira radicava, segundo os dirigentes sindicais, na exportação de cortiça em bruto e em prancha para ser transformada no estrangeiro e que, apesar da proibição, continuava a ser vendida.

Em 1909 o horário máximo de 10 horas de trabalho, que antes era de 12, acabara por ser conseguido, tendo a fábrica Cabrita & Lamim sido a primeira a cedê-lo, vindo as outras por arrastamento. Mas os industriais não se conformavam com esta cedência e acabaram por reduzir a semana de trabalho para quatro dias.

Durante a I República não se deixou de festejar o Dia do Trabalhador, mas no diploma que dizia respeito ao estabelecimento dos feriados nacionais não constava o dia do trabalhador como tal. No meio operário silvense a implantação da República traduziu-se numa frustração, em vez de melhorar a situação laboral e social, as greves dispararam e as diferenças entre os proprietários corticeiros e a maioria operária agravam-se.
Com o encerramento da fábrica de cortiça Villarinho & Sobrinho, ficaram sem trabalho e reduzidos à miséria centenas de operários e suas famílias. Preocupada com esta situação a Câmara Municipal de Silves resolveu informar o Governo desta situação e “pedir para serem tomadas as mais urgentes providencias para que dentro de poucos dias não sofram os horrores da fome uma grande parte da população d’esta cidade”.
Por forma a debelar a crise instalada a Comissão Executiva da Câmara Municipal de Silves, na reunião do dia 1 de abril de 1915, presidida pelo vice-presidente José Gabriel Pinto, deliberou “contribuir com qualquer verba de pequena importancia em nome da Camara para atenuar a crise operaria de Silves”.

No ano de 1921 a Associação de Classe dos Operários Corticeiros solicitou a cedência do Salão Nobre da Câmara Municipal para a realização de uma sessão solene para comemoração do 1º de Maio. Atendendo tratar-se de um dia comemorado pelo operariado universal, a Comissão Executiva da Câmara Municipal, presidida por Henrique Martins, deliberou que “fosse cedida a sala das sessões para, a sessão solenne, realizado no dia 1 de Maio pela classe operária corticeira, desta cidade”.
Nas décadas seguintes, e com a 2ª Guerra Mundial, os problemas da indústria corticeira agudizam levando ao encerramento de várias fábricas enquanto outras se deslocaram para a margem sul do Tejo. Após os anos 50 a decadência da indústria corticeira acentua-se, desaparecendo quase por completo.

Comício e piquenique

Durante o Estado Novo as manifestações no Dia do Trabalho (e não do Trabalhador) eram organizadas e controladas pelo Estado e reprimidas pela polícia. No entanto os portugueses souberam tornear os obstáculos do regime à expressão das liberdades, sendo considerado dia de descanso para os operários.

Piquenique entre amigos e familiares – Foto de Julieta Silva – Silves com História

Neste contexto a comemoração do dia 1º de Maio, em Silves, era uma prática infalível todos os anos, sendo um dia festivo dedicado a comes e bebes em piqueniques campestres. Todavia havia que conciliar a jornada de protesto com a tradição do piquenique. Assim, como a saída do povo para o campo era mais intensa na parte da tarde, o cortejo manifestação fazia-se na parte da manhã, às 9 horas, pelas principais ruas da cidade até ao local onde se realizava o comício, que sucedia por volta das 10 horas, falando primeiro os representantes dos vários organismos operários da terra e, por fim, os oradores das organizações centrais. Aprovavam-se as moções de protesto que a organização levava ao conhecimento do povo, o que era feito por aclamações.

Em 1963, 700 corticeiros abandonaram o trabalho para confraternizar – Foto de José Mealha, Silves com História

Estes dias ficavam inesquecíveis pela animação de que se revestiam, pelo significado proletário e revolucionário que se lhe imprimia e pela recordação daqueles que sofriam nas prisões pela causa de “todos nós”.

No dia 1 de Maio de 1963 cerca de setecentos corticeiros silvenses deixaram o seu posto de trabalho nas fábricas e foram confraternizar, como protesto por melhores condições de trabalho.

Claro que o 1º de Maio mais extraordinário realizado até hoje, em Portugal, foi o que ocorreu dias depois do 25 de Abril de 1974, tendo sido a maior manifestação alguma vez organizada no país.
Na cidade de Lisboa, na Alameda Dom Afonso Henriques, local escolhido pelos sindicatos organizadores para a concentração da manifestação, juntaram-se mais de meio milhão de pessoas, oriundas de todas as regiões de Portugal, levando cravos, mas também rosas vermelhas e papoilas, ao peito, para ouvir os discursos de Mário Soares e Álvaro Cunhal, entretanto regressados do exílio. Nas varandas e janelas dos prédios viam-se suspensas bandeiras nacionais, colchas e serpentinas e por todo o lado ouvia-se “O povo unido jamais será vencido”, “As nossas armas são as flores”, “A poesia está na rua”, “Direito de voto aos 18 anos”, “Julgamento público dos criminosos fascistas” ou “Direito à greve”.

Por todo o país as manifestações do 1º de Maio decorreram com o maior civismo. Em Silves, não foi exceção, sucedendo-se por todo o concelho e na cidade, o grupo de manifestantes percorreu as ruas da cidade, e concentraram-se junto do edifício dos Paços do Concelho.

1º de Maio de 1974- Manifestação junto aos Paços do Concelho – Foto de Miguel Cabrita

Para muitos, foi a forma dos portugueses demonstrarem a sua adesão ao 25 de Abril, que uma semana antes restituíra ao país a democracia. Só a partir de 1974 que se voltou a comemorar livremente o Primeiro de Maio e este passou a ser feriado nacional.

Centro e trinta e dois anos depois das grandiosas manifestações dos operários de Chicago pela luta das oito horas de trabalho e da brutal repressão patronal e policial que se abateu sobre os manifestantes, o 1º de Maio mantém todo o seu significado e atualidade, sendo um dia em que se afirmam os valores voltados para uma sociedade mais justa e solidária e a necessidade do progresso económico e social.

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PorVera Gonçalves
Natural da Sé de Faro, oriunda de S. Brás de Alportel, nascida em 1980. Licenciada em Línguas e Literaturas Modernas variante de Estudos Portugueses e Pós-graduação em Ciências Documentais – Ramo Arquivo pela Universidade do Algarve. Funcionária da Câmara Municipal de Silves, desde 2005, como técnica superior de arquivo.
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