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Reading: Entrevista a Raúl Carlos, presidente da Junta de Alcantarilha: “Devolver a Alcantarilha o brilho que tinha”
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Entrevista a Raúl Carlos, presidente da Junta de Alcantarilha: “Devolver a Alcantarilha o brilho que tinha”

Paula Bravo
Última Atualização: 2026/Jul/Qua
Paula Bravo
2 horas atrás
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Raúl Carlos é o presidente da Junta de Freguesia de Alcantarilha, eleito nas últimas eleições autárquicas pela Coligação Democrática Unitária- CDU.

Com 66 anos dedicados à freguesia, quer pela antiga profissão, quer pela vocação de fazer parte da vida da comunidade, candidatou-se mais uma vez para tentar devolver a Alcantarilha o brilho desta freguesia que considera ter sido muito prejudicada nos anos da União de Freguesias.

 

Em Alcantarilha é uma pessoa muito conhecida… mas para quem não o conhece, quem é o presidente da Junta de Alcantarilha?

É verdade que sou uma pessoa muito conhecida, em grande parte devido à minha profissão… fui carteiro durante 45 anos, por isso conheço toda a gente. Há vantagem e desvantagem, mas, há medida que o tempo vai passando, torna-se muito complicado. Porque as pessoas procuram-me muito e eu estou sempre disponível e não tenho cabedal para tanta encomenda.

Esta é uma freguesia muito rural, e eu vou por aí, e cada vez que apareço…só não me pedem uma auto estrada….

Vou vendo que tenho de ter cuidado com o esforço que faço, porque estou na Junta apenas a meio tempo. Meio tempo no papel, porque, às vezes, um dia não chega para responder a tudo.

Já está reformado?

Fez em abril um ano. E já tenho 66 anos, tenho de ter uns bocados para descansar. Não consigo estar parado, se me ligam lá vou eu… às vezes, para descansar, ponho o telemóvel de lado, mas depois tenho de ir ver as mensagens… Nos primeiros meses, eu não parava, até me avisaram que tinha de ter cuidado comigo. E não é só por causa do que as pessoas pedem. Quando ando por aí na carrinha, ando sempre com um caderno, tudo o que vejo que é necessário aponto, seja um trabalho da Junta de Freguesia seja da Câmara. O que vejo mais e me preocupa porque não sei como resolver é o problema do lixo. O lixo é uma luta todos os dias e enquanto não houver uma lei que permita uma câmara de vídeo e que a gravação seja considerada prova, não se consegue nada.

Há três semanas estive no sítio do Papa Rala, que faz extrema com a freguesia do Algoz, estava cheio de lixo, e agora voltei e está igual, assim que a Câmara limpa voltam a por lá lixo outra vez. Eu até digo que a Câmara devia tirar de lá os caixotes do lixo, para ver o que acontecia. Se calhar acontecia o mesmo que acontece na freguesia de Pêra, perto de São Lourenço, há um lugar onde já esteve um caixote de lixo, que já não está. Fica algum tempo limpo, mas basta alguém jogar para lá um saco para se juntar um monte enorme, é o pior sítio que conheço.

O Carlos antes de ser presidente já tinha participado no executivo da Junta.

Na União de Freguesias de Alcantarilha e Pêra, com o presidente João Palma, em 2017.  Fui eleito pela CDU e nessa altura o presidente era do PS e fiquei com o cargo de tesoureiro, mas a minha função era a de orientar a limpeza do cemitério e mercado. Estava no cargo de tesoureiro, mas de tesoureiro não tinha nada, porque normalmente os tesoureiros entregam essas competências.

Neste mandato, a vencedora das eleições foi a CDU e achávamos que o Executivo deveria ser só com os membros da CDU, mas não conseguimos esse acordo com o PS. Assim, somos dois eleitos da CDU, o presidente e o secretário (Ricardo Machado) e uma eleita do PS (Telma Sousa). Poderíamos ter-lhe entregue o cargo de tesoureiro, mas não fazia muito sentido, essa eleita está muito ocupada, trabalha em Portimão e vive em Silves, é complicado para ela. Assim fiquei eu com esse cargo e ela ficou com a responsabilidade da cultura e das redes sociais que são áreas que eu percebo pouco, e ficamos assim organizados, para o membro do PS é complicado, não íamos estar a castigar a pessoa por causa de politiquices.

