O silêncio que invade cada vez mais os nossos campos e o declínio das aves levaram a Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA) a criar uma Rede de Santuários para Aves, a partir da adesão voluntária de proprietários de terrenos.
No Algarve há já três santuários e um deles é na freguesia de São Bartolomeu de Messines, na Fonte João Luís.
Em toda a Europa, estima-se que 64% das espécies de aves das zonas agrícolas estejam em declínio. Em Portugal, uma em cada quatro espécies de aves florestais está em declínio, o mesmo acontecendo às aves que dependem das zonas agrícolas. A andorinha-das-chaminés, por exemplo, diminuiu 40%, nos últimos 20 anos. Outras espécies, como o cuco, o mocho-galego, o peneireiro e até o pardal, também enfrentam declínios significativos.
Para a SPEA, “instrumentos como a Política Agrícola Comum da União Europeia não estão a conseguir proteger a biodiversidade e os pequenos agricultores”.
Assim, acrescenta a SPEA, “cabe-nos a nós agir” para trazer de volta a natureza perdida.
Nesse sentido, está a ser criada uma Rede de Santuários para Aves em todo o país. Nestes santuários, especialistas e proprietários de terrenos unem esforços para ajudar as aves e a biodiversidade, acreditando que melhorar as condições para as aves causará impactos positivos em todo o ecossistema.
“O objetivo da Rede de Santuários para Aves é criar uma malha de refúgios em todo o país, onde as aves que habitam as terras agrícolas e as florestas possam descansar, alimentar-se e reproduzir-se.”
Em cada santuário, os especialistas da SPEA irão identificar e monitorizar as espécies de aves existentes e analisar as características do local, trabalhando em conjunto com os proprietários para definir medidas que estes se comprometem a implementar.
Essas medidas podem passar, por exemplo, por criar charcos e pontos de água, substituir plantas invasoras por espécies autóctones, implementar parcelas de culturas para a fauna, ou instalar caixas-ninho.
Os especialistas da SPEA já iniciaram os trabalhos de campo, realizando contagens de aves diurnas e noturnas para estabelecer a situação de referência em cada santuário.
No outono, serão realizadas novas contagens para monitorizar a chegada de aves migradoras e em 2026 as contagens serão repetidas para avaliar o impacto das medidas implementadas.
“Num contexto de declínio de grande número de espécies, incluindo muitas consideradas comuns, é indispensável envolver as pessoas diretamente na conservação da Natureza, e das aves em particular” diz Rui Borralho, diretor executivo da SPEA.
Onde podem ser criados os santuários
Os santuários podem ser criados em terrenos com pelo menos um hectare, cujos proprietários se comprometam a implementar medidas favoráveis às aves durante pelo menos cinco anos, de acordo com o plano de gestão definido em conjunto com a SPEA.
Qualquer pessoa pode candidatar-se a ter um santuário na sua propriedade que tem de reunir algumas condições: as propriedades deverão ter um uso do solo maioritariamente natural e/ou agro-florestal; dá-se preferência àquelas cujos proprietários estejam disponíveis para financiar as ações a realizar nos seus terrenos e aos que se situem dentro de áreas da Rede Natura 2000.
Atualmente, segundo a SPEA, há 46 santuários para aves que já têm financiamento garantido para o primeiro ano (é necessário um montante de 3.000€), e há mais 30 prontos a arrancar, “selecionados com imenso potencial” que só aguardam financiamento.
Participação dos cidadãos
Este projeto está aberto à participação dos cidadãos que queiram fazer um donativo e a SPEA lança um convite: “este Natal ofereça um santuário para aves”.
E o que recebe em troca? “Com a Rede de Santuários para Aves, todos os portugueses beneficiarão de um ambiente mais saudável, pois onde as aves prosperam, a natureza floresce. Este impacto estender-se-á para além das nossas fronteiras, uma vez que os nossos santuários ajudarão a apoiar espécies migratórias, num efeito de cascata que se fará sentir a quilómetros de distância.”
Nas redes sociais da SPEA encontra um mapa com os santuários existentes, com a indicação dos que já têm financiamento garantido e com aqueles que ainda necessitam de apoio.







