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A praga que vem da serra – Veados e javalis saqueiam plantações

No último ano começaram a chegar ao Terra Ruiva relatos sobre uma “praga” que desce da serra algarvia, composta por veados e javalis. Nos últimos meses, as queixas intensificaram-se. Junto à serra (mas não só) há inúmeras populações à beira de um ataque de nervos e com muitos prejuízos.

“Os veados são como os burros, comem tudo o que apanham”, quem o diz é Alfredo Gonçalves, morador na zona da Cumeada Velha, na fronteira entre as freguesias de Silves e de S.B. Messines.

No terreno que tem junto à casa dedicou parte do seu tempo a plantar árvores de fruto, legumes e o mais que se lembrasse, para sustento próprio. Agora, já desistiu. Tudo o que plantava era devorado pelos veados que descem aos bandos até junto das residências. Do pomar também não consegue colher os frutos pois que os veados comem todos os rebentos das árvores, roem e partem os ramos e só algum fruto muito alto, a que não consigam chegar, é que pode escapar.

O problema de Alfredo Gonçalves é também o problema dos seus vizinhos. Um deles “fez queixa ao Ambiente, mas a solução que lhe deram foi a de instalar vedações”.

A vedação, diz quem sabe, “não pode ser uma qualquer, tem de ser forte e bastante alta”. Para muitas pessoas, é o mesmo que dizer: demasiado cara.

Veado fotografado mesmo junto às habitações
Veado fotografado mesmo junto às habitações

Por toda a beira serra do concelho de Silves, o problema repete-se, quer no que respeita aos veados, quer aos javalis. Estes últimos, mais destemidos e “sem medo de nada, chegam a atacar os cães”, causam autênticas devastações por onde passam, seja na hortas ou nos jardins, como tem experienciado Rosa Monteiro, que vive em Vale de Lamas, na freguesia de Silves. Na sua casa, a relva junto à piscina é um alvo preferencial dos javalis que “revoltam tudo”.

 

 

 

 

Um dos problemas desta situação, como diz António Santos, é o facto de muitos dos estragos provocados por estes animais serem feitos em pequenas propriedades, que são “essenciais para a economia doméstica daquelas pessoas”. Ou seja, “as pessoas estão a contar com aquelas batatas que semearam e que lhes devia dar para uns meses”. Sendo que muitas das pessoas que vivem nas zonas da serra são pessoas idosas e com menos recursos, o que produzem nos seus terrenos é importante para a sua sobrevivência económica.
Para agravar a situação, são precisamente as pessoas com estas características que têm menos capacidade para apresentar reclamações na entidade devida. Assim, o problema tem crescido perante o que parece ser a indiferença geral.
A par disto, outra preocupação começa a tomar forma: é cada vez mais frequente encontrar veados junto às estradas do interior, como a que liga S. Marcos da Serra e Silves e nas zonas dos Canhestros, Vale Fuzeiros, ou ao redor da Barragem do Arade.

Veados na serra de Silves

Os veados foram introduzido na serra de Silves em 1986, pela Direção Geral de Florestas, na Mata Nacional da Herdade da Parra, que é atualmente gerida pelo Instituto da Conservação da Natureza e Florestas.
Estava a decorrer a constituição da Zona de Caça Turística da Serra de Silves criada pela Câmara Municipal de Silves que, além do Centro Cinegético ( na atual Quinta Pedagógica) previa a construção de várias estruturas, entre as quais uma pousada.
O projeto, desenvolvido pelo presidente José Viola, foi abandonado pela presidente Isabel Soares e, em 2005, a Câmara deixou caducar a concessão. A enorme e riquíssima área cinegética do concelho foi repartida em dezenas de zonas de caça ( mais de 30, na lista da Federação dos Caçadores do Algarve).
Sabe-se que foram sete os veados libertados de início na Herdade da Parra. Em 2008, um censo feito pela Associação Viver Serra estimava em 160 o número de animais existente, atualmente fala-se em 300 veados mas de facto ninguém sabe quantos são. Nos blogues de caça, encontram-se relatos de avistamentos de veados, supostamente oriundos de Silves, nos concelhos vizinhos de Monchique e de Loulé e até em S. Brás de Alportel.
Já os javalis, esses, são aos milhares, por todo o lado. Desde S. Marcos da Serra à várzea do Benaciate, já em pleno barrocal algarvio, há relatos de avistamentos, confrontos e prejuízos… muitos prejuízos.
As caçadas regulares ao javali têm contribuído para atenuar o problema, mas ele subsiste.

Vedações e reclamações

Para prevenir os prejuízos, a única solução que surge é a de colocação de vedações apropriadas para resistirem à força e capacidade de impacto destes animais.
Uma solução, como já se viu, impraticável para muitas pessoas. Até porque muitas questionam por que razão terão de ser elas a pagar para serem protegidas de um problema que não criaram…
Quando os estragos estão feitos, diz a lei que “a responsabilidade pelos prejuízos cabe às entidades gestoras das zonas de caça”. É portanto a essa entidade que as reclamações têm de ser apresentadas.
Se e quando for considerado que os animais estão a exceder o número conveniente, o ICNF pode então autorizar que seja feita “ a correção da população”. Como e em que condições pode ser feita essa “correção” tem de ser esta entidade a determinar.
Sobre esse assunto, o Terra Ruiva dirigiu algumas questões ao ICNF, cujas respostas não chegaram nem a tempo da nossa edição em papel, nem nas duas semanas que já se passaram entretanto.

Assim, voltaremos a este assunto em próximas edições.

O enorme valor da caça maior
À parte os prejuízos causados por estes animais – veados e javalis – pode-se olhar para este problema de outro ângulo: o enorme potencial financeiro que possuem.
Hoje em dia, a caça movimenta 300 milhões de euros anuais e o turismo de caça, aliado ao turismo de natureza, não para de crescer.
O Clube Português de Monteiros tem inscritos mais de 35 mil caçadores para esta chamada “caça maior” e é de referir que há montarias em que se chega a pagar “mais de mil euros só para participar”, nomeadamente na caça ao veado.
Já no Parque de Montesinho, no concelho de Bragança, onde vivem 600 veados, há um número cada vez maior de turistas que chega no princípio do outono, na “época da brama, quando os machos lutam pelas fêmeas”, para assistir a um espetáculo que é descrito como “imperdível”.
Se se conseguisse conciliar este lado lúdico e financeiramente rentável com a realidade e as necessidades do dia a dia das populações ( as receitas a pagarem os prejuízos?) ver um veado ou um javali no quintal talvez não fosse tão desesperante.

Mas, por agora, as populações exigem e necessitam de respostas eficazes.

Texto: Paula Bravo
Fotos: Alfredo Gonçalves

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