Lembro-me que Alcantarilha foi a última freguesia do concelho a formar o Executivo e a Mesa da Assembleia, porque a CDU foi a mais votada, mas ficou empatada em número de eleitos (3) com o PS e este exigiu lugares no Executivo e na Mesa da Assembleia…

No concelho de Silves, só as juntas de Alcantarilha e de Pêra é que não têm um Executivo apenas com os eleitos da força política vencedora. Aqui nunca mais se resolvia, já todas as outras juntas tinham as situações resolvidas e nós não. O PS não aceitou bem ter perdido a Junta de Freguesia e insistiu em ficar no Executivo e também ficou com a presidência da Mesa da Assembleia. Mas para mim não faz sentido. Quem ganha é que deve ficar no Executivo, como acontece nas câmaras municipais. Este é um assunto que a ANAFRE (Associação Nacional de Freguesias) tem estado a discutir e a opinião dos autarcas é que isso deve ser corrigido.

Um Executivo com pessoas de várias forças políticas pode tornar-se complicado.

Aqui logo ao princípio, estava mais difícil, agora está a correr bem. Eu defendo que todos temos que trabalhar sem misturar as cores políticas. Eu tenho feito parte da Sociedade Recreativa Alcantarilhense, da Casa do Povo de Alcantarilha, também fui músico na Banda Filarmónica de Alcantarilha, desde o primeiro dia em que abriu a Escola de Música até ao dia em que a banda acabou, fiz teatro, fui bombeiro, participo nas marchas populares, no grupo das Janeiras que temos há muitos anos, faço parte de tudo o que se possa fazer aqui, desde miúdo, e nesses grupos há pessoas de diferentes cores políticas mas não misturamos nada disso, somos amigos e estamos ali para o mesmo.

Com tanta atividades na sua vida que o levou a concorrer à Junta de Freguesia? Já tinha sido candidato nas últimas eleições..

Nas duas últimas, com os anteriores presidentes João Palma e Roberto Cabrita.  Concorri porque acho que tenho competência para fazer alguma coisa para esta freguesia. E porque sou muito próximo das pessoas e sei o que precisam.

E Alcantarilha precisa de muito. A União de Freguesias veio atrasar o nosso processo de desenvolvimento porque das duas freguesias (Alcantarilha e Pêra) a nossa foi a mais prejudicada, nos últimos anos os presidentes investiram mais na outra freguesia e por consequência ficamos um bocadinho para trás.

Uma das coisas que eu mais queria ver em Alcantarilha era um polidesportivo.

Porque agora temos um polidesportivo na Casa do Povo, um sítio que foi feito para a prática desportiva mas não é usado para isso. Termos um espaço como a Câmara Municipal fez no Algoz, um sítio para muitas atividades desportivas. Já temos falado e há o problema de encontrar um terreno, este largo da Junta é espetacular mas não tem a dimensão necessária para um polidesportivo. Os miúdos jogam aqui à bola e eu até faço questão disso, mesmo com a bola a bater nas paredes, mas precisamos de um espaço próprio, a Câmara precisa de encontrar e não é fácil, a curto prazo. Mas penso que vamos conseguir.

É por estas razões que eu tenho concorrido, porque sinto que tenho capacidade de lutar para conseguirmos mais no desporto, na cultura. Fiz muitos anos teatro, tudo acabou, tenho pena, mas não pode ser o presidente da Junta a fazer isso voltar, têm que ser as associações. Cada vez que vou à Casa do Povo falo sempre no mesmo e dizem, lá vem ele com a mesma conversa, mas na verdade têm ali um edifício daqueles, com tantas possibilidades e nada se faz. Aquilo era uma casa que não parava. A Junta de Freguesia não se pode intrometer nos assuntos das associações e entidades, não são da nossa competência, eu percebo isso, apoiamos dentro daquilo que é a nossa possibilidade, ajudamos em tudo o que podemos. Financeiramente também é difícil.

