Onde estava no 25 de Abril de 1974 … e 24 anos do jornal Terra Ruiva

Onde estava no 25 de Abril de 1974

 

À época era estudante na Escola Secundária de Silves, frequentando o 6.º ano do Curso Complementar de Administração e Comércio. No dia da revolução, num diário que, com intermitências, vinha elaborando, escrevi: “Grande revolta militar. Acabou o fascismo!” Sublinhava o clima de alegria reinante nas ruas e a ânsia pelas notícias difundidas pela RTP (único canal televisivo) sobre o desenvolvimento das operações militares. Recordo que no dia 26 de abril, irrompeu uma grande manifestação de estudantes, a partir da atual Escola Secundária, que, interrompendo as aulas, percorreu as ruas da cidade de Silves, terminando com concentração em frente dos Paços do Concelho. Os jovens manifestantes ostentavam tarjas de papel, gritando palavras de ordem, “Abaixo o fascismo” e “Viva o 25 de Abril”.

Francisco Martins- Foto da Escola Secundária 1974/75

Três ou quatro dias após o sucesso das operações militares, a memória não ajuda, dá-se o meu batismo político, com a participação numa reunião noturna promovida pelo MDP-CDE em Loulé, que congregava figuras brilhantes da oposição democrática no Algarve – Dr. Luís Catarino e Dr. Campos Lima (advogados de Portimão), Dr. Luís Filipe Madeira, advogado (Alte) -, entre outros, que não consigo identificar. Recordo com admiração discursos enérgicos e entusiasmantes. Recordo também com saudade Paulo Nunes Matias e Domingos Estevens, que acompanhei nesta ida a Loulé, Homens que sempre se bateram pelo 25 de Abril, que um dia chegou.

Relembro um episódio delicioso e de coragem. Antes do 25 de Abril, o Ministro do Interior, Gonçalves Rapazote, deslocou-se a São Bartolomeu de Messines, tendo sido recebido nas instalações da Junta de Freguesia (junto à Farmácia Algarve). Nestas visitas havia sempre a preocupação, dos responsáveis do regime, de manter as ruas e os espaços por onde passavam os governantes, com aspeto limpo, alindado e arrumado. Na frente à sede da Junta de Freguesia, do outro lado da rua, a montra da loja de vestuário dos senhores Paulo Matias e Domingos Estevens, foi “decorada” com um amontoado de caixas de chapéus. O episódio foi notado, mas a reação quedou-se apenas por alguns remoques.

Depois do dia da revolução, a vida estudantil foi pontuada por Reuniões Gerais de Alunos, que decorreram sob acesa disputa e efervescência, luta ideológica ainda embrionária e acentuado clima reivindicativo, exigindo-se, nomeadamente o fim dos exames, melhores condições escolares e mudanças na direção e organização da escola. Acabou-se com a circulação separada de rapazes e raparigas no interior da escola. Fora do ambiente escolar crescia a ebulição popular e o surgimento dos partidos políticos.

O PCP, única força política organizada durante a resistência ao regime fascista, é a primeira que se instala no concelho, abrindo sedes (Centros de Trabalho) em Silves, no atual edifício, e em São Bartolomeu de Messines, no 1.º andar do café Aliança, denominado hoje, de Mussiene. Após o dia da revolução prossegui o trabalho associativo enquanto dirigente fundador e atleta da Juventude Académica Messinense (futebol), com os amigos de sempre, Domingos Pires, Alberto José e Rogério da Palma, tendo mais tarde participado nas negociações com o clube de futebol “Os Académicos”, que levou à criação da União Desportiva Messinense. Pouco depois do 25 de Abril surgiu a militância no PCP e a participação na Comissão Diretiva Provisória da Sociedade de Instrução e Recreio Messinense. Foram tempos incríveis de ativismo, entusiasmo e militância.

 25 de Abril, sempre!

 

Atravessamos o mês comemorativo dos 50 anos do 25 de Abril de 1974, acontecimento ímpar da história de Portugal, resultante da ação corajosa e heroica do Movimento das Forças Armadas (MFA), que colocou fim aos 48 anos de ditadura e ao regime fascista, trazendo a liberdade, a democracia, a restituição dos direitos e liberdades fundamentais e o fim da guerra colonial ao povo português, que aterrorizava e traumatizava os jovens, forçados e empurrados para um conflito sangrento, injusto e sem sentido.

O período subsequente, conhecido por Processo Revolucionário em Curso (PREC), que se prolongou até 25 novembro de 1975, foi marcado por profundas transformações económicas e sociais, a descolonização, intensa agitação popular e confrontação política nos campos civil e militar.

Mais tarde, a aprovação da Constituição da República Portuguesa (CRP) em 2 de abril de 1976, uma das mais progressistas do mundo, consagrou o regime democrático e enormes conquistas e transformações na sociedade, garantindo direitos e deveres económicos, sociais e culturais, com o propósito de “ abrir caminho para uma sociedade socialista, no respeito da vontade do povo português, tendo em vista a construção de um país mais livre, mais justo e mais fraterno” (Preâmbulo da CRP). Foi impressionante. A Constituição foi sufragada por 91,6% da população recenseada, tendo merecido a aprovação dos grupos parlamentares do PS, PPD, PCP, MDP/CDE, UDP e independentes, e o voto contra do CDS. Estávamos numa altura em que diversas forças políticas se viram obrigados a dissimular muitos dos seus reais objetivos e propósitos, aceitando tacitamente diferentes formas programáticas de socialismo (curiosamente, hoje, também não é diferente e o eleitorado tende a “comer gato por lebre”).

