O Terra Ruiva publicou na sua edição do mês de janeiro, edição nº 272, o artigo “O grés de Silves no contexto da História da Terra”, da autoria de Virgílio Cabrita. O autor é geólogo pela Univeridade de Lisboa e engenheiro geólogo pela École Nationale du Petrol e des Moteurs (Institut Francais du Petrol),
Dado a extensão do texto, o mesmo teve de ser reduzido para permitir a sua publicação, na versão que publicamos em baixo.
Para ler o artigo todo, consulte aqui: O Grés de Silves no contexto da história da Terra

Artigo da edição em papel:
A designação “Grés de Silves” foi dada pelos geólogos às primeiras camadas sedimentares, detríticas, geralmente avermelhadas, muito grosseiras, localmente mais finas e argilosas, muito pobre em fósseis, depositadas há cerca de 230 milhões de anos (ou seja, durante a parte mais recente do período Triássico, chamado Triássico Superior, da Era Mesozoica) num ambiente continental, aluvial-lacustre, naquele que é hoje o território português. Estes sedimentos depositaram-se sobre rochas muito mais antigas, constituídas por xistos um pouco metamorfizados, durante um período de clima muito quente e seco e de forte erosão das montanhas hercínicas da Era Paleozoica.
Há cerca de 300 milhões de anos, no Período Pérmico (final da Paleozoica), os continentes então existentes acabaram por se juntar e constituir um só supercontinente, chamado Pangeia. Esta aglutinação de continentes ocorreu porque as massas continentais da Terra “flutuavam” e deslocavam-se sobre o magma que constitui o seu Manto.
Desde a sua formação, há pouco mais de 4,5 mil milhões de anos, a Terra tem estado em constante mudança. Quando se consolidou, tanto a sua a massa continental, como os oceanos, tinham uma configuração e dispersão geográfica completamente diferente da atual. Também a sua atmosfera era muito diferente da hoje, sendo constituída essencialmente por anidrido carbónico, metano, monóxido de carbono e Azoto.
A configuração do interior da Terra começou a desenhar-se há cerca de 3,8 mil milhões de anos, por segregação gravimétrica dos seus diferentes componentes.
À volta do Núcleo da Terra formou-se uma outra camada, constituída essencialmente por rochas fundidas, sob a forma de magma, devido às altas temperaturas a que a camada se encontra. Esta componente da Terra foi chamada Manto é a mais volumosa e está compreendida entre os 2.900 Km e os 70 Km de profundidade sob os oceanos. A parte mais superficial da Terra, a chamada Crusta Terreste, é constituída pelas massas continentais que “flutuam” sobre o Manto e que estão cerca de 70% cobertas pelos oceanos.
Ao fim de muitos milhões de anos de movimento, estas massas continentais acabam por chocar umas com as outras e formar um só “supercontinente”. Os cientistas, através do estudo das rochas a nível mundial, identificaram a formação e posterior fracturação de pelo menos 7 supercontinentes. O último destes supercontinentes, chamado Pangeia, começou a formar-se há cerca de 300 milhões de anos, no Pérmico (Era Paleozoica), começou a fraturar-se há cerca de 240 milhões de anos, nos princípios do Triássico (Era Mesozoica) e acabou de se fraturar há cerca de 175 milhões de anos, já no Jurássico Inferior. Destas fracturações resultaram diferentes massas continentais que evoluíram e migraram para constituírem os atuais continentes.
O supercontinente Pangeia, rodeado por um oceano chamado Pantalasso, tinha enormes montanhas que constituíam a chamada cadeia montanhosa “hercínica”. Mais tarde estas montanhas começaram a ser erodidas e o supercontinente começou a fraturar-se. Como resultado desta fracturação, começaram a criar-se blocos onde se acumularam, nas suas partes de menor altitude, os sedimentos detríticos grosseiros resultantes da erosão. Quando começou a dar-se a separação da Pangeia, inicialmente em 2 blocos, a Laurásia, donde resultou a Europa e a Ásia, e a Gondwana, formou-se um mar, chamado Tethys, que gradualmente foi aumentando e que veio a dar origem ao atual Oceano Atlântico.