Qual o orçamento da Junta de Freguesia?

Temos 300 e poucos mil euros anuais. Quase 70% é só para os ordenados. Depois é gerir o que resta.

As vossas competências?

Temos os caminhos rurais, a gestão do cemitério e do mercado, a limpeza urbana que engloba a recolha de monos, a deservagem. Para muitos trabalhos temos que contratar empresas porque quatro pessoas não conseguem fazer tudo isso.

Só têm quatro pessoas?!

Só temos quatro operacionais. Dois homens e duas senhoras, que já têm alguma dificuldade em fazer certos trabalhos. E só um dos operacionais é que tem carta. Já está a ver as dificuldades…  quando a pessoa que tem carta não está a trabalhar tenho de ser eu a fazer esse trabalho, e eu também não consigo carregar pesos, tive um acidente e parti uma série de costelas, tenho algumas dificuldades. Ando aqui sempre numa luta, tenho de ser eu a pegar na carrinha, e fica o outro operacional a andar por aí, sozinho a rabujar. E também são estes dois operacionais que fazem o serviço no cemitério. Portanto fazem a limpeza, fazem a recolha dos monos e dos verdes e quando há funerais também têm de ir tratar de tudo. Nós precisávamos de pelo menos mais dois operacionais, e estamos a tentar contratar mais uma pessoa.

Isto é demasiado trabalho e as pessoas nem se apercebem. Mesmo eu, que já estive noutro Executivo, agora que estou por dentro dos problemas é que vejo como são. Quando estive no Executivo, com o João Palma, havia a União de Freguesias que tinha oito funcionários, quatro em Alcantarilha e quatro em Pêra e como eram mais permitia outra organização, faltava um aqui,  punha-se outro dali e ia-se gerindo assim. Agora não consigo.

E para piorar veja-se o que a freguesia tem crescido, com todas as urbanizações novas. Mas a Junta continua a ter os mesmos quatro funcionários que tinha há 12 anos.

Por isso, ando sempre a ver o dinheiro que temos, e se podemos contratar alguém para fazer algum deste trabalho, limpeza, deservagem e temos uma empresa que faz a contabilidade e a assessoria financeira. Não temos quezílias, o ambiente de trabalho é bom. Mas precisamos de mais pessoal.

Quer dizer que Alcantarilha ficou a ganhar com a “desunião”.

A União de Freguesias foi um erro, porque nós não temos nada a ver com  Pêra, são freguesias diferentes e com dinâmicas diferentes.

Agora o nosso trabalho é ir devagarinho e por Alcantarilha como era. Na Vila de Alcantarilha há sempre ideias, tem muita vida e isso está a voltar outra vez. Durante a União de Freguesias não se passava aqui quase nada, tirando a Feira dos Frutos Secos e as iniciativas da Sociedade de Alcantarilha. Agora já vai aparecendo algo novo, já se fez as comemorações do 25 de abril, que há muitos anos não se fazia, aos poucos vamos conseguir por Alcantarilha no mapa.

Estamos a trabalhar para que se possa colocar uma cobertura no Mercado Municipal.

O mercado é bonito e vai-se fazendo ali uns bailaricos mas é difícil fazer mais porque não tem uma cobertura. Não nos deixa fazer iniciativas como fazem noutras freguesias, para trazer gente ao mercado e ajudar os nossos comerciantes e a freguesia. Mas estamos na Junta a ver uma maneira de preparamos uma candidatura, há aí um programa, no dia 2 de julho vou a uma reunião para ver esse assunto, ver quanto dinheiro nos dão e se é preciso a Câmara dar uma ajuda…  Alcantarilha vai voltar ao que era.

A dificuldade que a Junta tem é que sozinha não consegue fazer quase nada. Agora estamos a preparar a Feira dos Frutos Secos, o maior evento da freguesia, mas tem de ser feita com a ajuda da Câmara de Silves, sozinhos não conseguíamos. Temos uma ideia que é a de incluir o Mercado, no recinto da Feira. Este ano ainda não conseguimos, mas para o ano já queremos fazer essa mudança. Este ano também temos de ver a situação das obras no Centro de Saúde, está combinado que acabam antes da Feira, vamos lá ver, em princípio a coisa está controlada.

