Numa das viagens rodoviárias matinais para Faro, no meu estimado veículo, na movimentada e gratuita via do infante, estava ouvindo no rádio da viatura a publicitação de um programa radiofónico da antena um – mesa para dois –, em que o convidado para sobremesa tinha proposto o bolo de bolacha da avó. Foi por causa desse pormenor – da avó –, que me ocorreu escrever esta crónica, particularmente neste mês de março que tem um dia dedicado a todas as mulheres.
No primeiro de maio, a minha mãe fazia sempre um morgado de figo e amêndoa que era receita da sua mãe, portanto da minha avó. Esses morgados eram simples, mas deliciosos e, nesse sentido, compreendo como pode ser diferente um bolo de bolacha de pastelaria, do bolo de bolacha da avó. A minha mãe, do que recordo, fazia outros bolos, como o bolo de laranja, a tarde de amêndoa e a torta de bolachas e chocolate. São bolos que, porventura, não requerem muita sofisticação na sua preparação, mas as suas receitas estavam, numa gaveta de um dos armários da cozinha, num antigo caderno escolar, com a minha letra e com muitos resquícios do labor de fazer os ditos bolos, tortas, tartes e morgados.
Na cozinha desenrasco-me na realização de pratos de carne ou de peixe, principalmente com um sabor mediterrânico, em que abuso do tomate, da cebola, dos pimentos e dos coentros, são as chamadas comidas de tacho que gosto de fazer e de servir.
Não tenho aquela especial sofisticação para comidas exageradamente elaboradas, mas uma açorda de bacalhau ou uma caldeirada de lulas ou uma feijoada (com molho de tomate, como começamos a fazer cá em casa) ou uma carne de porco com ameijoas ou um bacalhau à Brás são pratos que rivalizam com os simples bifes grelhados ou aquela lata de conserva de pescado para uma refeição rápida e sem qualquer contexto alimentar ou familiar.
Se não fosse professor, poderia ser cozinheiro, sempre imaginei essa possibilidade, mas teria de me dedicar de alma e coração aos segredos da cozinha, principalmente à sofisticação da culinária relacionada com as sobremesas, particularmente com a doçaria. Imagino-me a fazer alguns pratos tradicionais de bacalhau que, curiosamente, têm associados nomes masculinos, como Bacalhau à Brás, Bacalhau à Gomes de Sá, Bacalhau à Lagareiro e Bacalhau à Zé do Pipo, mas teria toda a dificuldade de me imaginar com a delicadeza necessária para a confeção da doçaria conventual portuguesa, dos pastéis de Santa Clara, papo de anjo, barrigas-de-freira, fios de ovos, toucinho do céu, que imagino saírem das mãos laboriosas das freiras, das mães e das avós.
É por isso que existem variados doces caseiros e tradicionais que têm um toque afetivo e acolhedor, preparados ao longo das gerações, conhecidos por doces da avó, porque nos remetem para a nossa infância e, também, para sabores autênticos, que estão ausentes na pastelaria tradicional de fabrico industrial.
Apesar disso, todos, homens e mulheres, temos as mesmas capacidades de realização nas diferentes ocupações profissionais, basta querer e agir com profissionalismo.






