Nero, autor silvense, apresenta agora o seu segundo livro “Telúria” – “ Um livro que vem da terra, das árvores, do espírito”.
O Terra Ruiva esteve à conversa com este autor, de 35 anos, que residiu em Vales de Pêra durante a infância. O seu percurso académico levou-o à Escola Secundária de Silves, depois à conclusão da licenciatura em Língua e Literatura Portuguesas, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
É na área da Grande Lisboa que desenvolve a sua atividade profissional, numa empresa de eventos. “É uma empresa que também tem dado o seu contributo para a cultura, contudo mais de entretenimento. São dois mundos diferentes mas que se complementam e que me equilibram, para não me tornar muito pedante e muito chato, sempre agarrado a livros, sempre fui, desde miúdo, um rato de biblioteca. Este trabalho conecta-me com o dia a dia das pessoas, com uma dimensão mais festiva, e isso faz-me bem.”
Aos 30 anos, tomou “a decisão que muitas pessoas tomam aos 50 anos, é isto que eu quero, vou voltar ao campo, trabalhar menos, ganhar menos, mas ter outra vida, arrisquei”. Reside atualmente na freguesia de São Bartolomeu de Messines, onde escreveu o novo livro.
Este segundo trabalho será o primeiro de uma trilogia informal: “A trilogia do espírito”. Cada livro oferecerá “uma viagem espiritual diferente, baseada no binómio cidade-campo”.
E se o primeiro livro, “Oceano – O reino das águas”, editado em 2021 e que se encontra esgotado, era um “poema épico e fantástico”, uma obra com quase 500 páginas, iniciado quando Nero era estudante na Escola Secundária de Silves, o novo trabalho é completamente diferente.
“No primeiro caso passei 18 anos a escrever, não de forma contínua, mas sempre à procura da melhor palavra, do melhor verso. Quando o comecei, aos 15 anos, era um romance, depois tornou-se um poema épico, um poema narrativo, com história e personagens, que cruza a poesia épica com a alta fantasia, nesse ponto é um cruzamento inédito”.
Bem diferente é o livro “Telúria”, escrito no regresso ao Algarve, ao campo, às raízes. “É um livro mais simples, menos ambicioso, dividido em três partes, com 22 poemas. A primeira parte é autobiográfica, prende-se com memórias minhas, com a possibilidade de dirigir palavras a pessoas que já partiram ou que já não fazem parte da minha vida. Sempre com uma grande conexão com o campo e a natureza… há um sujeito poético que caminha pelo campo, como que perdido, à semelhança do que eu vivia quando escrevi o livro, foi escrito no período do confinamento, mas por viver no campo podia passar os dias a passear… A segunda parte passa-se na cidade, é uma interpretação da cidade em contraste com o campo, e que é a experiência de muitos de nós, não só do Algarve mas de muitos pontos do país. Deslocamo-nos para a cidade para estudar, e muitos já não regressam e confrontam-se com uma realidade muito diferente, há uma cultura mais desumanizada, o ritmo de vida é diferente, a segunda parte fala desse contraste. A terceira parte é o regresso ao campo, é como se me reencontrasse, é como se aquele sujeito e aquela poesia encontrassem, na natureza, algum sentido para vida, algum sentido para a existência e através disso, eventualmente, alguma transcendência.”
Em comum, ambos os livros têm, segundo Nero, a preocupação com a palavra. Uma preocupação que se entrelaça com a “mania” do perfecionismo”. “Essa preocupação extrema com as palavras, impediu-me até de escrever e o período que vivi em Lisboa, cerca de 10 anos, não foi muito profícuo em termos de escrita. Só quando voltei para o Algarve, é que me senti capaz de acabar o primeiro livro, em 2020. Depois, logo de seguida, escrevi o segundo. Tenho essa doença do perfecionismo, mas agora faz-me refletir sobre aquilo que escrevo. Por mais sentimento que esteja envolvido na escrita, esta é sempre um ato racional e quem encara a escrita com alguma seriedade, tem que esculpi-la”.