Quando somos eleitos, queremos logo fazer muita coisa, entramos com aquele entusiasmo, mas quando vemos a realidade percebemos que há coisas que não pode ser como queríamos ou quando queríamos. Eu tenho a sensação de que o primeiro ano é para ver como funciona, as leis, o dinheiro… ainda há bocado andava de volta das lonas da Feira dos Frutos Secos, a ver a maneira como as vamos aproveitar, não há dinheiro para fazer novas e não pode ser tudo como queremos. Tem que se decidir e fazer com calma. Vendo como é melhor. E temos que pedinchar. E isso eu faço bem… Na Câmara já me conhecem por isso… e já não estou como era, que de início não parava de ligar, ligava para este, para aquele. Mas o Executivo da Câmara tem de ajudar todas as freguesias e todos queremos mais para as nossas freguesias. Eu peço e também reclamo.

Lá em baixo, o jardim, à entrada para Armação, está todo seco. Já pedi à Câmara uma série de vezes para limpar aquilo, aquela competência não é nossa e não temos capacidade. Há sete meses que estou aqui, ainda não foram lá nenhuma vez e aquilo podia andar num brinquinho. E eu clamo! … E reclamo com  o engenheiro da Rota do Sul, da EN 125, a limpeza é da competência deles e nós é que temos de ir limpar. Já lhe tenho perguntado porque não vêm limpar a rotunda e os passeios, e ele diz que os passeios estão limpos. Mas é porque nós os limpamos! E se não formos, quem é que ouve as reclamações das pessoas? Nós. E também na zona comercial, tem que ser a Junta, eles passam lá todos os dias e não limpam. E não trocam por nada. Por exemplo, se eu limpo o passeio eles podiam fazer outro trabalho. No outro dia, encontrei um homem que andava ali com uma roçadora, apresentei-me e ele disse que andava a trabalhar para a Rota do Sul. E eu disse-lhe, mas isso aí já está limpo, vá limpar aquele bocadinho ali que está por limpar. Alguma vez!! É para limpar esta parte e nada mais, foi o que me disse. E só limpam uma vez por ano. E no tempo em que o nosso pessoal  anda lá, deixa de andar na vila ou no campo e não nos faltam coisas por fazer.

E na Vila não podemos deixar de fazer. No resto da freguesia também faz falta, mas aí a prioridade é os caminhos, é o que as pessoas mais precisam e o que mais falam. Há um tempo, peguei no secretário e na tesoureira e fomos ver os caminhos que foram arranjados –  com a ajuda da Câmara Municipal, é preciso dizer. Porque o dinheiro que recebemos para caminhos, que são 14 mil euros, não dava nem para arranjar o caminho que divide a freguesia de Alcantarilha com a freguesia de Silves. E os outros? Sem a ajuda da Câmara não se consegue… E então fomos dar esse passeio e perguntei à tesoureira se ela já tinha passado por ali e ela que sim, mas que se custava a passar ali a pé. E eu contei-lhe do trabalho que isto dá. Não fui eu que fiz, mas a trabalheira que tive para conseguir trazer aqui a máquina, a niveladora e o cilindro, que andaram ali mais de um mês, que o caminho estava todo despedaçado, não se conseguia passar. O caminho faz fronteira com as duas freguesias e as pessoas que vão para Silves passam todas ali e todas vinham queixar-se ao presidente da Junta. Agora também tenho combinado ir com o vereador Tiago Raposo, ver os caminhos que poderão ser alcatroados. A Câmara tem estado a alcatroar os caminhos que estavam piores, que isto só a arranjar é deitar dinheiro fora. Mas não podem fazer todos, alguns temos que ser nós a fazer, temos que contratar uma empresa para fazer esse trabalho. E a andar a contar tostões.

É uma característica de praticamente todo o concelho, caminhos que nunca mais acabam…

Fizemos arranjos em caminhos que há 15 anos ninguém ia lá.

