ABRIL – Como e porquê?

De 1933 a 1974, Portugal viveu sob a guilhotina dum regime marcado por uma conceção presidencialista, autoritária e antiparlamentar, de partido único e corporativista, dirigido inicialmente por Oliveira Salazar e posteriormente, a partir de 1968, por Marcelo Caetano, assente na falta de liberdades individuais e coletivas, no medo, na censura, nas prisões e na repressão, acolitado pela legião e por uma polícia política feroz, a PIDE/DGS, sendo interditos os direitos á greve, ao associativismo e ao sindicalismo.

No campo social, imperavam acentuadas desigualdades, com uma expressiva pobreza e uma elevada emigração. Grassava o analfabetismo (40%), sendo reduzido o acesso ao ensino, nomeadamente ao secundário e ao universitário. Vivia-se uma situação de atraso cultural e tecnológico. E o mais triste corolário tinha a sua expressão numa deficitária cobertura sanitária, o que nos conduzia a uma mortalidade precoce e a taxas de mortalidade infantil vergonhosas. A repressão, a censura, a perseguição política e a prisão conduziram a que partissem para o exílio grande número dos nossos melhores intelectuais e artistas.

Em 1945,o fim da II Guerra Mundial marcou o início de profundas transformações a nível mundial. É criada a Organização das Nações Unidas que na sua Carta consagra o direito dos povos colonizados à sua autodeterminação. Em consequência da nova ordem internacional começam a ascender à independência as colónias das grandes potências europeias: Grã-Bretanha, França, Holanda e Espanha. Em 1947 tornam-se independentes a Índia e o Paquistão, jóias da coroa do império britânico. Os anos que se seguem consagram este movimento de autodeterminação e independência, primeiro na Ásia e depois em África, constatando-se que no início da década de 1960 a grande maioria das ex-colónias europeias se tinham tornado novos países independentes.

Surgem então, nos anos 50 e princípio de 60, os movimentos de libertação nas colónias portuguesas propondo a sua autodeterminação, o que foi liminarmente rejeitado pelo regime. O governo português, ao considerar os territórios africanos como parte integrante da nação, negava que eles pudessem ter direito à autodeterminação ou que existisse uma nacionalidade angolana, guineense ou moçambicana.

Face à obstinação do ditador e do regime, de não aceitar as negociações propostas pelos movimentos independentistas, inicia-se em 1961, em Angola, um longo processo de guerra, que se estenderia à Guiné em 1963 e a Moçambique em 1964. Guerras que durariam 13 anos, ceifando a nossa juventude e depauperando os nossos parcos recursos. Sucederam-se as condenações de Portugal nas instâncias internacionais, conduzindo ao isolamento do país.

No início de 1961 o governo respondeu aos ataques em Angola com o envio de tropas, “rapidamente e em força!” Este movimento de tropas foi crescendo, ano após ano, tendo durado até 1974. Foram cerca de 800 mil os jovens que foram enviados para combater em África.E foi na emigração clandestina, que se encontrou a forma de fugir à mobilização para a guerra colonial. Saíram de Portugal mais de 200 mil jovens, entre desertores e refratários.

Na ONU sucediam-se as condenações a Portugal e até o Papa recebeu em audiência os líderes dos movimentos de libertação numa inequívoca manifestação do seu apoio à causa, gesto significativo de reprovação da atuação portuguesa.

Com o decorrer dos anos os meios militares foram ficando obsoletos e foi ultrapassada a capacidade de mobilização dos jovens para a guerra, tendo-se iniciado a chamada às fileiras de pessoas pela segunda vez.

Era o desespero nas famílias e particularmente na juventude.

Paralelamente a esta chaga nacional, cresciam, dia a dia, os bairros de lata, alastrava a miséria. A situação social no País atingia a maior das degradações, com a miséria a alastrar, a emigração clandestina, por ela forçada, a aumentar, provocando o despovoando de grandes zonas no interior e a juventude, em revolta crescente, a desertar. Era a contida revolta popular, que o governo de então violentamente reprimia.

A crise económica mundial causada pela inopinada subida do preço do petróleo, afundou ainda mais a nossa débil economia e fez crescer o nosso já atávico isolamento. Éramos um país rejeitado pela comunidade internacional! Um país envergonhado! Socialmente destroçado!

Havia que acabar com “o estado a que isto chegou” e restituir a dignidade a este povo, o que passava pelo derrube do regime.

E assim aconteceu ABRIL! Pela mão dos jovens capitães, de imediato secundados por todo um povo que há muito ansiava por LIBERDADE e DIGNIDADE.

E ao celebrarmos os cinquenta anos daquele “dia inteiro e limpo” apelamos à juventude de hoje, os homens e mulheres de amanhã, para que reconheçam no legado que transmitimos, um contributo que os ajude a construir o seu futuro em PAZ E LIBERDADE.

VIVA O 25 DE ABRIL- VIVA A LIBERDADE

 Texto do Capitão-de-Mar e Guerra, Rui Cabrita

 

Rui Coelho Cabrita, natural de Alte, residiu durante toda a juventude em S. B. de Messines.

É capitão de mar-e-guerra reformado e participou no movimento político na Marinha, tendo, após a Revolução de Abril, integrado a comissão de extinção da Pide/DGS e participado nas Campanhas de Dinamização Cultural.

Ao longo da vida, empenhou-se em prosseguir a luta pela cidadania plena e pelos ideais e valores de Abril.

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