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Reading: A toponímia nas sedes de freguesia do concelho de Silves – I
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História & PatrimónioSociedade

A toponímia nas sedes de freguesia do concelho de Silves – I

Vera Gonçalves
Última Atualização: 2025/Jun/Dom
Vera Gonçalves
5 anos atrás
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A toponímia, que etimologicamente se define como o estudo histórico ou linguístico da origem dos nomes próprios dos lugares, é primordial como princípio de identificação, orientação, comunicação e localização de imóveis.

A designação toponímica assume particular importância na preservação da memória e identidade cultural das gentes, perpetuando nomes, factos, costumes e eventos, dando-nos a conhecer a evolução histórica dos lugares e respetivas populações, além de facilitar a localização de geográfica.

Durante séculos a toponímia nasceu espontaneamente da convivência quotidiana dos moradores com os lugares, não tinha outro fim senão servir de referência a uma rua, largo ou sítio e adotada devido ao seu uso continuado.

A atribuição de topónimos aos arruamentos do concelho de Silves é da responsabilidade da Câmara Municipal a partir do final do século XIX (1878), aptidão que pertencia, desde 1836 aos Governos Civis. Passando-se a impor os valores e ideais políticos e tem sido um meio através do qual se homenageiam e perpetuam personalidades, locais e nacionais, factos e tradições.

A cidade de Silves, no período compreendido entre o final do século XIX e o período sequente à Revolução de 25 de Abril de 1974, assistiu a cerca de uma centena de atribuição/reformulação de topónimos, todavia estas mutações estenderam-se às restantes freguesias do concelho.

 Assim, a primeira proposta para alteração de toponímia foi feita por habitantes do Algoz que, a 16 de dezembro de 1905, pediram para mudar os nomes de algumas ruas daquela povoação. Proposta que foi aprovada, tendo sido deliberado “que o largo do Prior e a rua grande se passasse a denominar largo e rua Thomé Rodrigues Pincho, que a rua da Egreja se denomine rua Dr. Athayde d’Oliveira, que o largo do Poço da Rua se denomine largo Dr. Casimiro Mascarenhas Neto, que a rua de Traz se denomine Rua Major Joaquim Gonçalves Vieira e que a rua da Munheta se denomine Dr. Joaquim Marreiros Netto” . No entanto, estes dois últimos topónimos não chegaram a ser reconhecidos.

Na sessão camarária de 31 de março de 1909, por proposta do vereador Joaquim Tomé de Sousa Reis Remexido, em homenagem ao insigne poeta messinense, foi deliberado “dar o nome de João de Deus á rua que vai da Cruz Grande até á Praça da povoação de S. Bartolomeu de Messines” .

Após o 5 de outubro de 1910 as Câmaras Municipais foram atraídas para uma dinâmica rebatizadora, atribuindo às ruas nomes dos novos heróis e dos ideais republicanos, eliminando a memória monárquica e religiosa.

Na sessão de 23 de novembro de 1910, o novo executivo, sob a presidência do republicano António Vaz Mascarenhas, e por proposta do vereador de Messines, António Pedro Ramos, foi deliberado “que a rua de João de Deus se prolongue até ao predio de D. Thereza Rodrigues Carrajolla, na referida povoação, que se fique denominado largo da Republica, o actual largo do Poço, que a rua que vai d’este largo até cemitério se denomine rua Candido dos Reis, que a rua que segue para a estação do Caminho de ferro se fique chamando da Liberdade e finalmente que a rua do Prior se denomine rua Miguel Bombarda, todos da povoação de S. Bartholomeu de Messines” .

As próximas atribuições de toponímia a artérias do concelho ocorreu na década seguinte, nomeadamente três na povoação de Armação de Pêra e duas na de Messines.

A 28 de março de 1921, por proposta do presidente da Comissão Executiva da Câmara Municipal de Silves, Henrique Martins, foi proposto que “á rua conhecida pela rua das fabricas em Armação de Pera, fosse dado o nome de Rua dos Herois de Kionga, e que á rua principal que dá entrada para a mesma povoação, seja dado o nome de Rua Manuel d’Arriaga” .