Consegui um preço jeitoso e foram lá cortar as moitas, arranjar, agora passa-se lá. No outro dia esteve aqui uma pessoa e dizia, até que enfim, até parece uma auto estrada… tem é buracos que não temos dinheiro para fazer esse trabalho, estou a tentar que a Câmara envie para lá a niveladora e ponha algum cascalho do rio.

A Junta de Freguesia tem algum equipamento?

Não temos nada. Temos uma viatura para recolher os monos e o lixo e uma viatura, com uma pá à frente e atrás, que há uma série de anos que está avariada. O secretário da Junta é engenheiro eletromecânico e queria arranjar a viatura, mas agora foi operado à anca, ainda está a recuperar, tenho de ver se a Câmara pode ajudar. Dava muito jeito, porque com a pá, dá para apanhar e por dentro da caixa e dá para abrir buracos, dava jeito no cemitério. A minha próxima tarefa é chatear para arranjarem a viatura. Quando foi feita a separação das freguesias, a carrinha mais nova e mais velha ficaram em Pêra e eu fiquei com uma que avariou. Entretanto andei com uma carrinha velha, que o presidente da Junta de Pêra, o Sérgio Antão, me emprestou. Mas não tinha dinheiro para arranjar a carrinha, o que nos valeu foi que consegui que a carrinha fosse para a oficina da Câmara. E não temos mais nada, só umas roçadoras e uma sopradora que também queria substituir, por uma que soprasse e aspirasse. A ver se conseguimos comprar umas sopradoras a bateria, que é só carregar num botão, para ver se as senhoras as conseguem usar, porque andam aí a varrer as folhas com as vassouras, onde é que isso ainda se usa? Em termos de ferramentas de trabalho não temos quase nada, é um investimento que temos de fazer, mas pouco a pouco vamos conseguir. Mas temos também que ter pessoal para essas ferramentas. Imaginando que agora vem a tal carrinha com a pinça, mas se não tivermos uma pessoa para a conduzir, fica ali parada, porque só temos uma pessoa com carta, que anda com a outra carrinha.

Quando fizer falta eu vou, mas enquanto se canta não se assobia.

Uma das coisas que este Executivo já fez foi criar uma nova identidade visual para a freguesia.

O Ricardo Machado e a Telma Sousa é que tiveram essa ideia. Depois da desanexação tínhamos que criar uma imagem nova, e através da tesoureira contratamos uma empresa  que apresentou o projeto. Tem a ponte de Alcantarilha, a torre da igreja matriz e a flor da amendoeira, houve uma sessão de apresentação do projeto, foi explicada a imagem.

Nova imagem de Alcantarilha

 

Já falamos das dificuldades da Junta e quais as maiores dificuldades da freguesia?

O maior problema é os caminhos. É que nós temos muitos caminhos rurais, temos o dobro de Pêra, uma freguesia quase da mesma dimensão. E isso levanta a questão do orçamento que foi dividido ao meio, o que está mal, porque nós temos muito mais caminhos. Na freguesia de Alcantarilha mora muita gente ali em cima, no Malhão, Fonte Louzeiros, há muito casario por aí, se os caminhos fossem alcatroados, tirava-se um peso muito grande das costas da Junta e ajudava-se as pessoas. É que nós gastamos muito dinheiro a arranjar caminhos todos os anos e isso nunca fica resolvido.  Se fosse resolvido podíamos virar-nos para outras coisas…temos várias necessidades, temos aquele armazém que foi feito no tempo do senhor que tem o busto à entrada da Junta e este edifício também precisa. O edifício é propriedade da Junta, até a parte onde está a Secção de Bombeiros de Alcantarilha que foram os bombeiros que fizeram, fomos fazendo, também ajudei muito, que fui bombeiro durante 17 anos. Este é o único edifício que a Junta de Freguesia tem. Por isso eu tenho olhado para dois edifícios que são da Câmara Municipal, um é o da antiga escola primária que está a cair e o outro é o edifício onde era o posto da GNR. Acho que deviam dar este edifício à Junta, a ideia é colocarmos ali duas associações, agora vai ficar desocupado, depois da saída dos Escutas, que têm de entregar o espaço até ao final do ano. Até tem uma casa de habitação, que era onde vivia o comandante do posto, eles fecharam as portas para não ser ocupada. Espero que a Câmara nos ceda o edifício da GNR, cabem lá duas associações, uma poderia ser a Cooperativa DevagarQueTenhoPressa, da Cristina Calvino, a outra uma associação de BTT que gostava de vir para aqui, estão noutra freguesia, mas é em Alcantarilha que fazem todas as atividades. E o edifício da escola tem de ser visto e arranjado, antes que haja algum problema.

