O avô

 

O avô era um bruto. Dizia-se. Quem ousava olhar para a sisuda carranca temia-o. A começar por mim, à medida que crescia, enquanto o não conhecia melhor.

Sobrava tabefe para corrigir as asneiras que fazia. E, para se perdoar da chicotada das manápulas, deixava cair uns laivos de ternura austera. Acabava logo a choraminguice do petiz. Eu.

Aquela figura gigantesca, musculada, intimidava. As flores do estúdio de fotografia onde pousou para a posteridade não condiziam com a personalidade do retratado. O avô era de adereços mais robustos. A sua voz grave, potente, não dava ordens. Trovejava em linguajar algarvio.

A carranca nunca desaparecia. Nem quando lançava atoardas que punham a rir toda gente. Ou quando fazia gemer a guitarra, em cantorias alongadas pela noite adentro, entre garrafões de tinto, para os adultos, e pirolitos borbulhantes para a criançada.

O avô nascera em Vila Nova de Portimão. Tal como os seus dois filhos, António José e Isabel da Cruz que a avó despejara em casa. Eu, moço fino, e muito mais tarde, já despontara na cidade, na casa larga que o avô construíra, a partir de duas mais pequenas, no largo da Rua Vasco Pires. Ainda lá está ostentando as iniciais em ferro forjado, JMQ, José Marques Quaresma.

Desde sempre, o avô tratava o mar por tu. Ganhara bons cobres a governar o «Portimão», um dos galeões a vapor de Júdice Fialho. Fundeado à frente da muralha da vila, o avô mandou-o fotografar com a companha de trinta e quatro homens a bordo. Ele à proa e o filhote com cinco anos, António José, a olhar meio assustadiço para terra. Era impossível sonhar que, muitas décadas depois, esta peça, o filho do meio do trio que António José e Laura Teresa conceberam, estivesse aqui a evocar o avô e o pai no meio da suestada que esticava o pavilhão do galeão para noroeste.

Apesar de ter casas na cidade, o avô não conseguia viver longe do mar. Nas veias corriam-lhe borbotões de água salgada, embora fosse de sangue quente. Na alma, maresias, ventania se festa rija que a vida não é só trabalho. Nas mãos agarrava com brandura, moreias, polvos, pargos, sargos, corvinas, salmonetes, toninas e mais o resto da fauna marítima que conhecia como ninguém.

Ao cimo da falésia estavam as duas fazendas que comprara, em 1923. E as suas casas e armazém, cisterna com complúvio para recolha da água dos telhados. Infinitas árvores de fruto, eira, pocilga, galinheiro. E um bebedouro, que afeiçoara na terra branda, para caçar a passarada miúda com uma rede velhaca.

Sim. O avô adorava passarinhos fritos. E o neto também. Só muito mais tarde é que começou a ter pena dos pardais e flosas, que ali vinham dessedentar-se. Depenados, penugem queimada, acabavam na frigideira da avó e no bucho de quem os comia.

Arguto, como velho lobo do mar que se prezava, ao avô nada lhe escapava. Quando lhe desapareceram algumas aves do galinheiro, armou uma estrangeirinha para descobrir o mistério.

Noite calada, amarrou um longo cordel, de mais de trinta metros, à porta do galinheiro. Atou a outra extremidade a uma das orelhas. Adormeceu como um justo.

A meio da noite, o cordel esticou. Acordou estremunhado. Sacou da caçadeira, a fiel amante que jazia encostada à cama. Correu esbaforido para o galinheiro. Avistou um vulto que sorrateiramente se afastava. Engatilhou a arma. Disparou uma surriada de tiros para o ar.

O Marinho do Vau, em pânico, desatou a correr como o louco da fama que tinha. Só parou dentro do casebre onde morava, quinhentos metros abaixo, junto à Praia do Vau. Tremia e abanava a cabeça sem cessar, com o defeito de nascença que o obrigou a levara vida a dizer que não.

Da falésia, o avô sondava o mar. Horas sem fim. Descobria-lhe manhas e segredos, entre ventos, correntezas e vagas largas de sul. Sabia tudo o que ninguém imaginava. Os barcos e peixes que por lá vogavam. Quase todos. Um a um. Afinava o olhar com uns pequenos binóculos de teatro, que sempre o acompanhavam. Devassava o horizonte. Nem os golfinhos desconfiavam.

Já tinha setenta anos quando me desinquietou para ir à pesca da lula. Ainda nem o buço me espigava. Fiquei em pulgas para a aventura, a menos de mil metros da costa. Eu era um lingrinhas, um pau de virar tripas, a pele encarvoiçada ao sol na praia das Mesas, também conhecida por praia do José Quaresma.

Lá fomos na lancha que estava a dormitar na areia seca, na Praia do Vau. Maré cheia. Noite cerrada. O avô carregava com o petromax, as fieiras de toneiras, sedelas, anzóis e demais apetrechos de pesca. A avó, coitada, não fôssemos morrer de fome, preparara-nos umas buchas.

