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António Guerreiro

Natural de Silves, nascido em 1962, é doutor em Educação Matemática, professor e diretor da Escola Superior de Educação e Comunicação da Universidade do Algarve. Os seus interesses atuais nos tempos livres são a escrita, a leitura e a fotografia.

Memória

No recente filme Blade Runner 2049 (realizado por Denis Villeneuve), os humanoides, criados artificialmente, não se reproduzem e, naturalmente, não têm memória da sua infância, adolescência ou mesmo vida adulta, porque já nasceram adultos. Para serem mais humanos, as falsas memórias, produzidas por inventores de passados, como construtores de falsas fotografias ou imagens cinematográficas, são implantadas no seu cérebro, dando significado à sua falsa vida humana. A memória, que acabará sempre por se perder no tempo, dá sentido à existência humana. Esta meditação sobre a memória, tal como a memória dos computadores, levou-me a refletir sobre uma conversa tida com …

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Vermelho, Vermelhusco, Vermelhão

Tudo é garantido Após a rosa vermelhar Fafá de Belém De como Rosa Palma quebrou o enguiço da CDU, da influência de Isabel Soares que se esfumou, da crise no PS de Matos a Matos, da irrelevância dos ilustres desconhecidos [com os dados relativos às eleições para a Câmara Municipal de Silves], da improbabilidade da Assembleia Municipal e da vontade dos fregueses. Há cerca de dois anos, um jovem adulto questionava-me sobre a possibilidade de alternativa política à CDU, manifestei a reduzida probabilidade de alguém perder, após um primeiro mandato autárquico. Contra-argumentaram-me que a CDU nunca tinha conseguido dois mandatos …

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Madrid e outras paragens

Iniciei uma crónica sobre a minha ida a Madrid, no passado mês de julho, a um congresso em educação matemática. Refletia sobre as diferenças entre as viagens de autocarro, de comboio ou de avião, como um rasgo entre duas localidades, e as viagens de metro, círculo fechado numa teia de aranha. A azáfama das partidas (e das chegadas), por exemplo num terminal rodoviário ou num aeroporto, diferenciam-se da apatia dos passageiros do metro da cidade. Esta reflexão sobre a natureza dos caminhos (que se fazem caminhando, como nos diz o poeta castelhano Antonio Machado) constituía a crónica já quase completa …

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Talvez devagarinho

Na sociedade Comendador Vilarinho, a noite do Festival da Canção era especial. Em mil novecentos e setenta e um, lá estava eu a ouvir a Menina interpretada pela Tonicha, com música de Nazaré Fernandes e letra de Ary dos Santos. Lembro-me de ter assistido, na referida sociedade, ao Festival da Canção desse ano, acredito que na versão nacional, tinha oito anos, sentado defronte da televisão partilhada por todos, como se se tratasse de uma tela de cinema. Era o tempo em que ainda acreditávamos que poderíamos vencer o certame da eurovisão, talvez no próximo ano. Foi quase nossa a vitória …

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Aparições

Acho que fui à catequese uma vez, ainda andaria na escola dita primária. A catequese era logo a seguir à missa (ou seria antes) na sé. A catequista distribuiu uma folha branca com o presépio por colorir (aquelas gravuras que só têm contorno e que são denominadas para colorir, são essas mesmas). Foi há tantos anos que, agora, acho estranho, mas estou a presenciar uma folha com as figuras do presépio e lápis de cor. Os lápis azuis eram insuficientes para as jovens mãos e a catequista disse-nos que podíamos pintar o céu de distintas cores (podíamos ser criativos). O …

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Na essência

Neste últimos dois meses, em que me ausentei desta escrita, senti que percorria os fios duma trama ou rede fina, podendo a qualquer momento desequilibrar-me e esvaziar-me de lucidez. A sincronização de acontecimentos nada relacionáveis engendraram uma enorme fadiga e um indispensável apego à objetividade para percorrer essa trama sem mergulhar na demência. Os meus pais ficaram em simultâneo a necessitar de permanente atenção, tolhidos de autonomia: as laranjas apodreceram no pequeno quintal de minha mãe, a única laranjeira ali plantada lastimou a sua ausência momentânea e a inexistência dos carinhos de quem sempre viveu a ruralidade; os jogos de …

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Sem rumo

Iniciei o ano de 2017 em Armação de Pêra. Uma festa familiar com todos, desde crianças até idosos, passando por jovens, adultos e turistas ou residentes estrangeiros nas nossas terras. Todos presentes, todos festejando a chegada do ano de dois mil e dezassete, para o mundo ocidentalizado. Foi curioso presenciar (não necessariamente por esta ordem) a inquietude inicial dos mais idosos com a hora marcada para a abertura dos festejos, a alegria dos jovens adolescentes locais no reescrever de canções, alterando a letra d’ Os Filhos da Nação para Os Filhos de Armação, em função de vivências e de irreverências, …

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2 Perros e 1 coche

Os meus pais, particularmente a minha mãe, possuíram alguns cães rafeiros, raramente mais do que um em simultâneo. Ao último cão, membro de uma ninhada de cães de uma cadela da minha tia Elvira, demos-lhe o nome de Felini (nome não ficcionado, associado ao cineasta italiano Federico Fellini). O Felini era um cão caseiro (fundamentalmente não o deixávamos fugir), com muito mau génio em relação aos estranhos, especialmente aos carteiros. Todos os cães que minha mãe possuiu já morreram faz algum tempo, mas ainda recordo as suas imagens rafeiras, especialmente a do penúltimo, um cão branco e preto muito dócil …

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Habla del Silencio

Ofereceram-me uma garrafa do melhor tinto de Espanha do ano de 2014 pela Asociacion Española de Periodistas e Escritores del Vino que se denomina Habla del Silencio… (as reticências fazem parte do título). A caixa com a forma de um paralelepípedo, neste caso de um prisma quadrangular, é elegante em tons de branco e preto. Digo tons, porque verdadeiramente existem brancos que sobressaem no branco e pretos que não se afundam no preto. O nome deste vinho parece um contrassenso ao juntar duas palavras aparentemente incompatíveis, fala e silêncio. Descobri que não, num destes dias, numa rua deserta da cidade, …

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Conversa de homens

Quando eu era miúdo ia ao barbeiro, cortar o cabelo. Nessa época, não tinha barba e nem tamanho para me sentar na cadeira de barbeiro. O barbeiro, que também cortava o cabelo, colocava uma prancha de madeira, sustentada pelos braços da cadeira de (e do) barbeiro, para eu e para os restantes clientes da minha estatura se sentarem. Imagino que a cadeira era sua, dele barbeiro, como o restante mobiliário e recheio da barbearia. O recheio, porque o invólucro (neste caso o imóvel) não sei, nem desconfio, de quem seria a pertença da barbearia. Nessa época, quando eu colocava os …

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