Por isso eu digo, há muito por fazer em Alcantarilha. Mas o concelho é tão grande e há tantos caminhos para arranjar e a frota da Câmara está para jogar fora, há 12 compraram muita coisa nova, agora muitas estão avariadas, é mesmo assim…

Outra coisa que eu gostava era que fosse concluído o Plano de Pormenor do Rogel, vai dar uma boa contribuição para a freguesia. É a Câmara Municipal que está a desenvolver. E não quero desistir daquilo que já falei, de conseguir que o polidesportivo da Casa do Povo seja usado para o desporto. Aquilo foi construído com um propósito e dinheiros públicos. Os moços da minha idade, na altura em que aquilo foi feito, trabalhámos ali muito, agora está fechado o ano inteiro, só serve para fazer o Festival do Bacalhau e a festa da espuma. Agora nesta altura em que vai haver os eventos, instalavam as barraquinhas, quando acabasse arrumavam e disponibilizavam o espaço, aquilo não se estraga, não se parte, qual é o problema? Tem balneários e tudo, porque foi feito para a prática de desporto, mas não consigo convencer a Direção de que aquele espaço devia servir para esse fim. As casas do povo terminaram, agora é uma coletividade, a Junta não pode intervir. Já tenho proposto que fossemos nós a montar e a desmontar as barraquinhas e ver com a Câmara a possibilidade de pagar as despesas de água e luz, mas o importante é aproveitar aquele espaço que já existe. Eu sou amigo das pessoas da Direção, mas não compreendo esta atitude, do que têm medo? Eu recordo-me sempre, tinha uns 8 ou 9 anos quando comecei a ir para o teatro, na Casa do Povo, era para ali que ia sempre à noite, era ali que vivia o fim de semana, e agora não temos nada, por responsabilidade de quem está à frente, deviam abrir as portas a quem quer fazer.

Normalmente, nas associações assim como nestes cargos públicos, a ambição é querer fazer o máximo possível… Mas também há desgaste.

As pessoas ligam a toda a hora e todos os dias temos coisas agendadas, é uma reunião na Câmara, é um arraial, vou a todas, menos à igreja. Eu sou assim e não me peçam para ser diferente, isso comigo não cola. Não é agora que vou mudar, não vou estar com invenções…  Sou uma pessoa que só tem o 2º ano, há muitas coisas que não tenho formação e que não sei. Muitas coisas posso aprender, mas noutras não vou mudar.

A última pergunta, que é igual à que tenho feito nas outras entrevistas aos presidentes… Como gostaria de se sentir no final do mandato e como gostaria que avaliassem o seu trabalho.

Gostava de estar satisfeito, claro que gostava. Dever cumprido. Mas é muito trabalhoso, apesar de eu já ter feito parte do Executivo, não tinha ideia que era tão complicado, os cargos eram diferentes. Ser presidente não é a mesma coisa que ser secretário ou tesoureiro. Antes de ir a qualquer outro lado, é à Junta que as pessoas se dirigem primeiro. E nós temos que saber responder. E aqui as pessoas sentem-se à vontade comigo e depois eu não me recato, eu ando por todo o lado, falo com toda a gente, corro toda a freguesia, uns dias vou para um lado, no outro para o outro,

