Os acontecimentos que levaram à morte do operário corticeiro silvense Francisco Santos Gonçalves, de 40 anos, no final da greve de 1924, foi o tema do percurso histórico promovido pela Câmara Municipal de Silves e orientado pelo professor António Guerreiro.
O passeio histórico decorreu no dia 22 de junho, uma tarde de sábado com muito calor e jogo da Seleção Portuguesa no Euro 2024. O pretexto para muitas ausências numa cidade cujo desenvolvimento e história foram fortemente marcados pela indústria corticeira e pelas pessoas que com ela se relacionaram. Ainda assim, uma dezena de pessoas juntou-se no Largo do Município, em Silves, lugar central da vida da cidade. As boas vindas foram dadas pela vice-presidente da Câmara Municipal de Silves, Luísa Conduto Luís, que se referiu à forma como os operários corticeiros se uniam para reivindicar melhores condições de trabalho, uma necessidade que hoje continua a manter-se e, entre outras considerações, lamentou o facto da história local não ser estudada, numa cidade que “não é só histórica pelos monumentos que temos, mas também pelas pessoas”.

Em seguida, António Guerreiro iniciou a sua explanação, começando por levar os presentes a imaginar o local onde se encontravam, à data dos acontecimentos.
Este era um ponto central na cidade, com o edifício sede da Câmara Municipal já em construção e os serviços a funcionar nas salas existentes nas arcadas. Do outro lado, no Torreão, as instalações da GNR. Poucos metros mais acima, a casa onde habitava o Delegado do Governo. Do lado oposto, no edifício que hoje é património municipal, a sede da Associação de Classe da Indústria Corticeira Silvense. (Os guardas no torreão ouviam os comícios dos corticeiros, diria mais tarde). O atual Largo do Município marcava também a divisão da cidade. Daqui para cima, os bairros operários de casas minúsculas, onde se vivia em grande pobreza, sem condições. A partir daqui, em direção ao rio, a cidade dos industriais, comerciantes e famílias abastadas.
António Guerreiro, começou por fazer uma introdução à época e sobre as anteriores greves e manifestações dos operários corticeiros, quer em Silves, quer a nível nacional, até ao desenrolar dos acontecimentos marcantes que se iniciam a 1 de maio de 1924.
Neste dia, os operários corticeiros de todo o país entram em greve, reclamando um aumento de 80% sobre os salários inferiores e até 10$00, e de 50% sobre os superiores a esse montante. A greve tem grande repercussão em Silves. Com o passar dos dias, é convidado o delegado do Governo, José António Lacerda, para servir de intermediário entre os industriais, representados por Francisco da Silva Pires, e os operários, representados por Domingos dos Santos Passarinho.
No entanto, após várias reuniões, a greve mantém-se com a exigência dos operários de Silves que pretendem ser remunerados da mesma forma que os seus colegas de Lisboa. Somam-se também os apoios de outros trabalhadores, como os fragateiros, estivadores e chaffeurs marítimos de Lagoa e Portimão, que eram essenciais ao transporte da cortiça que era feito através do Rio Arade.
A greve prolonga-se e surge a fome. Antevendo alguns conflitos, o delegado do Governo solicita o reforço da vigilância na cidade. Entram em greve também os operários corticeiros de São Bartolomeu de Messines e os trabalhadores dos Correios e Telégrafos desta aldeia.
Com o arrastar da situação e para evitar a fome das crianças, a Associação de Classe, como já tinha feito noutras ocasiões, decide recorrer à solidariedade de outros trabalhadores. Várias crianças são enviadas para Portimão, outras seguem para Faro e Olhão e ainda outras ficam ao cuidado de famílias de Silves, nomeadamente do Sindicato da Construção Civil.
Entretanto, chega à cidade o reforço policial que tinha sido pedido, sendo 16 praças da GNR, dez da infantaria e seis da cavalaria os quais, não havendo lugar no quartel para os cavalos, ficam instalados na casa do industrial Duarte de Ornelas Vasconcelos (o prédio rosa, frente ao Largo do Município). É proibido qualquer tipo de manifestação.
