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Arquivos Tags: António Guerreiro

Bísaro

A criança perguntou, Vão cantar ópera? Eu pensei, De facto parecia um espetáculo de ópera cantada. Quando a criança atingir a idade dos espectadores da primeira fila, as melodias do José Afonso já acompanham a música clássica. Ofereceram-me um cravo, um cravo vermelho de Abril, coloquei-o numa jarra com água e decidi contar os dias até ao seu fenecimento. De início ainda floresceu mais, ficou mais vermelho e aberto para todos, durante vários dias, quase um mês, mas depois começou a murchar e acabou por perecer. Foi o último a murchar, de um grupo de quatro (alambazado), talvez por ter …

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Na minha terra

Fui de comboio a Santarém. Até Lisboa fui no Alfa Pendular das sete horas e vinte e nove minutos da manhã (a partir de Tunes). Desci em Lisboa Oriente e esperei por um comboio regional com destino a Santarém. Verdadeiramente o comboio regional tinha como destino Tomar. Fiquei pensando, quais seriam as estações até Santarém e, o mais importante de tudo, qual seria a estação imediatamente anterior a Santarém. Gosto de antecipar as situações e de me precaver em relação a acontecimentos futuros. Quando o revisor veio certificar-se do meu título de transporte, perguntei-lhe qual era a estação imediatamente anterior …

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Regresso ao passado no futuro

Acredito que, ao lerem o título desta crónica, pensaram «lá está ele outra vez com as histórias do antigamente, estamos fartos daquelas historinhas do século passado». Tenho consciência dessa limitação, mas é mais fácil falar do passado do que tagarelar sobre o futuro, um futuro que raramente se concretiza daquele modo. Posso ilustrar esta minha afirmação com o visionamento de filmes de ficção científica em que tudo nos parecia moderno e agora, no nosso atual futuro, muito antiquado, com exceção do teletransporte. Desta vez, vou-vos falar do futuro, não necessariamente do meu, mas do futuro de alguns de nós, com …

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A emoção das reguadas

A minha escrita prazerosa, mesmo que sofrida, iniciou-se numa tentativa poética, reclamando um amor idealizado, próprio de um jovem no início da sua adolescência, num enquadramento campestre de uma árvore, já lá vão quarenta e três anos. Muito mais tarde, há dez anos, o primeiro poema foi reescrito, uma árvore que se reinventa e que majestosamente brota frutos na raiz. Ainda desejo os teus lábios pequenos, nessa tonalidade juvenil, que se afastam, impulsionados pelo tempo, na boca de uma mulher. Fiquei fundeado junto àquela árvore, que imagino frondosa e rendilhada de grafias no seu tronco. O vento esfriou a sombra …

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Berliques & Berloques

Alguém sabe o que são artes de berliques e berloques? O dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia de Ciências de Lisboa refere que artes de berliques e berloques são ações por magia ou por processos misteriosos. Foi assim que me senti no último sábado (4 de janeiro de 2019) à tarde na Biblioteca Municipal de Silves. Mas retomemos ao início da história, como na televisão, no cinema ou mesmo na literatura, vejamos tudo o que aconteceu até ao presente momento e, como o filme não acaba onde começou, ainda alguns momentos posteriores aos berliques e berloques. Claro que a …

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Cidade

Coimbra, sábado, treze e trinta, hora de almoço, um jovem musculoso em tronco nu, tipo gladiador romano, passa por mim em passo de corrida, na mesma direção, mas em sentido oposto. Aquela imagem inesperada, num contexto urbano, junto ao estádio municipal, e outonal, meados de novembro, podia constituir parte de um vídeo promocional de algum perfume, nesta época natalícia, mas, em mim, materializou uma das personagens centrais do livro «O caso Sparsholt», que estou a ler, nas últimas quarenta das quinhentas e quarenta e quatro páginas, do escritor inglês Alan Hollinghurst, em que quase todos os intervenientes são homossexuais. Nas …

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Rebeldia

Quando eu era um jovem adolescente, no final dos anos setenta do século vinte, escrevinhava umas pequenas histórias de confronto moral de um jovem revolucionário contra a burguesia reinante, muito arreigada numa sociedade basicamente tradicional e salazarista. As minhas rebeldias eram idealizadas numa mudança de mentalidades, longe de confrontos físicos ou distúrbios materiais. Fundamentalmente era um jovem idealista que adotara uma chave de bocas (de prata) num fio de prata, em lugar do tradicional crucifixo num fio de oiro. Acredito na construção moral dos indivíduos e no poder das utopias de rebeldia na (r)evolução da sociedade. Os escritos repousam algures …

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Mathilde

A minha avó materna foi exposta, aquando do seu nascimento. Assim reza a história de que fora abandonada pelos pais após o nascimento ou com pouca idade. Os chamados enjeitados, numa palavra mais popular e menos erudita, pouco própria para as escrituras das paróquias das cidades e das vilas do nosso país. Sempre assumi, com alguma certeza, três ou quatro factos a propósito desta minha avó que já era sexagenária quando nasci. Que tinha sido enjeitada, no ano da graça de mil oitocentos e noventa e oito (estava errado), que fazia anos em março, que foi deixada à porta da …

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Aviãozinho

No passado mês de maio, fui duas vezes de Portimão até Bragança, ida e volta, num aviãozinho de dezoito lugares. Não tinha ideia da dimensão do avião e, por isso, estava na expetativa de como seria a viagem. Curiosamente, um avião de menor dimensão parece ser mais assustador do que um avião comercial de grande porte. Não tenho conhecimentos de engenharia aeronáutica, mas acredito que são ambos seguros (ou inseguros) dependendo das nossas crenças sobre a natureza das viagens. Antes do dia da partida, falaram-me de utentes descontentes e de utentes maravilhados. Tinha de decidir por mim. Apresentei-me à hora …

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Em estado puro

Neste mês florido de abril, o jornal faz dezoito anos e a minha colaboração faz quinze anos e quatro edições. Com a minha primeira participação, em dezembro de dois mil e dois, eu acendi uma exígua chama de utopia, que alimenta ou consome os empreendimentos, conjugada com as outras pequenas labaredas que sustentam a realidade de um jornal mensal, de âmbito concelhio, intitulado Terra Ruiva. Nestas crónicas de uma página A4 (ou dois minutos de leitura), desta feita um pouco menor, tento abarcar um conjunto de referências que sejam sábias para todos, para os jovens leitores e para os leitores …

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