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Exposição de Christine de Roo no Museu Municipal

A exposição “Um Caminho de Prata e Ouro”, da artista plástica Christine de Roo, abre portas no dia 27 de fevereiro.
A inauguração desta mostra, que estará patente no Museu Municipal de Arqueologia (Sala de Exposições Temporárias) até dia 8 de maio, terá início às 16h00 e contará com um momento de declamação de poesia árabe em português e árabe por António Baeta e Mustafá Zekri.

A mostra conta com 28 obras, que procuram estabelecer uma ligação entre a poesia e a pintura, nomeadamente a poesia islâmica, produzida durante a presença dos povos muçulmanos em território português, por poetas medievais como Al-Mu‘tamid, rei de Silves e Ibn ‘Ammâr, Ibn Sâra ax-Xantarinî e Ibn Muqânâ, entre outros. Estas pinturas têm como tom dominante o preto, considerada no Islão como «a cor suprema por fixar o imaterial, simbolizando o pensamento concretizado», diz a autora, Christine de Roo.

 

 

 

 

«LCD_caminho de Ouro e Prata siteSobre “um caminho de prata e ouro”, por António Trinidad Muñoz (Historiador de Arte, Universidade da Estremadura)
Em 1914, um jovem engenheiro belga formado na Universidade de Gant e procedente de Constantinopla chegou a Lisboa com a missão de construir uma central elétrica (a Central Tejo). Um século depois, essa central é agora um museu, e a sua neta uma artista.

 

 

