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António Guerreiro

Natural de Silves, nascido em 1962, é doutor em Educação Matemática, professor e diretor da Escola Superior de Educação e Comunicação da Universidade do Algarve. Os seus interesses atuais nos tempos livres são a escrita, a leitura e a fotografia.

Em estado puro

Neste mês florido de abril, o jornal faz dezoito anos e a minha colaboração faz quinze anos e quatro edições. Com a minha primeira participação, em dezembro de dois mil e dois, eu acendi uma exígua chama de utopia, que alimenta ou consome os empreendimentos, conjugada com as outras pequenas labaredas que sustentam a realidade de um jornal mensal, de âmbito concelhio, intitulado Terra Ruiva. Nestas crónicas de uma página A4 (ou dois minutos de leitura), desta feita um pouco menor, tento abarcar um conjunto de referências que sejam sábias para todos, para os jovens leitores e para os leitores …

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Electro

Vivo na capital da laranja e fui ver o concerto dos Amor Electro. Saí de casa algum tempo antes, mas já ia jantado, um jantar pouco significativo e sem qualquer sabor a laranja. Percorri as ruas quase desertas da baixa comercial. Passei por um casal silvense da minha geração ou talvez um pouco mais velhos e não disse nada. Será que as pessoas têm de andar constantemente a se cumprimentarem com um bom dia ou uma boa noite, numa cidade como a de Silves em que nos conhecemos há uma eternidade? Muitas das vezes me acham arrogante e comentam que …

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Só Palavras

Vivo, em Silves, num prédio com dez condóminos, três dos quais familiares. Trata-se de uma pequena comunidade, incluindo alguns ingleses residentes no nosso país. Esta descrição contextualiza a primeira pequena história que vou vos contar sobre o sentido e o valor cultural das palavras. Num destes dias, chegava ao prédio, após a viagem de regresso de Faro, e, abeirando-me da porta do edifício, percebi que um homem, que eu não conhecia, olhava para mim em silêncio como quem pretende entrar no prédio. Perguntei-lhe se procurava alguém, o sujeito mencionou-me um nome que não entendi, mas que me pareceu próximo do …

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Instrumental

Conheces a sensação de identificar uma canção através da sua música? As canções, incluindo os fados, contam-nos uma estória (palavra controversa com a significação de narrativa) de amor, de amigo ou de mal dizer; as canções são pequenas estórias que se agarram à vida de cada um de nós e que, por vezes, são respiradas por uma comunidade, por um povo ou nação ou mesmo pelo mundo, nesta pequena aldeia global. Apenas uma melodia, o seu instrumental é suficiente para trautearmos a sua letra. Aos primeiros acordos d’A Internacional, o meu cérebro reage com, De pé! Ó vítimas da fome, …

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Dezembro

Aí está ele, o mês de dezembro. O mês dos dias pequenos e, em consequência, das noites grandes, o mês do meu aniversário, da dádiva natalícia e da despedida do calendário. Recordo aqueles calendários do mês de dezembro, em geral, apenas até ao dia de natal, em que, em cada dia, existia uma janelinha com um número e uma decoração e, por detrás da respetiva portada, de cada uma das aberturas, um pequeno bombom quadrangular, com uma espessura mínima, embrulhado numa pratinha colorida. Esses calendários eram tão bonitos que dificilmente se destapava cada dia e se comia o respetivo chocolate, …

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Memória

No recente filme Blade Runner 2049 (realizado por Denis Villeneuve), os humanoides, criados artificialmente, não se reproduzem e, naturalmente, não têm memória da sua infância, adolescência ou mesmo vida adulta, porque já nasceram adultos. Para serem mais humanos, as falsas memórias, produzidas por inventores de passados, como construtores de falsas fotografias ou imagens cinematográficas, são implantadas no seu cérebro, dando significado à sua falsa vida humana. A memória, que acabará sempre por se perder no tempo, dá sentido à existência humana. Esta meditação sobre a memória, tal como a memória dos computadores, levou-me a refletir sobre uma conversa tida com …

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Vermelho, Vermelhusco, Vermelhão

Tudo é garantido Após a rosa vermelhar Fafá de Belém De como Rosa Palma quebrou o enguiço da CDU, da influência de Isabel Soares que se esfumou, da crise no PS de Matos a Matos, da irrelevância dos ilustres desconhecidos [com os dados relativos às eleições para a Câmara Municipal de Silves], da improbabilidade da Assembleia Municipal e da vontade dos fregueses. Há cerca de dois anos, um jovem adulto questionava-me sobre a possibilidade de alternativa política à CDU, manifestei a reduzida probabilidade de alguém perder, após um primeiro mandato autárquico. Contra-argumentaram-me que a CDU nunca tinha conseguido dois mandatos …

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Madrid e outras paragens

Iniciei uma crónica sobre a minha ida a Madrid, no passado mês de julho, a um congresso em educação matemática. Refletia sobre as diferenças entre as viagens de autocarro, de comboio ou de avião, como um rasgo entre duas localidades, e as viagens de metro, círculo fechado numa teia de aranha. A azáfama das partidas (e das chegadas), por exemplo num terminal rodoviário ou num aeroporto, diferenciam-se da apatia dos passageiros do metro da cidade. Esta reflexão sobre a natureza dos caminhos (que se fazem caminhando, como nos diz o poeta castelhano Antonio Machado) constituía a crónica já quase completa …

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Talvez devagarinho

Na sociedade Comendador Vilarinho, a noite do Festival da Canção era especial. Em mil novecentos e setenta e um, lá estava eu a ouvir a Menina interpretada pela Tonicha, com música de Nazaré Fernandes e letra de Ary dos Santos. Lembro-me de ter assistido, na referida sociedade, ao Festival da Canção desse ano, acredito que na versão nacional, tinha oito anos, sentado defronte da televisão partilhada por todos, como se se tratasse de uma tela de cinema. Era o tempo em que ainda acreditávamos que poderíamos vencer o certame da eurovisão, talvez no próximo ano. Foi quase nossa a vitória …

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Aparições

Acho que fui à catequese uma vez, ainda andaria na escola dita primária. A catequese era logo a seguir à missa (ou seria antes) na sé. A catequista distribuiu uma folha branca com o presépio por colorir (aquelas gravuras que só têm contorno e que são denominadas para colorir, são essas mesmas). Foi há tantos anos que, agora, acho estranho, mas estou a presenciar uma folha com as figuras do presépio e lápis de cor. Os lápis azuis eram insuficientes para as jovens mãos e a catequista disse-nos que podíamos pintar o céu de distintas cores (podíamos ser criativos). O …

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