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António Guerreiro

Natural de Silves, nascido em 1962, é doutor em Educação Matemática, professor e diretor da Escola Superior de Educação e Comunicação da Universidade do Algarve. Os seus interesses atuais nos tempos livres são a escrita, a leitura e a fotografia.

2 Perros e 1 coche

Os meus pais, particularmente a minha mãe, possuíram alguns cães rafeiros, raramente mais do que um em simultâneo. Ao último cão, membro de uma ninhada de cães de uma cadela da minha tia Elvira, demos-lhe o nome de Felini (nome não ficcionado, associado ao cineasta italiano Federico Fellini). O Felini era um cão caseiro (fundamentalmente não o deixávamos fugir), com muito mau génio em relação aos estranhos, especialmente aos carteiros. Todos os cães que minha mãe possuiu já morreram faz algum tempo, mas ainda recordo as suas imagens rafeiras, especialmente a do penúltimo, um cão branco e preto muito dócil …

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Habla del Silencio

Ofereceram-me uma garrafa do melhor tinto de Espanha do ano de 2014 pela Asociacion Española de Periodistas e Escritores del Vino que se denomina Habla del Silencio… (as reticências fazem parte do título). A caixa com a forma de um paralelepípedo, neste caso de um prisma quadrangular, é elegante em tons de branco e preto. Digo tons, porque verdadeiramente existem brancos que sobressaem no branco e pretos que não se afundam no preto. O nome deste vinho parece um contrassenso ao juntar duas palavras aparentemente incompatíveis, fala e silêncio. Descobri que não, num destes dias, numa rua deserta da cidade, …

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Conversa de homens

Quando eu era miúdo ia ao barbeiro, cortar o cabelo. Nessa época, não tinha barba e nem tamanho para me sentar na cadeira de barbeiro. O barbeiro, que também cortava o cabelo, colocava uma prancha de madeira, sustentada pelos braços da cadeira de (e do) barbeiro, para eu e para os restantes clientes da minha estatura se sentarem. Imagino que a cadeira era sua, dele barbeiro, como o restante mobiliário e recheio da barbearia. O recheio, porque o invólucro (neste caso o imóvel) não sei, nem desconfio, de quem seria a pertença da barbearia. Nessa época, quando eu colocava os …

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Roteiro para uma festa

A Feira Medieval terminou ontem. Um pouco longa para moradores, trabalhadores e demais locais. A marca Feira Medieval de Silves está consolidada, mas requer permanente inovação e arrojo. Hoje, saí para ir caminhar na passadeira vermelha (duas voltinhas) e já desmontavam o pano de muralha que se estendia junto a minha casa. No início do circuito encontrei um idoso da minha idade que é professor de educação física que aludiu ao começar da semana com movimento. A uns mil metros, duas funcionárias da autarquia extraíam a natureza bravia de um dos alegretes enquanto interagiam. Estive no facebook a ver a …

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Amarelão

Quando esbarro nos media com esta gentalha amarelenta e escuto frases exclusivas – «força, força colégio, colégio. (…) Cá não há misturas é tudo boa gente» – com grafias denunciadoras de outros intentos – «em nome do meu, filho» – fico revoltado e ao mesmo tempo divertido. Reassumo a essência da minha rebelião contra as gentes privilegiadas que contribuíram para a minha (extensível à generalidade da população) segregação económica, social e cultural – um rico gera sempre milhares de pobres. Não tenho pejo em defender a escola pública para todos, a saúde pública para todos, a justiça pública para todos, …

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Gente cristalina

Ao assumir um elevado código moral da esquerda, tenho erradamente assumido como natural e desculpável a prática de crimes económicos, sociais e políticos da direita. Com a força da superioridade moral da esquerda, condeno duplamente os seus ilícitos e absolvo com crescente indiferença os ilícitos da direita. Algo está duplamente errado, os crimes económicos, sociais e políticos devem ser exemplarmente punidos, com consequências pessoais e politicas dos protagonistas sejam eles (ou elas) da esquerda ou da direita. O furor da condenação criminal da esquerda e da desculpabilização inconsciente da direita não é só uma característica típica das gentes de esquerda, …

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Urgências

Faro, 1 de março de 2016, 15 horas e 32 minutos. Tenho o telemóvel pessoal a tocar. É a minha sobrinha que está com uma enorme dor de cabeça e mais de trinta e oito graus de febre. Neste momento já se encontra em casa da minha mãe (terça-feira é um dia de aulas) e sente-se impotente sem saber o que fazer e/ou onde se dirigir. Digo-lhe para ela esperar por mim, numa hora estarei em Silves. Termino intempestivamente as minhas atividades laborais, tudo neste momento pode esperar para o dia seguinte. Silves, 1 de março de 2016, 16 horas …

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Ter quinze anos aos cinquenta e três

Ter quinze anos aos cinquenta e três parece uma total idiotice, mas aconteceu-me no último dia do passado mês de janeiro.   Revi no canal Memória da RTP o filme Summer of ’42 (1971), com direção de Robert Mulligan, tal como o tinha visto no dia 1 de janeiro de 1978, ainda no cinema em Silves. Nessa data tinha quinze anos e decidira iniciar um diário que anotou um ano e oito meses da vida deste jovem que vos fala trinta e oito anos depois. Parece que o tempo e o espaço são relativos e por isso consegui ter quinze …

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Democracia

Não me canso da democracia, mas ando cansado de tanta campanha, tanta análise, tantos analistas, na sua essência iguais, revelando meias verdades quase sempre antagónicas. Apetece-se gritar: «Sossego, porra!». Ambiciono um governo a governar, espero em proveito de todos (o que é impossível) ou pelo menos em benefício da esmagadora maioria da população, e uma tomada de posse do Presidente da República que seja rápida e sem mais demoras, para acabar com o permanente reality show. Todos atingimos um elevado grau de asco ao atual inquilino do Palácio de Belém que, na minha humilde opinião, há muito tempo que não …

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O futuro já foi ontem

A mesma alma, o mesmo olhar, as mesmas mãos estão retratadas numas fotografias de 1965, em que eu tinha dois anos. Sinto-me antigo, apesar de nestas fotos mirar o futuro. Lá estou eu, com um ligeiro sorriso e uns olhos pouco rasgados, sem saber onde pousar as mãos. Numa das fotos, encubro as mãos quase atrás das costas, num movimento notório de atrapalhação, sem saber o que fazer com as ditas, enquanto estou exposto para ser retratado. Numa outra foto, tirada nesse mesmo dia, tenho a mão direita na algibeira das calças e com a mão esquerda seguro uma antiga …

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