A capacidade de reflexão, de análise, de imaginação e de criação são rasgos próprios do engenheiro. Também o são da artista. A obra de Christine De Roo é devedora e portadora do que vem anteriormente. Assim, essa obra é ordenada/animada por quatro vetores fundamentais:
– O diálogo com a poesia
– O compromisso pedagógico
– O fascínio pelo essencial
– A importância do silêncio
Poesia e artes plásticas
O diálogo entre os sinais verbais e visuais, entre a palavra e a imagem, foi uma constante desde os tempos antigos. Horácio, na Epístola aos Pisões, fala de “ut pictura poesis”, a poesia como pintura, e Simónides de Ceos, no séc. IV a. C., atribuiu a Plutarco a afirmação. “A pintura é poesia muda, a poesia é pintura que fala”. Séculos mais tarde, Leonardo respondeu a Plutarco: “E se chamas à pintura poesia muda, o pintor poderia dizer que a poesia é pintura cega. Então diz-me: qual é a maior imperfeição: a cegueira ou a mudez?”.
Mais conciliador, Almeida Garrett, no seu Ensaio sobre a História da Pintura, afirma: “A poesia animada da pintura exprime a natureza toda.” Seja como for, desde sempre e até hoje, uma ao lado da outra, a poesia e a pintura são duas manifestações artísticas irmãs e paralelas, em diálogo permanente. Christine De Roo sabe-o e participa dessa aproximação.
Porém, não se limita a representar o que lê. Interpreta livremente. Não é portanto uma reprodução plástica do texto o que ela oferece, mas sim uma revelação, uma visão depurada e livre. António Saura, em Escritura como pintura – Sobre la experiencia pictórica, afirma: “O pintor, o que deve fazer antes de mais nada, é ler bem o texto, impregnar-se dele, para descobrir um lugar de encontro propício, refúgio da sua experiência e chave do labirinto do escritor”. Foi o que fez Christine De Roo: mergulhou na poesia árabe do al-Andalus para a devolver iluminada, secreta, capturada; não traduzida mas motivada, evocada e incorporada. Estes quadros expostos são obras inspiradas e independentes.
Obras novas.
Compromisso pedagógico
Como Giotto, que utilizava os textos bíblicos como inspiração para os seus quadros, Christine utiliza a poesia medieval como inspiração para a sua obra e, se ele o fazia para difundir a fé católica no intuito de aproximar o povo da religião, ela parece fazê-lo para devolver às gentes do séc. XXI a beleza essencial da poesia da Idade Média, contribuindo para fazer do mundo um lugar mais sensível e mais sincero.
Pode afirmar-se que esse compromisso pedagógico é uma constante da obra desta artista, seja através de um olhar lúdico e sorridente como, por exemplo, na instalação Sogno d´Orso, seja numa leitura mais íntima e espiritual, como foi o caso do Cantique des cantiques de São Bernardo de Claraval, que expôs em Orval (Bélgica), ou, agora, nesta visão da pintura andalusí um caminho de prata e ouro. Há também nesse regresso ao passado um compromisso com o essencial, uma expressão de vigência, um desejo de protesto, uma vontade de contribuir para a educação da sensibilidade da sociedade em que vive. Talvez também a reivindicação de um legado bastante ignorado mas nem por isso menos importante do nosso passado. O fenómeno cultural do al-Andalus, como o assinalou Manuel Francisco Reina, representou um marco fundamental em algumas áreas sensíveis como o respeito mútuo, a convivência e os direitos dos menos favorecidos em questões de género, de ideologia e de orientação sexual, causas que ainda hoje não deveriam ser ignoradas. A artista sabe disso e daí a oportunidade de reassumir esse fenómeno cultural.
O fascínio pelo essencial
Essa atração de Christine De Roo pela Idade Média pode e deve ser interpretada como um diálogo entre a modernidade e a tradição nas suas origens. Mas De Roo não se interessa pela tradição enquanto costume, com o ruído dos seus ritos e artifícios, mas por aquilo que a tradição tem de mais essencial. Por isso despe-a de atavios e mostra-no-la nua na sua complexidade. Os quadros de De Roo, como os haiku, são a complexidade da simplicidade. Nessa busca do essencial é fundamental o uso da técnica. Christine De Roo sabe a importância que a técnica teve na história da pintura e por isso recorre à tinta-da-china. Há 3000 anos que o uso da tinta é conhecido na China. Foi lá que surgiu e de lá expandiu-se a prática do sumi-e, a importância da simplicidade e o gesto. Começou com a dinastia Tang (618-907) e implantou-se como estilo durante a Dinastia Song (959-1279). Quer dizer que, enquanto pintores como Ma Yuan ou Liang Kai se exercitavam em delicadas harmonias sobre papel de arroz, os poetas revisitados por De Roo compunham versos esculpidos pelos jardins de Silves e de Sevilha. De Roo homenageia uns e outros, recolhe o seu legado e devolve-no-lo valorizado e atualizado. A artista, consciente de que a tinta negra produz uma imensa gama de cores e matizes entre o branco e o preto, serve-se dela para criar espaços de tensão e de repouso. Os traços espessos de De Roo, as suas curvaturas e voltas, a sua caligrafia insinuada e os sinais sugeridos recriam a poesia feroz e crua de Al-Mu‘tadid, mais guerreiro que poeta, os reinos de Mértola e de Santa Maria do Algarve, e também, evidentemente, os amores de Al-Mu‘tamid e de Ibn ‘Ammar. O primeiro, rei-poeta de Sevilha, o poeta aventureiro; o segundo, seu mentor, seu vizir e seu traidor. Primeiro, amaram-se e, em seguida, destruíram-se. A ambição por Múrcia, a perda de Sevilha, o exílio em Marraquexe, as flores, a riqueza, o desamor, toda a paixão e toda a dor estão evocados e recriados no despojamento dos traços de De Roo.
Os espaços do silêncio
Christine De Roo está consciente de que uma obra de arte nunca é só um objeto representado, mas, pelo contrário, sempre e acima de tudo uma incitação à comunicação, um diálogo interior e contemplativo que agradece e engrandece o silêncio. Por isso, escolhe com cuidado e determinação os seus espaços de representação. Para expor os óleos intitulados A Natureza Sagrada escolheu o Mosteiro de Alcobaça; para a sua visão do Cantique des cantiques de São Bernardo de Claraval, o marco inigualável da Abadia de Orval; agora, para esta sua leitura da poesia andalusí portuguesa, o Museu Arqueológico de Silves, encostado às muralhas da almedina e em volta de um poço árabe. Espaços de silêncio e de contemplação onde a sua obra se exibe plena e nua, reduzida unicamente ao essencial. Conjuga-se a criação com o lugar, e anima-se a reflexão com o silêncio. Nada é casual. Tampouco o que se mostra – uma obra profunda, sentida e reflexiva, merecedora da nossa atenção e do nosso apreço.»

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