Às vezes assim que entro nalgum sítio, digo logo, se começam a falar da Junta vou embora, mas dali a um bocado começam… às vezes sinto-me cansado e penso que podia estar descansado, com a reforma, mas depois começo a pensar… fomos nós, a malta da CDU, quem trabalhou muito para a desanexação das freguesias, que os outros estavam muito adormecidos, nós é que lutamos para isso, e eu dizia que já não seria candidato se continuasse a união, mas depois conseguimos a desanexação e aceitei. Ninguém me obrigou, mas tinha acabado de me reformar e era uma altura em que estando reformado podia ter mais tempo para mim, mas escolhi estar aqui. Mas é muita responsabilidade e eu tenho as minhas limitações. Eu sou bom no contacto com as pessoas, em ir aos locais ver o que faz falta, em ir às reuniões pedir o que precisamos, em chatear um e outro, mas não percebo de contabilidade, por isso temos a empresa que trata dessas questões. O presidente de uma junta não é obrigado a saber tudo, e às vezes, nas assembleias, perguntam-me coisas que eles também não sabem, é só para me porem desconfortável, mas um presidente de uma junta não é obrigado a saber tudo, tem de ter é uma equipa. Há pessoas que nunca fizeram nada por Alcantarilha e vêm colocar questionar porque não faz assim, porque é que não fez isto, mas não é por interesse, é só para me incomodarem, para me porem em causa. Mas eu estou aqui para trabalhar para as pessoas de Alcantarilha e para voltar a por brilho nesta freguesia.

Nota da Redação: Após a publicação da entrevista na nossa edição de julho de 2026, recebemos, da parte do entrevistado, as seguintes Notas de Esclarecimento, que a seguir publicamos: 

 

Notas de esclarecimento – Entrevista Jornal Terra Ruiva de Julho de 2026

  • Das minhas características, virtudes e defeitos, existe uma que felizmente ou infelizmente não possuo, e que reconheço que, para quem exerce um cargo político, tem um determinado peso e importância. Essa característica é o calculismo.

Na entrevista que dei ao Jornal Terra Ruiva, na sua edição em papel de Julho de 2026, fui respondendo às questões da senhora jornalista, de acordo com o que sentia no momento, dentro de um contexto de uma conversa, que nem sempre aparece espelhado em palavras no papel, com um determinado grau de intencionalidade, que, após a publicação e analisando o resultado, compreendo que possam criar algum mal-estar no que diz respeito a alguns dos tópicos que foram desenvolvidos.

A minha falta de calculismo não me levou a solicitar o texto da entrevista antes da sua publicação, o que, a ter acontecido, teria inevitavelmente tido da minha parte a necessidade de correção de algumas afirmações, cuja intenção, reforço, nunca foi a de criar nenhum tipo de constrangimento, mas que no final aceito que possa ter criado um impacto negativo e que, naturalmente e humildemente, lamento que assim tenha sucedido.

 

  • Como nota prévia, ao longo da minha vida, e como está explicito na referida entrevista, fui membro ativo de várias associações e estive envolvido em várias iniciativas em Alcantarilha e tenho um enorme respeito pelos movimentos associativos e pelo esforço, dedicação e sacrifício que os seus membros desenvolvem para manter as suas associações em atividade, com iniciativas que envolvem a comunidade e dão visibilidade a Alcantarilha. Respeito todas as associações, de igual forma, e ainda mais agora que tenho a responsabilidade de ser presidente da Junta de Freguesia de Alcantarilha.

 

  • Alcantarilha tem a sorte de ter uma vida associativa muito rica, e continuam a aparecer, felizmente, pessoas que conseguem ter o espírito de sacrifício em criar novas associações, como exemplos mais recentes a ALDEPA, que tem feito um trabalho extraordinário na defesa do património histórico e cultural da nossa vila, e outro exemplo ainda mais recente a Cooperativa DevagarQueTenhoPressa, que tem tido iniciativas muito interessantes ao nível do desenvolvimento cultural na nossa vila e envolvendo até as gerações mais novas.

Existem muito mais associações, como o GADAG, com várias atividades recreativas e outras ligadas ao desporto, a SRA, mais dedicada à área recreativa e cultural. Não posso esquecer a Santa Casa da Misericórdia, que desempenha um papel fundamental no apoio à população da freguesia, a Paróquia que também desenvolve algumas atividades tradicionalmente religiosas ao longo do ano, e outras, umas com mais iniciativas, outras com menos, umas mais visíveis outras menos, mas todas elas importantes na sua ligação com a população.