A greve só termina após 40 dias, a 10 de junho, com o aumento de 20% dos salários.
O regresso das crianças
Com o fim da greve prepara-se o regresso das crianças a casa e aqui começa a outra parte do percurso histórico. António Guerreiro leva-nos até junto ao rio, junto à Ponte Velha, de onde se vê a estrada que, serro acima, liga a cidade à estação dos comboios. É por aí que seguem os pais das crianças, num pequeno grupo, no dia 22 de junho de 1924, para irem buscar os seus filhos que regressam a casa.
O primeiro comboio, vindo de Lagos, chega perto das 8 horas da manhã. As crianças são recebidas no meio de natural alegria. Com elas vinham representantes dos sindicatos que as tinham acolhido, agitando as suas bandeiras e estandartes, e dessa forma descem, juntamente com as famílias, em direção à cidade, num grupo a que se vão juntando mais pessoas pelo caminho. Os populares são avistados pelo sargento da Guarda que, com alguns praças, os intimida a dispersar. O que eles fazem, subindo por ruas diferentes, mas voltando a juntar-se, perto da Associação Corticeira.
Estava marcado para o meio-dia a vinda do segundo grupo de crianças, que se encontravam no Sotavento. Ao contrário do que acontecera com a chegada do primeiro comboio, a esta hora a estação estava cheia de gente. Pessoas que choram, que gritam, que dão vivas de entusiasmo. Recebidas as crianças, a multidão começa a descer de regresso à cidade, enquanto o comandante da GNR, o tenente Joaquim Vinhas, posicionava os seus homens antes da ponte de acesso à cidade, com a infantaria à direita, na parte superior da encosta uma linha de atiradores, ao fundo a cavalaria, a barrar a estrada.
Os populares estão encurralados. De um lado o serro inacessível, do outro um muro que delimita a estrada da encosta que desce até ao rio. As mulheres e crianças seguem à frente e segundo os relatos da época um dos sindicalistas de Olhão pede ao tenente que deixassem passá-las, o que não acontece. É dada ordem para que dispersem o que os operários não podem fazer, por não haver outra via e devido às condições desta, com o serro de um lado e o muro do outro. Pouco depois, o tenente Joaquim Vinhas dá ordens para intervenção. Soam tiros e a cavalaria avança à espadeirada, contra os operários. Alguns tentam subir o muro e escapar por esse lado, atravessando o rio, ficando feridos também nessa fuga.
A perseguição aos operários continua pela ruas da cidade, enquanto estes tentam chegar à Associação.
No final, a intervenção da GNR deixa atrás de si um morto, o operário Francisco dos Santos Gonçalves, que trazia consigo duas filhas. Ficam feridos muitos homens, mulheres e crianças, muitos deles em resultado dos estilhaços dos tiros que embatiam no muro da estrada. Um operário é transportado para Lisboa, devido aos seus ferimentos, um outro é também internado com um ferimento grave no peito e uma criança tem um estilhaço de bala alojado na cabeça. Muitos outros feridos são tratados no hospital da cidade.
O funeral de Francisco dos Santos Gonçalves é também marcado pela luta. As autoridades retiram o corpo à família e marcam o funeral para uma hora matutina, para impedir que fosse acompanhado. Mas à hora marcada comparecem centenas de pessoas que caminham até à porta do cemitério onde uma força da cavalaria da GNR se encontrava à sua espera e não permitiu que entrassem.
Estes acontecimentos vão ter “uma grande repercussão no movimento sindical corticeiro e anarquista”, adianta António Guerreiro, no final deste percurso. Junto à ponte por onde, a 22 de junho de 1924, correram homens, mulheres e crianças, perseguidos e feridos pelas forças de segurança, por alguns momentos não é difícil imaginar esse cenário, não assim tão longe da realidade que conhecemos.
A greve corticeira de 1924 em Silves e todas as circunstâncias que envolveram estes acontecimentos ficarão mais conhecidas através do livro que António Guerreiro escreveu e que, com o apoio da Câmara Municipal de Silves, será apresentado em novembro deste ano.