O gosto pela palavra, pelas “letras” vem de muito cedo. Já no 5º ano, “escrevia e editava livros” que mostrava aos professores. Mas foi na Escola Secundária de Silves, por influência de uma professora, que se apaixonou “definitivamente pela subjetividade da literatura que se opunha à objetividade do jornalismo”. Assim, abandonou a ideia de seguir a vida de jornalista, como até aí pensara, e enveredou pelo estudo da Literatura.
“Não há formação em poesia no nosso currículo, de forma geral há um desligamento entre a sociedade e as Humanidades, que têm vindo a perder terreno nos últimos anos. A literatura, na escola, é dada de uma forma quase científica, é dissecar os textos, tentar compreender aquilo tudo, quase como uma matemática, uma linguagem científica. Isso também me levou, de certa forma, a entender que a literatura é mais do que o somatório de partes, de sílabas, de métricas, de formas. O ritmo do dia a dia tem desligado as pessoas de um tipo de texto, como é o caso da poesia, em que é preciso parar, mergulhar nas palavras, apercebermo-nos da polissemia, das várias interpretações… Mas talvez por isso a poesia hoje é mais urgente do que nunca, porque é preciso parar, pensar, para nos sentirmos nós próprios, o que muitas vezes já não acontece”.
Para uma pessoa que avalia o peso das palavras, a escolha do pseudónimo Nero não poderia ter sido feita ao acaso. E quando se faz a pergunta, o sorriso de Nero deixa logo adivinhar que é uma questão a que está habituado a responder.
“Roberto Simões é o meu nome de todos os dias. Até ao momento em que lancei o primeiro livro, pouca gente sabia que eu escrevia. Fiz um percurso universitário nas Letras mas não exerci, e a ideia que as pessoas criaram de mim, não era relacionada com a escrita. Ao mesmo tempo o meu eu naquela dimensão da escrita é tão diferente e tão mais profundo do que o eu de todos os dias que, para mim, não fazia sentido que as pessoas me tratassem pelo nome de todos os dias, que nem sequer foi um nome escolhido por mim. E o que eu respondo quando me fazem essa pergunta, sobre a legitimidade do pseudónimo, é: porque é que o nome que nos dão, é mais verdadeiro do que o nome que nós escolhemos para nós próprios? E segunda parte da resposta: no livro anterior, as personagens não têm nome de família, têm um nome único, e eu pensei, não por arrogância, ou por ser pedante, mas porque não trazer essa filosofia, essa maneira de ver as coisas, para o meu nome artístico? Era coerente com o universo que eu estava a criar, Nero vem das águas, do oceano… etimologicamente significa águas abundantes… Nero pareceu-me um bom nome e logo à partida desafiante. Até na escolha do pseudónimo atrevo-me a procurar alguma distinção, esse efeito de estranheza que também a pessoa que começa a ler o meu livro sente… Se eu me chamasse João ninguém parava para refletir”.
Para quem desejar conhecer o mundo de Nero, a pré-venda do segundo livro, “Telúria” editado pela Manufactura, está já a decorrer nas redes sociais. Nas próximas semanas entrará no circuito habitual de livrarias e apresentações.
Por enquanto, não está marcada nenhuma apresentação no concelho de Silves, mas Nero destaca os encontros que já teve com alunos da Escola Secundária de Silves, na Biblioteca Municipal, por iniciativa do Município de Silves e crê que essa colaboração será mantida, no sentido não só de mostrar o seu trabalho, mas também sensibilizar para a poesia. Nas suas redes sociais também tem promovido a poesia, tendo, recentemente, organizado o “Fevereiro Poético”, com a participação de vários autores.
“Já faço parte de uma geração em que a divulgação passa muito pelas redes sociais, a poesia não tem de chegar apenas a pequenos nichos, é possível tentar levar a poesia às pessoas, tenho essa preocupação, é quase como uma missão de vida”, diz Nero.
Texto: Paula Bravo
Fotos: Nero