A sedimentação resultante da erosão da cadeia montanhosa hercínica começou, nalgumas partes de Pangeia, há cerca de 250 milhões de anos, no princípio do Triássico, chamado Triássico Inferior. Tal aconteceu, por exemplo, na superfície continental que hoje constitui a orla leste, mediterrânica, da vizinha Espanha. Todavia, na parte que constitui o atual Portugal, esta sedimentação só começou a dar-se mais tarde, há cerca de 230 milhões de anos, já no Triássico Superior.
Estes primeiros sedimentos, resultantes da erosão das montanhas, foram transportados por fluxos de água efémeros e agressivos, de grande declive, num ambiente continental árido, quente e seco, com lagunas, e depositaram-se, com fácies sedimentares tipo “leques aluviais”, sob a forma de grés grosseiros, por vezes conglomeráticos, vermelhos, alternando-se com camadas de calhaus mal rolados e com leitos argilosos com raros fósseis vegetais. A cor vermelha destes sedimentos é-lhes conferida pelos produtos ferruginosos que entram na sua composição e que constituem o cimento do grés, cimento este que liga fortemente os grãos de areia siliciosos (quartzo) e lhes confere a sua enorme dureza e qualidades abrasivas.
Estes sedimentos foram primeiro estudados, academicamente, nos finais do século XIX e princípios do séc. XX por um geólogo francês, Paul Choffat, que passou longos períodos a estudar a geologia de Portugal. Ele denominou o grés vermelho por “Grés rouge brique” e a formação geológica da qual ele faz parte foi posteriormente chamada “Formação do Grés de Silves”, por ser neste concelho, designadamente na área de S. Bartolomeu de Messines- Amorosa- Vale Fuzeiros, que a formação é mais representativa e espessa (cerca de 400 metros de espessura).
A formação “Grés de Silves” ocorre, em Portugal, em afloramentos na bordadura da chamada Bacia Sedimentar Lusitânica, desde Aveiro em direção a Águeda, Anadia, Coimbra até Tomar, torna a ser visível em S. Tiago de Cacém e na Carrapateira e continua, à superfície, na bordadura da Bacia Sedimentar do Algarve, desde o Cabo de S. Vicente até ao Guadiana.
Nas grandes massas de grés da zona de S. Bartolomeu de Messines são visíveis figuras de sedimentação, com estratificação entrecruzada, característica dos depósitos sedimentares fluviais.
Devido à sua dureza e resistência, o grés de Silves foi utilizado, desde há muito, na construção civil (por exemplo, no castelo e na Sé de Silves, na igreja matriz de S. Bartolomeu de Messines, em obras feitas no Tribunal de Silves, em casas do campo, etc.), em instrumentos para amolar facas e outros objetos cortantes (os rebolos usados na indústria corticeira, bem como as famosas rodas dos “amoladores” de facas que, pelo menos até meados do séc. XX, andavam de porta em porta a amolar facas, eram feitas deste grés) e para construir pias e outros utensílios e objetos decorativos. Hoje em dia este grés é muito utilizado na região para restaurar casas de campo. Ele vem sobretudo de uma centenária pedreira de Vale Fuzeiros, ainda hoje ativa e explorada por Bruno Matos, um dos descendentes do primeiro proprietário.
Autor: Virgílio Cabrita
Geólogo pela Universidade de Lisboa e engenheiro geólogo pela École Nationale du Petrol e des Moteurs (Institut Francais du Petrol).
Nota: O “GRÉS DE SILVES”, valia geológica que na freguesia de São Bartolomeu de Messines se constitui como um dos mais relevantes geosítios do concelho de Silves na candidatura do projeto “Algarvensis” a geoparque UNESCO, tem na “Comunidade do Grés” um grupo vinculado à “promoção de um desenvolvimento socioeconómico sustentável baseado em atividades de geoturismo, contribuindo para a valorização e promoção dos produtos locais”.
A “Comunidade do Grés” vem fazer publicar no jornal “Terra Ruiva” um artigo sobre tão relevante património natural, da autoria de um dos seus membros, Virgílio Cabrita.
Entretanto a “Comunidade do Grés” propôs à Câmara Municipal de Silves que procedesse à instalação na vila de um “Ponto de Informação Algarvensis” e que aqui fosse criado um “Centro Interpretativo do Grés”. Reitera-se tal sugestão, tanto mais que estamos perante uma oportunidade de exceção, conferida pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) ao abrigo do qual se poderão concretizar tais valorizações na nossa terra.








