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Reading: Centenário do Jornal “Voz do Sul”
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Terra Ruiva > Sociedade > História & Património > Centenário do Jornal “Voz do Sul”
História & PatrimónioSociedade

Centenário do Jornal “Voz do Sul”

Vera Gonçalves
Última Atualização: 2016/Out/Qua
Vera Gonçalves
9 anos atrás
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Em Silves, no edifício da Câmara, encontra-se patente, até ao final do mês de outubro, a Exposição do Arquivo Municipal com o tema “Centenário do Jornal Voz do Sul” .
A exposição é acompanhada de imagens e documentos.
O Terra Ruiva colabora com esta iniciativa do Arquivo Municipal publicando uma versão resumida do texto da exposição. A versão integral do texto, acompanhada de várias fotos e documentos, está disponível aqui: expo-dm_10_centenario-do-jornal-voz-do-sul

Centenário do Jornal «Voz do Sul»

A imprensa portuguesa da fase final da Monarquia ecoava fortemente as tensões sociais existentes entre os monárquicos, os republicanos, os socialistas, os trabalhistas e os anarquistas, defendendo cada jornal uma postura ideológica. A imprensa foi o melhor meio de propaganda do republicanismo emergente, difundindo as novas ideologias libertárias e republicanas.
Em Silves destacavam-se os republicanos Francisco Vieira, António Vaz Mascarenhas Júnior, João José Duarte, Henrique Martins, Julião Quintinha, Samora Barros e João Vitorino Mealha, entre outros, que desenvolveram uma atividade estreitamente ligada aos problemas do operariado corticeiro, combatendo as precárias condições dos trabalhadores e a exploração em que viviam os operários, bem como no desenvolvimento de Silves com melhorias significativas a nível da instrução e beneficência, melhoramentos no urbanismo, arruamentos, utilização de espaços públicos e no abastecimento de água e luz.
Em 1914 começou a I Guerra Mundial e a imprensa portuguesa dedicou grande atenção ao conflito desde a primeira hora, devido ao envolvimento de Portugal.
Em Silves, as condições da indústria e a vida do operariado agravaram-se, uma vez que Portugal perdeu os seus principais mercados de exportação de cortiça manufaturada.

Curiosamente é durante este período de carências que, em Silves, Henrique Martins fundou em outubro de 1916, o Jornal «Voz do Sul».

Henrique Augusto da Silva Martins, nasceu em 1891, em Santarém.

Henrique Martins
Henrique Martins

Republicano convicto, em 1907, ainda antes da proclamação da República, filiou-se no Partido Republicano Português (PRP) e na cisão republicana, aderiu ao Partido Democrático, tendo sido amigo pessoal de Afonso Costa e Marques Guedes.
Aos 20 anos, fixou residência em Silves onde constituiu família casando com Maria Aurora Glória Callapez, com quem teve oito filhos. Foi proprietário da “Tipografia Artística do Algarve” e da Livraria, Papelaria com o mesmo nome, localizadas na Rua 5 de Outubro, em Silves, frente a sua casa e escritório. Foi sócio fundador da “Empresa Cinematográfica Silvense”, Juiz de Direito substituto e Presidente da Associação Comercial de Silves.
Foi Vice-presidente e Presidente da Comissão Executiva da Câmara Municipal de Silves. Teve uma incansável atividade em prol do Partido Republicano, tendo sido delegado ao Congresso do PRP em Lisboa, em 1925. Quando surge o Estado Novo, em 1926, era o Presidente da Junta Geral da Província do Algarve e Provedor do Hospital da Santa Casa da Misericórdia de Silves.
Republicano de alma e coração integrou o MUD e fez parte das comissões concelhias de apoio às candidaturas de Norton de Matos, de Arlindo Vicente e de Humberto Delgado. Foi um marcante opositor ao Estado Novo, apoiando os movimentos e organizações de oposição à ditadura salazarista, sendo, por isso, juntamente com a sua família e tipografia, vigiado pela PIDE e considerado um dos principais oposicionistas de Silves.
Henrique Martins faleceu em Silves, a 25 de maio de 1959. A notícia da sua morte foi recebida pela população com a maior tristeza e noticiada pela imprensa local e regional.