Com o 25 de Abril é indubitável a importância da conquista que foi a instauração do Poder Local Democrático, que gerou transformações fundamentais nas freguesias e municípios portugueses, resolvendo problemas básicos das populações (rede viária, eletrificação, água, saneamento, higiene pública, equipamentos), estabelecendo uma relação muito próxima do poder político com os cidadãos. Nos dias de hoje, o Poder Local Democrático move-se em contextos mais complexos e patamares mais exigentes, no quadro das atribuições e competências próprias, mais alargadas, e do desenvolvimento local.

O 25 de Abril de 1974 é data já distante, mas mesmo assim, ainda, surpreendentemente, sentida, vivida, participada e comemorada em todo o país. Nos tempos conturbados e contraditórios que vivemos, é absolutamente necessária a unidade de todas as forças democráticas, no sentido, – não, de destruir, entorpecer e esvaziar a Democracia, mas, sim – de aprofundá-la e melhorá-la, exigindo o cumprimento da Lei Fundamental do país.

A Constituição responde aos reais problemas do povo e das massas trabalhadoras, no acesso universal à Escola pública, Serviço Nacional de Saúde, Habitação e Segurança Social, defendendo direitos laborais e sociais, protegendo e valorizando quem trabalha, exigindo a justiça social, mantendo de pé e fortalecendo o Estado Social. A Constituição contraria o poder dos grandes empórios económicos e dos donos disto tudo, que, objetivamente, submetem o poder político à sua vontade, que são causa primeira da corrupção, que todos dizem combater.

O crescimento do neofascismo e do ultraliberalismo, o discurso do ódio, da violência, racismo e xenofobia, o discurso populista das promessas fantasiosas e falsas, são consequência, decerto, de vários fatores conjugados, internos e externos. Mas têm origem, sobretudo, no falhanço das políticas públicas (neoliberais), promovidas sob o signo constante da austeridade e das “contas certas”, protagonizadas pelos dois grandes partidos do sistema, PS e PSD, que têm governado o país, em sintonia e obediência às imposições e orientações da União Europeia, que enterrou a social-democracia em prol do ideário conservador; conduzindo à desorientação, revolta e protesto de grandes massas da população e à desconfiança na Democracia, por sentirem no dia-a-dia o agravamento das suas condições de vida.

50 anos após o 25 de abril de 1974 urge a defesa da Democracia, da parte dos democratas, e mudanças de rumo nas políticas públicas, tendo como farol a Constituição da República Portuguesa, que todos os governantes juram defender no momento da tomada de posse.

 

24 anos do Jornal “Terra Ruiva”

 

No já distante dia 25 de abril do ano 2000 foi criado e apresentado nas antigas instalações do RACAL em Silves, o projeto do Jornal “Terra Ruiva”, mensário, que desde então, tem sido publicado, sem hiatos. O projeto do jornal, hoje, o único existente no concelho de Silves, teve na sua génese, a criação da Associação de Desenvolvimento do Concelho de Silves “Pé de Vento”, cuja escritura de constituição remonta a 23 de setembro de 1999. O modelo de associação sem fins lucrativos foi a estratégia delineada entre o seu núcleo restrito de fundadores para lançar o projeto do jornal, com o objetivo de promover o gosto pela escrita e leitura, a informação livre, o conhecimento e o debate plural da realidade concelhia (e nacional) nos planos social, ambiental, patrimonial, cultural, económico e político – com qualidade, independência e seriedade – num quadro de observância dos valores democráticos, assentes na defesa de Abril e na visão progressista da sociedade. Nos tempos conturbados que atravessamos, com a Democracia sob ameaça, é conveniente relembrar aos mais jovens e a todos os outros, que os direitos e liberdades fundamentais, que inclui a liberdade de imprensa, a liberdade de expressão e informação e a liberdade de associação (hoje, direitos, dados como naturais e adquiridos) são produto da revolução de Abril, estão consagrados na Constituição, mas precisam ser defendidos.

O Jornal “Terra Ruiva” é produto da Democracia e do 25 de Abril. Ao longo dos 24 anos de vida, marcada por períodos de crises económicas e financeiras, troika, pandemia de Covid-19, nunca o nosso projeto correu o perigo de se extinguir, graças à conjugação de vários fatores: gestão económico-financeira sustentável, papel insubstituível da Diretora do Jornal – jornalista profissional, contributo gracioso dos colunistas, apoio de patrocinadores e assinantes e o elevado volume de trabalho “pro bono” e militância, mês após mês, já lá vão 24 anos. Só assim, tem sido possível manter a viabilidade do Jornal, quando a generalidade da comunicação social mergulhou na crise. O “Terra Ruiva” é um projeto associativo “sui generis” da imprensa escrita, porventura, único, no panorama nacional.

 

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