Com golpes certeiros, à luz do petromax, sacudia as lulas brancas presas nos anzóis da toneira para o convés da lancha, que ficava encharcado do negro da tinta. Iriam acabar fritas em azeite e alho, com a sua tinta, na boca de muitos comensais, família, vizinhos, amigos. Os homens, de garrafão sobre o braço dobrado pelo cotovelo, as empurravam gorgomilo abaixo, abrindo as beiçolas tingidas de preto.

Finda a faina, madrugada alta, a maré vazara. O avô, com a força bruta do bruto, tentou voltar a pôr a lancha a seco. Parava amiúde a arfar. Os bofes pareciam sair-lhe pela boca. Conseguiu. Caiu exausto. Parecia inconsciente. Em pânico, eu não sabia o que fazer àquela mole humana inerte, ali estendida ao comprido. Um avô inerte não fazia o seu estilo.

De repente, um olho tremelicante começou a abrir. Depois o outro. Saltei de contente. Tinha o avô de volta! Heróis do mar, lulas da toneira, nobre povo, nação valente e imortal!…

Muitos sustos me pregou o avô. A maior parte deles, de brincadeira, com aquela sisudez, nada inocente, de quem não estava ali.

Muito mais novo, volta e meia, lembrava-se de ir pescar à linha para a Mesa, a rocha maior ali à frente das casas e da cisterna. Almoçava ali sozinho o peixe que apanhava. Na enchente, armava a trouxa, levava o fogareiro a carvão em brasa sobre a cabeça, mais o garrafão de cinco litros. Nadava até à Mesa, carregado que nem um cachalote. Ficávamos temerosos, em cima da falésia, a ver se o cachalote se afundava. Nunca.

Na maré baixa, descia a pé do seu reino minúsculo, a Mesa de três metros de diâmetro. E lá subia a falésia, carregado com a trouxa, o garrafão meio vazio e o peixe fresco que sobrara da comezaina solitária.

Para o fim da vida, foi custoso ver aquele gigante a fenecer, o corpo a derruir, a tristeza a embotar-lhe o olhar.

Era diabético. Foi-lhe amputada uma perna acima do joelho. Depois a outra. Logo a seguir à última intervenção cirúrgica, fui visitá-lo ao hospital, na lateral da Igreja do Colégio. Ainda vi passar um auxiliar de enfermagem com uma bandeja grande, tapada com um pano branco que escondia a perna amputada e deixava entrever os dedos do pé exangues.

Nunca mais me esqueci da terrível imagem. Minto. Esqueci-me uns meses depois, por um momento de imbecil e cruel criancice. Dela nunca me perdoarei.

Instei o meu irmão mais novo, de onze anos, a dar um piparote no cocuruto do avô que descansava no cadeirão da sala. O avô ainda reagiu de imediato. Ficou com toda a camisa rasgada na mão. O netinho atordoado, de tronco nu, a choramingar. E eu, com a superior autoridade moral de irmão mais velho – não devias ter feito isso!

O avô era bondoso. Acolhia, com dinheiro e víveres, parentes afastados, muitos, que viviam com dificuldades. Era por eles adorado. E por toda a gente que lhe conhecia as destemidas façanhas e a generosidade.

Fundou com uns amigos a Sociedade Vencedora Portimonense que vai fazer um século. Ofertou o piano que ainda lá se encontra. Pelos bailes de Carnaval, durante dias, desaparecia de casa. Só regressava na Quarta-feira de Cinzas. O início da Quaresma e o fim do devaneio do Quaresma. A avó não escondia o profundo desagrado, mas condescendia. Não tinha outro remédio. Domar um bruto em festa, uma impossibilidade.

O avô, a mim, ofertou-me muito. Confisquei-lhe outro tanto. Talvez sem o saber. O sentido de humor, tantas vezes inconveniente. O gosto pueril de pregar partidas. O prazer quase infantino pela festança e o convívio. O olhar para os amigos e a ficar logo com securas. E, longe da festa, a preocupação com os mais desvalidos, de qualquer da raça e credo.

Só não lhe fiquei com o destemor em sarrafuscas que enfrentava de peito aberto. Até por desacatos, durante uma greve do pessoal do Júdice Fialho, que o enjaularam na prisão. No mesmo lugar que seria o hospital dos seus derradeiros padecimentos.

Não se pode confiscar tudo a um Golias sisudo, a rir-se por dentro, mas compassivo com filhos, netos e muitos que tratava como se fossem da sua família.

Devo-lhe esta pequena evocação de quem me fez um pouco melhor. E silêncios recolhidos, muitos, em sua memória. Este é o meu avô. O meu querido avô. Peço-lhe perdão. Não se trata um bruto por querido.

 

 

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