Com a morte de Henrique Martins, o seu filho, José Júlio Martins, assumiu a direção do jornal «Voz do Sul», no qual colaborava com artigos de opinião, até à sua extinção em novembro de 1968.

José Júlio da Silva Martins nasceu a 23 de abril de 1916 e faleceu, aos 66 anos de idade, em Lisboa. Formou-se na Faculdade de Direito em Lisboa e estabeleceu-se em Silves. Casou em 1947 com a D. Maria Gabriela Albuquerque Rodrigues Rocha de Gouvêa Martins, de quem teve três filhos.

José Júlio Martins
José Júlio Martins

Foi professor na Escola de Comércio e Indústria de Silves e mais tarde na Secundária e exerceu funções de presidente da Associação de Futebol do Algarve e presidente e vogal do Conselho Jurisdicional da Federação Portuguesa de Futebol.
No campo político, por influência paterna, partilha os ideais democráticos e em 1976 é convidado e adere ao Partido Socialista. Eleito pelas listas do Partido, para a Assembleia Municipal de Silves, exerce o cargo de Presidente até à sua morte.

 

 

 

“Voz do Sul”logo-voz-do-sul

 

 

 

 

 

 

 

O jornal Voz do Sul, que veio a público no dia 8 de outubro de 1916, ao longo dos seus 52 anos de existência contou com vários diretores: João Barbosa (de outubro 1916 a dezembro de 1917); Maurício Monteiro (de janeiro de 1918 a agosto de 1920 e de junho de 1921 a setembro de 1922); o próprio Henrique Martins (de setembro de 1920 a junho de 1921 e depois de setembro de 1922 até ao seu falecimento em maio de 1959); e por último o seu filho José Júlio Martins (de maio de 1959 à sua extinção).
De periodicidade semanal, era publicado aos domingos, tendo sido alterado mais tarde para as quintas-feiras. Em relação ao número de páginas estas oscilavam entre as 4 e as 8 páginas, apesar do primeiro número enunciar que seria “sempre com 8 paginas”.
Teve como editores Henrique Martins e também João Lopes Viana Ramires, Cristóvão S. Júnior, A. Bernardo Salgado e Joaquim Sequeira.
Maurício Monteiro desempenhou as funções de redator principal até dezembro de 1917, cargo que entretanto desapareceria, mas em junho de 1921 o pintor Samora Barros assume estas funções até janeiro de 1926, altura em foi substituído por João Ribeiro que as desempenhou até dezembro de 1932, data da extinção definitiva do cargo.
Dispunha de tipografia própria: a “Tipografia Artística do Algarve”, sito na Rua 5 de Outubro, Silves, propriedade do próprio Henrique Martins, sendo o seu quadro tipográfico constituído por Joaquim Sequeira e Silvestre Maria da Conceição, ambos naturais de Silves.
Distinguiram-se nas suas colunas algumas figuras notáveis da intelectualidade silvense e algarvia como Julião Quintinha, Samora Barros, Joaquim Sequeira, Joaquim Silvestre, Cruz Malpique, João Carlos Mascarenhas, João José Duarte, João Lopes Ramires Reis, Formosinho Mealha, Luís Leitão, Vitoriano Rosa, Nuno Cabeçadas, Pedro Mascarenhas Júdice, Garcia Domingues, entre outros, sendo a grande maioria opositores ao regime salazarista.
O Voz do Sul, desde o seu início, se identificou claramente como um «Órgão do Partido Republicano Português», o que vinha expresso no cabeçalho. Esta designação desaparece em 1920, ressurgindo em março de 1927 como «Semanário Republicano» e em 1942 alterou para «Semanário Regionalista Republicano».
Este conceituado e temido semanário combateu sem tréguas a ditadura salazarista e o seu regime autoritário, fazendo forte oposição às ideias da ditadura militar e do Estado Novo apoiando, a Aliança Republicana Socialista, o Movimento da Unidade Democrática e as candidaturas presidenciais do General Norton de Matos (1949), de Quintão Meireles (1951) e de Humberto Delgado (1958).
Apesar da apertada vigilância da censura, nunca a «Voz do Sul» deixou de cumprir a sua missão e de manter a periodicidade, lutando contra todas as adversidades políticas e económicas. Contudo, o jornal esteve diversas vezes suspenso pelas autoridades e a sua redação sofreu buscas e apreensões pela PIDE, a polícia política do Estado Novo, constando nas publicações a seguinte mensagem “Este número foi visado pela censura”.
Em maio de 1959, por morte de Henrique Martins, ascendeu ao leme de «Voz do Sul» o seu filho, José Júlio Martins. Contudo, o periódico foi perdendo o seu ideário oposicionista, remetendo-se a uma estratégia de sobrevivência e de, certa forma, de complacência política. Desenvolvendo um cariz mais literário e cultural em detrimento da sua forte componente critica e opinativa. Surgem interessantes estudos históricos da autoria de Pedro Mascarenhas Júdice, Garcia Domingues, Cruz Malpique, Formosinho Mealha, entre outros estudiosos da cultura algarvia.

