Quando, em 1992, Francis Fukuyama argumentou na sua obra fundamental “O fim da História e o último homem”, que a derradeira forma de governação da humanidade se traduziria na democracia liberal, poucos foram os que duvidaram. A União Soviética acabara de se dissolver e os Estados Unidos da América emergiam como vencedores da Guerra Fria. As democracias liberais do Ocidente, com valores tais como separação de poderes, imprensa livre, liberdade de expressão, estado de direito, direito à propriedade privada e proteção de direitos civis e políticos, apresentavam os maiores níveis de desenvolvimento económico e o seu modelo de governação tinha-se paulatinamente implantado no mundo desde o Pós-Guerra, desde Portugal ao Chile. A queda da União Soviética engrossou as fileiras das democracias liberais; por um momento parecia que realmente estaríamos no fim da História.
E no entanto, e parafraseando Oscar Wilde, a morte das autocracias e ditaduras foram grandemente exageradas. Hoje em dia estes regimes perduram em vários pontos do globo, de formas mais ou menos diferenciadas e mais ou menos repressivas, mas que impõem as suas vontades sobre populações inteiras, desprovidas de plenos direitos que nós no Ocidente muitas vezes damos como garantidos. A democracia é algo frágil, assim como os associados direitos, liberdades e garantias que desfrutamos; a Freedom House, organização que analisa anualmente o estado das instituições democráticas no mundo reportou que as democracias liberais no mundo têm decaído ligeiramente desde 2005. Nada é garantido.
Enquanto escrevo estas linhas, a Federação Russa trava uma operação militar “de manutenção de paz” em território ucraniano, um eufemismo para uma invasão a larga escala de um território de um país soberano. O conflito ameaça escalar em amplitude e intensidade com a comunidade internacional, nomeadamente a União Europeia e os Estados Unidos da América, a implementar sanções contra a Federação Russa, com consequências gravosas para a população russa. Trata-se de tensão nunca vista desde a Segunda Guerra Mundial no panorama geopolítico.
Muitos consideram que as razões que levam ao conflito são complexas e que o Ocidente e a NATO têm culpa no cartório, com a sua expansão para leste, para os membros da antiga esfera de influência soviética. Paradoxalmente este conflito acaba por validar a existência da NATO por décadas, ao justificar a necessidade de defesa perante um poder beligerante antagónico. Sejam quaisquer que forem as razões apresentadas pelos opositores à NATO, há factos que não podemos escamotear: foi violada a integridade territorial com uma força militar substancial, por parte de um país de regime musculado, que já demonstrara anteriormente intenções perigosas para a ordem internacional. A invasão da Geórgia em 2008 é quase uma “prequela” do que se passa hoje na Ucrânia; aí também a intenção da Geórgia em juntar-se à NATO serviu como justificação para uma campanha agressiva, bem como o reconhecimento das repúblicas separatistas da Abekhazia e Óssétia do Sul. Aí, a comunidade internacional pouco fez, para além de pálidas objeções. Quando em 2014, a Federação Russa ocupou a Crimeia com relativa facilidade e pouca resistência, também a comunidade internacional pouco fez, procurando amenizar as inclinações militaristas russas. Hoje, mais uma vez, a Rússia pretende condicionar a governação e autodeterminação de um país soberano, minando a capacidade da Ucrânia em decidir o seu próprio destino.
A vigorosa tomada de posição da União Europeia e dos Estados Unidos da América representa a consciencialização de que estão em jogo mais do que meros interesses geopolíticos; a contínua agressividade da Rússia representa uma ameaça ao nosso modo de vida, à nossa independência política, à nossa visão do mundo e ao nosso modelo de democracia liberal.
Talvez o mais chocante desta guerra é o reconhecimento que a Ucrânia é, em tantas maneiras, muito semelhante a nós. Até há poucas semanas, as pessoas estavam mais preocupadas com as suas vidas mundanas e com as suas carreiras: o que comprar no supermercado, as aulas dos filhos, qual a série que iriam ver. Hoje, essas pessoas preocupam-se com o movimento das tropas, das saraivadas de mísseis e com os mantimentos que têm para aguentar os próximos dias. Arquitetos, contabilistas, trabalhadores de supermercados, pessoas comuns lidam com a realidade da guerra nas suas casas.
O’Brien, um dos personagens do livro distópico de George Orwell, relata que o futuro da humanidade seria o da repressão, representado por uma bota na cara, para sempre. Há que empurrar a bota.


