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Na Urbanização do Enxerim, moradores decidem:”Vamos nós começar a fazer!”

“O que faz falta é agitar a malta” cantava Zeca Afonso e que bem se aplicaria ao que vem acontecendo na Urbanização do Enxerim desde que um pequeno grupo de moradores decidiu tomar a iniciativa de mudar o seu bairro.
Já conseguiram pequenas vitórias e uma maior, com a construção do Circuito para Atividade Física, inaugurado em abril. Os seus planos para o próximo ano são ambiciosos e incluem uma eco-pista.
Mas tudo começou com um simples canteiro.

Flávio Vieira, Micaela Santos e Andreia Gomes são os principais responsáveis pelas mudanças que têm acontecido nos últimos dois anos na Urbanização do Enxerim.

Micaela Santos e Andreia Gomes dão a cara pela revitalização da Urbanização do Enxerim

O encontro, por assim dizer, de Micaela Santos e Andreia Gomes aconteceu na EB1 nº 2 do Enxerim. Um dia notaram que eram as pessoas que mais reclamavam, junto da escola, as reparações e melhorias que era necessário fazer.
Entretanto, numa ponta da urbanização, Flávio Vieira começou a embelezar o seu canteiro e o espaço em volta.

Em “conversa de café” ( no Canivete) chegaram à conclusão de que não “as queixas não davam em nada” e que a sua participação no processo seria essencial. “Vamos nós fazer” – passou a ser o novo conceito.

De início começaram por arranjar e embelezar os canteiros junto às habitações, a apanhar o lixo, a sensibilizar os donos dos animais para não deixarem os cocós na rua, a varrer as ruas e a lavá-las – um conjunto de tarefas que foram progressivamente conquistando outros moradores, como se vê pelo bom número de canteiros e espaços arranjados. “As pessoas começaram a aderir, a querer também o seu canteiro bonito”.
No ano passado, estas ações ganharam um outro impulso quando pediram e obtiveram a ajuda do presidente da Junta de Freguesia de Silves, Tito Coelho. Com a cedência de materiais como areia, pedras ou tintas tem sido possível pintar muros, fazer pequenos arranjos e foi até construído um jardim num espaço que se encontrava abandonado.
Num outro local foi plantada uma horta comunitária para crianças. Foram elas que plantaram e cuidam da horta de onde despontavam atrativos morangos vermelhos no dia da reportagem… Para muitos, este processo tem sido simplesmente “maravilhoso”, como descreve Micaela Santos.

Na Horta Comunitária plantada por crianças

Foi também no ano passado que surgiu a ideia de se aproveitar o espaço já existente no Enxerim e aí instalar equipamento desportivo. Desenharam um projeto, foram à reunião do Orçamento Participativo da Câmara Municipal de Silves e tiveram todo o apoio quer da “parte da presidente Rosa Palma, quer por parte da vereadora Luísa Luís”.
A ideia foi aprovada, executada e o novo espaço foi inaugurado em abril deste ano.

“E é tão giro ver como as pessoas cuidam daquilo e como se juntam todos, os miúdos da aldeia ( do Enxerim) vêm juntar-se a estes, é fantástico”, diz Micaela Santos.

Ao lado dos miúdos e dos mais graúdos, um destes destaca-se, é “o senhor João, com 87 anos, que vai todos os dias fazer ginástica”, num espaço que “aproxima gerações”, conta Andreia Gomes.

“ Os autarcas não conhecem nem podem conhecer as realidades de todos os munícipes, têm de ser as pessoas a ir às reuniões, a apresentarem os problemas e as suas ideias”, defende Andreia.

Neste caso destacam ainda outro aspeto: para esta intervenção, que muda de facto o aspeto da urbanização, não são necessárias grandes verbas nem despesas avultadas, são montantes perfeitamente acessíveis à Junta de Freguesia de Silves ou Câmara Municipal já que a mão de obra cabe aos moradores.
Com o esforço comum é possível dar outro aspeto ao bairro, “que haja aprumo, asseio, evitar que seja um gueto”, diz Andreia. O facto de haver muitas habitações encerradas (fruto do conflito que opôs a construtora, a Cooperativa de Habitação Económica, entretanto extinta, e a Câmara Municipal de Silves, há uma década atrás), contribui para o aspeto de abandono e a degradação que estes moradores combatem. “E não escreva «Bairro do Enxerim» que nós queremos combater esse estigma”, dizem. Escreva «Urbanização do Enxerim»”… e brincam: “nós até dizemos que a Urbanização do Enxerim se vai transformar no Resort do Enxerim”.

 

E talvez vá, à sua maneira… No dia da nossa reportagem já estava marcada uma “sessão de pintura de muros” para os próximos fins de semana, com a colaboração da Junta de Freguesia que oferecia as tintas.
E o projeto para ser apresentado ao próximo Orçamento Participativo está praticamente concluído, tendo como objetivo a criação de melhores condições de circulação para pessoas e bicicletas que se deslocam da Aldeia do Enxerim até ao supermercado Mini-Preço.

Os abacateiros

“As coisas só não se conseguem se não tivermos vontade” diz Andreia Gomes. A conversa, nessa altura, decorria junto à rua onde cresce cerca de uma dezena de abacateiros. Um projeto que outro morador, Bruno Prates, tem desenvolvido com miúdos. Começaram por plantar o caroço e agora têm acompanhado o crescimento da planta, sendo que cada um vai apadrinhar um abacateiro.
Daqui a uns tempos haverá fruta e sombra nesta rua da urbanização. O que custou? A boa vontade de várias pessoas.

A jornalista (que já vai nos cinquenta) lembra o período do pós 25 de abril em que por todo o país surgiram comissões de moradores e todo o trabalho que se fez na altura e a generosidade que as pessoas demonstravam na sua entrega à comunidade. A que se seguiu um grande período de dormência progressiva, comodismo e muitas vezes até indiferença.

Há certos temas que não é possível tratar com a isenção que se aprende nos manuais. Repete-se no texto o que se disse no local: Muitos parabéns pelo vosso trabalho e força para o continuarem!

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