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Em Messines foi plantado um dos maiores amendoais do Algarve

As amendoeiras já foram um símbolo do Algarve. A partir da década de 1930 tornaram-se frequentes os comboios especiais organizados pela CP que anualmente, durante o período de floração das amendoeiras, traziam muitos turistas à região.

Todavia, depois da construção de barragens, de que a do Arade, em 1956 foi pioneira, e da abertura de milhares de furos artesianos, um pouco por todo o território, o pomar tradicional de sequeiro algarvio – figueira, amendoeira, oliveira e alfarrobeira, começou a ser substituído pelos citrinos e mais recentemente pelos abacateiros. Espécies muito exigentes em água, principalmente estes últimos, ao contrário daquelas árvores, símbolos seculares da paisagem algarvia.

É certo que nas últimas décadas muito se alterou em termos económicos, mas também agrícolas, e os recursos hídricos superficiais e subterrâneos, agora disponíveis, mitigaram amiúde os efeitos das secas permitindo a aposta nestas culturas, mais rentáveis economicamente. Agora que o flagelo da seca se renova, de uma forma mais intensa, são muitas as vozes que se levantam contra aquilo que chamam de descaraterização paisagística da região, em busca do lucro fácil. Afinal os citrinos produzem 70 % da laranja nacional e os abacateiros (com cerca de 1 100 ha) 10 200 t nos próximos anos.

Na verdade, se excetuarmos as alfarrobeiras, onde se verificou um aumento de plantações este século, as figueiras e amendoeiras são cada vez mais residuais nos campos vermelhos do barrocal algarvio.

Há, todavia, uma exceção na freguesia de S. Bartolomeu de Messines. Símbolo maior na exportação de frutos secos do Algarve, nas décadas de 1960 e seguinte, através das empresas Teófilo Fontainhas Neto e Ramiro Cabrita & Irmão, aqui sedeadas, mas também pioneira na implementação do primeiro projeto de abacateiros na região (projeto Luso-Alemão), concretizado há várias décadas, a freguesia assistiu agora ao nascimento de um pomar de amendoeiras. Promovido por um casal de jovens engenheiros, mas não agrónomos, que apostou na plantação de um amendoal de 28 ha, junto à ermida de Nossa Senhora da Saúde, no Monte de São José. O qual constitui, muito provavelmente, o maior existente na região.

Regressar às origens

É uma «oportunidade de regressar às origens», confidenciou-nos Maria João Falcão Silva, nascida em Lisboa onde trabalha e reside. É certo que também o seu pai não nasceu na freguesia, mas eram de S. B. de Messines as suas origens maternas. Uma família abastada secular residente na então aldeia, pelo menos desde o século XVIII. A Maria João é sobrinha-tetraneta do Visconde de Messines (1792-1886), uma figura incontornável da história de S. B. de Messines no século XIX, e bisneta do Dr. Augusto Figueiredo Rocha, o primeiro médico municipal a residir na freguesia.

Foi assim com intuito de regressar à terra dos seus antepassados que em 2015 formou, juntamente com o marido, João Cancela, a sociedade «Casa Agrícola Noutel, Lda.». Segundo os promotores, a plantação de um pomar em regime intensivo e sistema de regadio de amendoeiras, em Produção Integrada, adveio da atratividade deste fruto «num mercado deficitário que tem capacidade para absorver mais produção». Afinal, lembram, «o aumento do consumo mundial e os problemas estruturais de solos e défice de água verificados nos grandes produtores mundiais tradicionais, nomeadamente nos EUA e o facto de existirem em Portugal algumas associações que garantem o escoamento comercial, tornam a produção de amêndoa uma atividade economicamente interessante».

Assim o casal converteu um velho amendoal num novo, intensivo e de regadio. Na plantação, efetuada no verão de 2018, foi considerado um compasso que permite a apanha mecanizada, o que possibilita uma poupança em mão-de-obra, aumentando a rentabilidade da operação. Em termos de variedades apostaram na Lauranne e na Soleta, pela sua «floração tardia, menos vulneráveis às geadas, e perfeitamente adaptadas às condições edafo-climáticas da região do Algarve». Variedades que consideram «bastante produtivas e com fruto de qualidade o que permitirá níveis de produção e rentabilidade interessantes».

O projeto, financiado pelo PDR2020 (Plano de Desenvolvimento Rural 2014-2020) no âmbito da Operação 3.1.1. Jovens Agricultores – Primeira Instalação e da Operação 3.2.1. Investimento na Exploração Agrícola, foi aprovado em dezembro de 2016, com um custo de cerca de 400 000 €, acrescidos de IVA. A primeira colheita está prevista para o próximo ano, sendo o escoamento assegurado por uma Organização de Produtores de cobertura nacional, na qual a Casa Agrícola Noutel se encontra inscrita.

Façamos votos para que o projeto atinja os objetivos previstos e que seja modelo na mudança da paisagem da região. Afinal não só as amendoeiras são árvores menos exigentes em água, como a floração voltará a pintar de neve os campos algarvios. Mas, por enquanto só mesmo em S. B. de Messines, graças às mãos dos jovens engenheiros Maria João e João, «num regresso às origens, não só para si, mas também para os seus filhos e todas as gerações vindouras», como os próprios fazem questão de frisar e acrescentamos nós, que constitua também um exemplo no Algarve no retorno à paisagem algarvia.