No ano seguinte, dois aviadores, Gago Coutinho e Sacadura Cabral, partindo de Lisboa fizeram pela primeira vez a ligação aérea entre Portugal e o Brasil, e com este feito o país rendeu-lhes homenagem, aclamando-os como heróis nacionais. Em Silves, na sessão de 30 de maio de 1922, o vereador António Vaz Mascarenhas propôs que esta câmara lhes preste homenagem sendo atribuído “às duas novas ruas que esta Camara está abrindo em Sam Bartolomeu de Messines fossem dados os nomes dos dois grandes patriotas e notaveis aviadores, passando, assim a denominar-se rua Sacadura Cabral, a que segue na direção Norte-Sul e vai da rua João de Deus ao ribeiro, e rua Gago Coutinho a que segue na direção nascente-poente e que vai da rua da Liberdade cruzando com a primeira rua já descrita, até ao quintal d’um prédio pertencente à viúva de Serafim Monteiro” .

Em 1925 o presidente da Comissão Executiva, Sebastião Roldam Ramalho Ortigão, propõe que “à rua d’ Armação de Pera que vai da Fortaleza à Vila Dona Maria Firmina seja dado o nome de rua Mascarenhas Gregório” , como homenagem a este vulto da sociedade silvense que muito contribuiu para o desenvolvimento da povoação e do concelho.

A 28 de maio de 1926 deu-se um golpe sob o comado do general Gomes da Costa, que instituiu a Ditadura Militar, um regime autoritário que substituiu a I República e a partir do qual se estruturou o Estado Novo. Neste período ocorreu uma significativa revolução toponímica operada no concelho de Silves com a indicação de quase duas centenas de topónimos, em vinte e três deliberações camarárias.

Rua Dr. António José Bernardino Ramos- S. Marcos da Serra, 1927

A primeira atribuição aconteceu, no final de 1926, na povoação de Alcantarilha, por solicitação da respetiva Junta de Freguesia: “Rua das Lojas passará a denominar-se Rua José Ribeiro Nobre; Rua das Casas passa a denominar-se Rua Coronel João Ortigão Peres; Largo da Egreja, Largo João Narciso Oliva; Rua Nova passará a denominar-se Rua Barão d’Alcantarilha; Rua das Palmeiras, Rua Doutor Reis Cabrita” , este último requerido pelo Dr. Bernardo Velez de Lima . Todavia apenas os topónimos Coronel João Ortigão Peres e Barão de Alcantarilha foram adotados.

Oito anos depois, na sessão de 7 de dezembro de 1934 da Comissão Administrativa da Câmara Municipal, o antropónimo “Dr. Oliveira Salazar” foi atribuído a dois arruamentos, nomeadamente, proposto pelo vogal João de Freitas Figueiredo Mascarenhas para “que a artéria da povoação de S. Bartolomeu de Messines confinante com as extremas das ruas Candido dos Reis e João de Deus se passe a designar “Rua Dr. Oliveira Salazar””. Igualmente o vogal Francisco Marreiros Leite propôs “que a artéria da povoação de Algoz conhecida por Rua da Moinheta se passe a designar “Rua Dr. Oliveira Salazar”. De seguida o vogal Álvaro Duarte Gomes sugeriu “que a artéria da povoação de Armação de Pera conhecida por Rua da Escola se passe a designar por “Rua Dr. Martins Simões””. Denominações aprovadas por unanimidade .

Rua e Praça João de Deus – Messines 1930

Na década seguinte foram atribuídos dois topónimos: Rua do Alentejo, a uma rua da povoação de Armação de Pêra e Rua Dr. Hermenegildo Chaves , em Alcantarilha.

A 30 de dezembro de 1948 faleceu o médico de Messines, o Dr. Francisco Neto Cabrita, conhecido como o “pai dos pobres” porque, além de não cobrar as consultas aos mais pobres ainda lhes deixava, muitas vezes, o dinheiro para a compra dos medicamentos ou para atenuar alguma necessidade mais urgente. A fim de satisfazer o desejo dos messinenses a Junta de Freguesia solicitou “que a Rua denominada Miguel Bombarda passe a ser designada por Dr. Francisco Neto Cabrita, como manifesto reconhecimento de gratidão ao saudoso benemérito”.

(Continua)

 

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PorVera Gonçalves
Natural da Sé de Faro, oriunda de S. Brás de Alportel, nascida em 1980. Licenciada em Línguas e Literaturas Modernas variante de Estudos Portugueses e Pós-graduação em Ciências Documentais – Ramo Arquivo pela Universidade do Algarve. Funcionária da Câmara Municipal de Silves, desde 2005, como técnica superior de arquivo.
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