  • Onde sinto que o peso das minhas palavras possam ter tido mais impacto, terão sido as afirmações sobre alguns temas relativamente à Casa do Povo de Alcantarilha, Pêra e Armação de Pêra.

Conheço pessoalmente todos os elementos dos atuais órgãos sociais desta associação, tenho por todos um grande respeito, e tenho uma ligação emocional muito forte com esta instituição, onde dediquei largas horas da minha vida, nas mais variadas atividades. O saudosismo que tenho em relação às atividades que antes ali eram desenvolvidas, no momento da entrevista, sobrepôs-se a uma análise menos emocional e por isso aceito humildemente que a interpretação das minhas palavras não tenha sido a mais positiva.

Os atuais órgãos sociais tem feito um trabalho meritório, e as suas iniciativas não se resumem ao Festival do Bacalhau e à Festa da Espuma, como foi referido na entrevista, sendo sem dúvida as de maior visibilidade, mas também realizam anualmente o Encontro de Janeiras, Encontros de Fados, entre outros eventos que, em parceria com outras entidades,  proporcionam utilização e dinâmica à instituição. Fica a justa retificação.

Por sinal o Festival do Bacalhau irá realizar-se a 17,18 e 19 de Julho, fica desde já aqui feito o convite a todos, vale, sem dúvida, a pena visitar.

Quanto ao espaço do Polidesportivo. Alcantarilha precisa de um espaço público polidesportivo, que permita que sejamos colocados em pé de igualdade com as restantes freguesias do nosso concelho. Algo de semelhante pelo menos ao que foi recentemente inaugurado no Algoz.

O facto é que nos habituamos ao longo de décadas a utilizar aquele espaço, que pertence à Casa do Povo, quase como se fosse um espaço público.

Na realidade não é um espaço público e temos de respeitar a estratégia dos órgãos sociais da Casa do Povo que não é obrigada a deixar acessível e sem regras um espaço onde está feito um elevado investimento em infraestruturas de apoio aos eventos que se realizam nesse espaço, havendo a possibilidade sem a devida vigilância de se danificar os equipamentos que lá se encontram. Ao longo do tempo podiam ter sido criados protocolos, parcerias, o facto é que nunca se avançou para essas possibilidades. É um espaço que neste momento poderá ter outros objetivos, e que pertencendo à instituição, é a mesma que define a sua utilização, sendo naturalmente escrutinada pelos seus associados se assim o entenderem e só estes terão o direito de questionar os órgãos sociais sobre as decisões tomadas e a estratégia a seguir, em sede de assembleia própria.

Ficam aqui alguns dos esclarecimentos, relativamente a este tema, que entendo serem importantes, mais uma vez lamentando profundamente o impacto e o efeito negativo que a entrevista em papel poderá ter causado.

 

  • Como última nota, um esclarecimento relativamente ao executivo da Junta de Freguesia. A nossa Tesoureira é a Telma Sousa, e, para além de todas as responsabilidades inerentes a esse cargo, assumiu a gestão das redes sociais e do nosso site, pois era a pessoa mais preparada para dar resposta a este sector cada vez mais importante na comunicação com as populações. O Ricardo Machado, é o Secretário, e devido à sua experiência na área técnica, assumiu também a estratégia operacional, sendo que, no dia a dia, cabe ao Presidente dar a resposta operacional, pois é o único que tem a disponibilidade diária para tal. Desde o dia da tomada da posse que temos fortalecido a nossa cooperação e mesmo em momentos em que possamos não estar de acordo, prevalece sempre o bom senso na procura da melhor solução para a freguesia e não quaisquer imperativos de natureza politica. É por esse motivo que refiro que nesta equipa não há “politiquices”, o interesse da freguesia está em primeiro lugar e esse foi o acordo que fizemos desde o primeiro dia.

O presidente Raúl Carlos

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PorPaula Bravo
Natural de S. Bartolomeu de Messines, nascida em 1963. Licenciada em Comunicação Social. Desde 1986, trabalhou em vários órgãos de comunicação nacionais e regionais. Dirigente associativa. Fundadora e diretora do Terra Ruiva desde abril de 2000.
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