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2 Comentários

  1. Se há árvore que possa simbolizar a província do Algarve, essa arvora é a amendoeira.
    Nos meus tempos de menino, em meados do século passado, a amendoeira de sequeiro era, sem qualquer dúvida, a rainha em todo o Barrocal algarvio.
    A sua sobriedade edáfica e a pouca exigência, a que acresce a boa tolerância a um clima semi-seco, como é o do Algarve, permite-lhe uma boa adaptação a esta província, onde a sua representação foi já bem maior do que a actual, devido ao desaparecimento gradual de quem delas tratava.

    As amendoeiras são, na escala evolutiva da vida, parentes próximos dos pessegueiros, cerejeiras, ameixeiras, marmeleiros, pereiras, macieiras, nespereiras, assim como de várias outras plantas, dentre as quais a roseira, como uma das mais conhecidas.

    Enquanto, no Japão, as pessoas se encantam com as cerejeiras em flor, em Portugal, são as amendoeiras floridas que nos deslumbram.
    É no início de cada Primavera, estação que a amendoeira é primeira árvore a anunciar, que a sua floração veste os campos, numa explosão de cor, em cuja paleta os vários matizes vão do branco ao rosa, constituindo um monumento paisagístico único.

    São inúmeras as aplicações e qualidades do fruto desta rosácea, desde a doçaria, passando pela cosmética e dietética, ajudando na saúde cardiovascular, no uso medicinal, através do seu óleo de alta qualidade, que muito beneficia as células do cérebro, assim como pela riqueza em fósforo, cálcio – combatendo a osteoporose -, magnésio, potássio, fibras e antioxidantes, os quais, como se sabe, nos defendem dos radicais livres, visto que se combinam, perversamente, com tudo o que lhes aparece pela frente, alterando a estrutura de muitas células, sendo que os antioxidantes formam com eles entidades químicas estáveis.

    A amêndoa é, ainda, rica em gordura boa, monoinsaturada, a mesma que existe no azeite, e grande aliada de quem carece de diminuir o chamado colesterol ruim, o LDL, sendo, pois, uma amiga do nosso coração.
    Também nas amêndoas os diabéticos encontram ajuda e um meio natural para a diminuição da insulina e do nível de açucar no sangue.
    É igualmente um dos frutos secos com maior quantidade de proteína, sendo que o seu consumo regular induz a perda de gordura do corpo e de destacar, ainda, o efeito na tonificação do sistema nervoso.

    A par dum vasto rol de benefícios, este fruto, é também notável, como fonte das vitaminas E e do complexo B – as quais são, entre outros desempenhos, as chamadas ”vitaminas do cansaço” -, dentre as quais a B2 ( riboflavina ) e a B12.

    Pela minha parte, é suplemento alimentar que não dispenso, alternando com nozes, após cada refeição, a acompanhar o café, assim como a esplêndida torta de amêndoa, sempre que me desloco, em visita, à minha terra e que o meu amigo Carvalho tem a gentileza de me servir, no seu restaurante “O Retiro dos Caçadores”.

    É com satisfação, pois, que saúdo a iniciativa desta plantação, na minha terra, motivo que me levou a deixar aqui este pequeno comentário.

    Uma vez que falamos de amêndoas, deixo aqui o breve relato de um pequeno episódio, que, não obstante a sua insignificância, pode, perfeitamente, integrar um qualquer estudo sociológico, acerca do tipo de algumas mentalidades do meu tempo de criança.

    Junto à Rua de S. Sebastião, onde eu morava, havia o “Terreiro”, um beco, que tira o seu nome do facto de o chão ser, então, de terra batida.
    Para o beco abria-se o portão de um grande armazém de enorme espaço interior, onde eram amontoadas várias toneladas de amêndoas, apanhadas e trazidas de vários terrenos, a aguardar que fossem partidas para a venda posterior do miolo.
    Dentro do armazém, cinco ou seis mulheres encarregavam-se da custosa e paciente tarefa de partir as amêndoas, o que faziam do modo mais artesanal que é possível imaginar, ou seja, pegando nos frutos, um a um, e quebrando-os com um ferro.

    Eu, que por ali andava no meu “trabalho” de criança, ou seja, na brincadeira – teria sete ou oito anitos -, embora tivesse amêndoas em casa, entrei, por momentos, no armazém e pedi às senhoras um ou dois miolos de amêndoas, tendo uma delas respondido com um ar muito sigiloso :
    – “Não podemos dar, porque, se o senhor Neutel sabe, despede-nos”.

    Não é por acaso, nem pelo valor insignificante de dois miolos de amêndoa, que, setenta anos depois, este episódio permanece, indelevelmente, marcado na minha memória, mas pelo miserabilismo que ele corporiza e representa.
    A sua personagem central foi um senhor lavrador invisual de nome Neutel, que hoje aqui recordo e a quem desejo que descanse em paz.

    A vida de cada um de nós é também composta por pequenos acontecimentos, que, aparentemente insignificantes, acabam, formatando o nosso modo de ver o mundo.

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