No dia 11 de novembro de 1968, com o n.º 2207, saiu para as bancas o último jornal extinguindo-se assim este periódico que foi considerado “o periódico de maior circulação da nossa província”.

No que respeita ao primeiro número a «Voz do Sul» é composta por oito páginas.
No cabeçalho, ao centro, ostenta o título da publicação sobre a qual aparece a referência à sua ideologia politica.
A primeira página abre com o chamado “artigo de fundo”, não assinado mas da autoria do diretor João Barbosa, onde expõe um texto dedicado à Implantação da República, a 5 de outubro de 1910. Nas páginas interiores, além das notícias, desfilam as diversas secções, com particular incidência nas que se designam:
«Glosa da Semana» – crónicas políticas da autoria de Julião Quintinha;
«Pela Rama» – secção de cariz humorística e recreativa, que também noticiava pequenos apontamentos sobre personalidades silvenses;
«Literatura» – secção cultural de poesia e verso;
«Carteira Elegante» – referência aos aniversários;
«Caixa Postal» – cartas;
«Pelo Algarve» – notícias referentes a várias cidades e vilas da província;
«Noticiário» – coluna social dedicada às partidas e chegadas de personalidades a Silves, pedidos de casamento, nascimentos, doentes, etc.;
«Noticias Oficiaes» – nomeações a cargos públicos e abertura de concursos públicos para esta Província, publicados no Diário do Governo;
«Sport» – noticiário desportivo;
«Edital» – publicação de editais da Comissão Executiva e Câmara Municipal de Silves;
«Ecos Proletários» – secção de crítica contra a exploração do operariado;
«Actualidades» – artigos políticos da autoria do Dr. Maurício Monteiro;
«Obras Municipais» – secção dedicada à realização de obras municipais pelas diversas autarquias algarvias;
«Folhetim» – textos em formatos de folhetins de carácter literário e político da autoria de Julião Quintinha.
Nas duas últimas páginas encontram-se os anúncios publicitários do comércio e indústria local, que, com o passar dos tempos passaram a ocupar também outras páginas.

Em síntese, resta dizer que este brilhante periódico, que nasceu por vontade do notável e ilustre Henrique Martins, contém artigos de extrema importância para a história contemporânea de Silves e toda a região merecendo, assim, por parte de investigadores e estudiosos da história do algarve um aprofundado estudo.

Contudo, não existe no Algarve uma coleção completa deste periódico, tendo o Arquivo Municipal à sua guarda até ao nº357, de 8 de março de 1925. Mas a Biblioteca Nacional de Lisboa dispõe de uma coleção completa, a qual pode ser consultada com relativa facilidade.

Agradecimento
À Dra. Gabriela Martins, neta do ilustre Henrique Martins, pela cedência de fotografias e disponibilização de dados biográficos referentes ao seu pai e avô.

Bibliografia
Jornal «Voz do Sul»
MESQUITA, José Carlos Vilhena, História da Imprensa do Algarve – II, Comissão de Coordenação da Região do Algarve, 1989

Cantares ao Menino, em Tunes
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PorVera Gonçalves
Natural da Sé de Faro, oriunda de S. Brás de Alportel, nascida em 1980. Licenciada em Línguas e Literaturas Modernas variante de Estudos Portugueses e Pós-graduação em Ciências Documentais – Ramo Arquivo pela Universidade do Algarve. Funcionária da Câmara Municipal de Silves, desde 2005, como técnica superior de arquivo.
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