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Centenário da visita do presidente da República Sidónio Pais, a Silves

Exposição “Centenário da visita do Presidente da República Sidónio Pais, a Silves”

Em Silves, no edifício da Câmara, encontra-se patente, até ao final do mês de fevereiro, a Exposição do Arquivo Municipal com o tema “ Centenário da visita do Presidente da República Sidónio Pais a Silves ”.
A exposição é acompanhada de imagens e documentos.
O Terra Ruiva colabora com esta iniciativa do Arquivo Municipal publicando uma versão resumida do texto da exposição. A versão integral está disponível aqui: Expo_DM_fevereiro_2018

 

Centenário da visita do Presidente da República Sidónio Pais a Silves

Decorria o ano de 1918 quando o Presidente da República Sidónio Pais visitou o Sul do país. Entre 14 e 17 de fevereiro, visitou Évora, Beja e atravessou o Algarve de Sotavento a Barlavento.

No período em que a participação de Portugal na I Guerra Mundial marcava a conjuntura política, económica e social do país, com a subida dos preços, falta de combustíveis e alimentos, agitação social e luta política, Sidónio Pais, liderou um golpe militar que inaugura a “República Nova”.
Professor de matemática e major, após o 5 de Outubro de 1910, fez parte do ministério de Manuel Arriaga como ministro do Fomento e das Finanças, e entre 1912 e 1916 foi embaixador em Berlim. Com a eclosão da I Grande Guerra e entrada de Portugal no conflito, regressa a Portugal, sendo colocado na secretaria do Ministério dos Negócios Estrangeiros, onde permanece até assumir a chefia do movimento revolucionário contra o Governo do Partido Democrático.

Sidónio Pais – Ilustração Portuguesa, nº 652, de 11 de fevereiro de 1918

Apoiado por tropas e artilharia, de 5 a 8 de dezembro de 1917, liderou a revolta protagonizada pela Junta Militar, a que presidia, conduzindo à dissolução do Parlamento, na destituição do Presidente da República Bernardino Machado. Assim, Sidónio Pais tomou posse como Presidente do ministério, acumulando as pastas da Guerra e dos Negócios Estrangeiros e, a 27 de dezembro, assume as funções de Presidente da República até haver nova eleição. É então eleito, por sufrágio direto, em 28 de abril de 1918, sendo proclamado Presidente da República em 9 de maio.

Sidónio Pais declarou-se “chefe de todos os portugueses” e “mandatário da nação” legitimado pela eleição por sufrágio universal, o que aconteceu pela primeira vez, e durante o ano em que permaneceu no poder suspendeu e alterou por decreto algumas normas da Constituição de 1911, aboliu a censura prévia à imprensa, soltou os sindicalistas presos, deixou regressar os monárquicos exilados, foram reatadas as relações com o Vaticano e alterou a Lei de Separação entre a Igreja e o Estado, numa tentativa de apaziguamento das relações com a Igreja, assim foram autorizados estabelecimentos de assistência em Portugal, bem como cessaram as restrições ao culto e ensino nos seminários, mostrando-se como um protetor da Igreja Católica. Propôs abrir as portas do regime a toda a gente “sem olhar aos seus credos políticos ou religiosos” e “consolidar a república” fazendo dela “um regime novo em que monárquicos e republicanos possam viver” o que fez granjear ainda mais a sua popularidade.
Extremamente popular era conhecido por andar muito aprumado na sua farda, que antes de ser Presidente raramente vestira, rodeava-se de um séquito e em todas as suas aparições públicas era tocado o Hino Nacional.

É no desempenho das suas funções de Presidente da República que empreende algumas viagens pelo país em 1918, incluindo a visita a Évora, Faro, Olhão, Tavira, Vila Real de Santo António, S. Brás de Alportel, Loulé, Silves, Portimão, Lagos e Beja. Estas viagens proporcionaram um grande entusiasmo popular por todo o país e conferem-lhe um fulgor de líder forte e carismático, que gostava de ouvir a multidão a ovacioná-lo.
A 14 de fevereiro, o governador civil de Faro, capitão tenente Mendes Cabeçadas, informou o administrador do concelho de Silves, José Vitorino Mealha: “S. Exa. o presidente da República passará por esse concelho Sábado às 11 horas de caminho para Lagos” .
Cerca das 11 horas do dia 15 de fevereiro, sexta-feira, o presidente da República e sua comitiva chegavam a Faro. No sábado, 16 de fevereiro, a visita presidencial tinha como destino final Lagos, de modo que o presidente saiu, pela manhã, em automóvel para S. Brás de Alportel e seguidamente para uma breve visita a Loulé.

