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Banco Alimentar o Banco

– Os bancos gostam dos bancos alimentares?
– Na sei. Talvez.
– Alimentam-se também deles?
– Na me parece! Na se vê ninguém a comer uma sande num banco. Mas se o alimento dos bancos é dinheiro, nesse sentido sim, alimentam-se.
– E os hipermercados alimentam-se das campanhas dos bancos alimentares?
– Que jeite! Até odeiem. Quer-se-dizer, agora que falas nisso…
– Então não vendem mais?
– Na tou a olhar prás registadoras. Mas devem vender. Se pessoa sai de casa com um rol de com-pras e gasta mais do que tinha pensado, os supermercados vendem mais.
– E o banco alimentar o Estado?
– O Estado?
– Ó Adozinda! O Estado também se alimenta com o Iva dos produtos alimentares das campanhas?
– O Iva? Quem é? Um rapaz? Uma mulher? É só conhêce a Iva Domingues.
– Não, Adozinda! O Iva é um homem imaterial. Um maduro sem corpo, mas com muita cabeça. Um sabidão. Gosta de fazer contas de valor acrescentado.
– Como assim?
– O Estado arrecada o IVA em tudo o que se compra e vende. E, claro, o Iva que se paga nas com-pras, que depois são doadas ao banco alimentar! Sim, o Estado fica com 6% ou 13% dos produ-tos alimentares que as pessoas, num gesto de generosidade, gostam de proporcionar aos mais des-favorecidos.
– Ah! Já percebi. O Iva é um mostrengo a que não se consegue fugir, a não ser na candonga, na é?
– Claro. Na candonga, o Iva não existe. Mas o Estado é uma pessoa de bem. Gosta que as pessoas pratiquem o bem desde que paguem o Iva que vorazmente arrecada. Até uiva com o Iva que recebe.

Adozinda estava a ficar nervosa com o velho colega. O Dorindo era um chato. Nada tinha que fazer desde que se reformara. Ia ao Continente ler as últimas do dia. Costado largo, em frente do escapa-rate dos jornais da entrada. Quem quisesse espreitar os periódicos, tinha de se contorcer e espremer a vista. Para Dorindo, as leituras do dia eram de borla. – De borla, sai mais em conta, – bebia este seu pensamento com um sorriso cínico.

Adozinda, divorciada, ainda estava comestível, pensou. Assim que a vira, parou para lhe dar trela. Quis fazer-lhe companhia, mas só estorvava. Adozinda procurava ser agradável.

Ela, a Graciliana e mais três voluntários estavam ali, há duas horas. Saquinhos de plástico branco nas mãos. Formavam uma barreira policial à paisana. Parecia uma operação stop, para controlo de bafos alcoólicos. Os carrinhos de supermercado quase chocavam uns contra os outros, junto dos pórticos de alarme. A autoridade verdadeira não tinha sido convocada.

A operação stop, do banco alimentar, era montada por voluntários. Várias vezes ao ano. As pessoas faziam fintas à entrada. Não é que tivessem mau hálito. Não queriam era levar para dentro os sacos do banco alimentar. Olhavam distraídamente para o lado. Um maduro quis retroceder. Chocou con-tra uma senhora que acelerou o passo para não parar. Colisão frontal. Sem feridos.

Dorindo torcia-se a pensar. Compreendia certas coisas. Não compreendia outras. Sabia que os por-tugueses são generosos. Gostam de dar. Sobretudo se a televisão os capturar num gesto de dádiva sorridente. Se forem vistos, tudo maravilhoso. Se ninguém os notar, a oferta fica melhor do lado deles. Nunca será. Dada. Só pensada. Era o que faltava…

Dorindo desconfiava do destino dos produtos doados. Onde iriam parar? Muitos perdiam-se pelo caminho. Outros entregues a Instituições de Solidariedade Social. Apesar disso as mensalidades dos utentes ali nunca baixavam. Alguns, eram revendidos, pois claro, a preços mais em conta. A maior parte, quiçá, cumpriria a função. Matar a fome. Aos que a têm. Ou, talvez, nem tanto.

Dorindo até tinha admiração por gente que gosta de ajudar o próximo, sobretudo em situações de catástrofe. Mobiliza-se. Sacrifica-se. É capaz de levar noites e dias sem dormir, por amor ao próximo. Ou por amor ao distante, já que a desgraça nunca bate à porta de casa mas onde a televisão mostra. Desgraças não existem. Só quando a televisão exibe, sem cheiro mas com cores berrantes, é que aquelas desgraças passam a existir. E desaparecem logo no dia seguinte, trocadas por outras mais berrantes e actuais.

Mas Dorindo também pensava noutras coisas um pouco mais tortuosas. Por que é que o Estado não é mais eficiente a promover a igualdade de oportunidades. A retirar as pessoas da miséria. A domesticar as práticas selvagens que levam à subidas dos preços das casas e barracas, dos bens de primeira necessidade, da água, gás e electricidade? Sim, em vez de apoiar apenas, com manhas de farsante altruísta, as campanhas do bancos alimentares, sem nada dar em troca e sacando, sempre, sempre, o Iva, e mais outros impostos?… Sim, imposto só é imposto porque é imposto.

Dorindo não estava ali a caturrar com a Adozinda – em plena campanha do banco alimentar – para oferecer nada. Apenas para receber. O quê? Só ele o sabia. Revirava os olhos, mas não era para os sacos vazios do alimentar. Só via as mão brancas da Adozinda em voluteios de…

Osvaldo que pensa mal, como qualquer homem que se preze, esteve sempre atento à conversa. Recolhido, três passos atrás. Não suportava o ar dengoso do Dorindo quando falava com mulheres. Notou que a Adozinda amolecia, mas os seios mantinham-se rijos no cofre da blusa. E pensou – aquele traste não pode com uma gata pelo rabo. Nem dá nada a ninguém. O que é que quer? Pensou pior. – Ó Dorindo, vai tentar alimentar-te noutra campanha! Não disse. Pensou.

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