Sidónio Pais, acompanhado do presidente da Câmara Municipal e mais autoridades locais, saindo do edifício dos Paços do Concelho – Ilustração Portuguesa, n.º628, de 4 de março de 1918

De seguida, Sidónio Pais dirigiu-se a Silves, passando por Alte e S. Bartolomeu de Messines onde “teve uma grande recepção” , pois desta terra eram “naturais quase todos os rapazes de Infantaria 33, que venceu o movimento revolucionário de 5 de Dezembro, o Sr. Dr. Sidónio Pais atravessou as ruas da vila a pé, soltando vivas àquele regimento” .

Entrando na cidade de Silves, pela Rua Cândido dos Reis, o Chefe de Estado teve uma receção grandiosa, repleta de entusiasmo e um banho de multidão, composta por todas as classes sociais. Foi recebido no Salão Nobre da Câmara Municipal, onde o presidente da Comissão Administrativa, o Dr. João Vitorino Mealha, leu uma arrebatadora saudação. Por fim, o presidente Sidónio Pais num empolgante discurso agradeceu todas as deferências.

Faz o relato o periódico tavirense “Província do Algarve”:
“(…) no sítio da Cruz de Portugal aguardava a chegada do ilustre visitante numerosas pessoas, que o acompanharam entre frenéticas aclamações até aos paços do concelho. A recepção teve lugar na sala nobre da Câmara Municipal que apinhada de senhoras e adornada de ricas colchas de seda oferecia um lindo aspecto.
A vasta sala encheu-se por completo, espalhando-se a enorme multidão pelos claustros e escadarias do edifício. (…) Em seguida o Sr. presidente da República avançando no estrado proferiu um pequeno discurso que calou profundamente no ânimo de toda a numerosa assistência, recordando o glorioso regimento algarvio, Infantaria 33, que de uma forma tão brilhante e decisiva contribuiu para a vitória do 5 de Dezembro.
(…) As afirmações de S. Exa. foram apoiadas com calor por toda a assistência, ouvindo-se no final uma prolongada e quente salva de palmas” .

Aspeto da chegada do Sr. Presidente da República a Silves, junto à Fábrica do Inglês – Ilustração Portuguesa, n.º628, de 4 de março de 1918

Segundo o jornal “Província do Algarve” o presidente terá manifestado interesse em visitar o Castelo, mas devido: “ao adiantado da hora e ter ainda de seguir viagem para Portimão e Lagos não o pôde fazer. À saída dos paços do concelho repetiram-se as entusiásticas manifestações, ouvindo-se muitos vivas ao chefe de Estado, ao herói de 5 de Dezembro, à República Nova, à Pátria Portuguesa, etc. Na manifestação incorporaram-se duas bandas de música e as associações Corticeira e Empregados do Comércio, tendo este encerrado as suas portas” .

De Silves seguiu-se a visita a Portimão e Lagos, regressando depois a Lisboa, com passagem por Beja.

Por sua vez no periódico silvense “Voz do Sul” pouco ou quase nada foi mencionado sobre a visita presidencial ao Algarve e a Silves, fazendo apenas uma pequena alusão à passagem do comboio presidencial em Albufeira, o que se deve ao facto de ser um “Órgão do Partido Republicano Português”, mais concretamente, do Partido Democrático, deposto pelo golpe de Sidónio.
No dia 18 de fevereiro, na reunião da Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Silves, foi apresentado “um telegrama do Presidente do Gabinete do Ministerio da Guerra, agradecendo em nome de Sua Excelencia o Senhor Presidente da Republica, as manifestações que a este foram feitas pela sua passagem por Silves” , a Câmara “mandou que se oficiasse a Sua Excelencia o Senhor Presidente da Republica, agradecendo a honra da sua visita a esta cidade” , bem como que se “adquira um retrato do actual Presidente da Republica (…) a fim de o colocar na sala de sessões e no logar d’honra que por direito lhe pertence” .

Em relação às despesas realizadas por esta Câmara com a receção ao Dr. Sidónio Pais, estas foram no valor de 112$04 , que correspondem a 121$14 a pagamentos de diversos artigos e 0$90 a Francisco Sebastião Cabrita por artigos que forneceu à filarmónica de Silves.
Amado por uns e odiado por outros a presidência de Sidónio Pais não foi longa, uma vez que foi assassinado na gare do Rossio, em Lisboa, na noite de 14 de dezembro de 1918.

Volvidos cem anos da visita do Presidente da República Sidónio Pais ao Sul do País foi evidente o sucesso da visita presidencial, recebido por uma multidão entusiástica que enchia ruas e praças e em ambiente de festa demonstravam o seu apoio ao líder mais carismático da Primeira República.

 

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