Entrevista a António Guerreiro “No fundo escrevo para falar com os outros”

Há mais de 20 anos colaborador no Terra Ruiva, António Guerreiro reuniu 100 crónicas publicadas ao longo desse tempo e publicou “Crónicas em Pedra Grés”. São textos curtos, que partem da observação do autor a momentos do quotidiano, mas também nos trazem memórias do seu passado e aspirações para o futuro.

O livro tem estado a ser apresentado publicamente, em sessões que já decorreram na FNAC, na Guia, na Sociedade de Instrução e Recreio Messinense, em S. Bartolomeu de Messines e mais recentemente, no dia 6 de abril, na Biblioteca Municipal de Silves. Este foi o pretexto para falarmos com o autor que começou a escrever “talvez” porque sentisse “ a necessidade de ter uma voz”. Mais tarde dirá, “no fundo escrevo para falar com os outros”, num exercício de partilha que enriquece quem o desfruta. Em crónicas que também nos inquietam. E frequentemente desafiam.

 

 

O seu livro “Crónicas em Pedra Grés” foi lançado recentemente e tem estado a ser apresentado publicamente. Do que trata o livro?

O livro, como o nome indica, é um conjunto de cem crónicas, publicadas anteriormente no jornal Terra Ruiva, ao longo de vinte anos, que abordam um vasto conjunto de temáticas como infância e juventude, liberdade, cidade, educação, fotografia, cultura, sociedade, viagens e política. Mas, essencialmente, são reflexões para ler em dois, três minutos e fazer uma paragem nas rotinas diárias. Foi um gosto publicar este livro, que já existia na minha cabeça há alguns anos, para, de certa forma, ter um presente para todos aqueles que, de algum modo, são meus leitores.

Quando surgiu a vontade de escrever crónicas no Terra Ruiva? E por que o faz?

Inicialmente, a minha grande vontade talvez fosse a necessidade de ter uma voz. De partilhar com os outros algumas ideias e inquietudes. Já tinha escrito uma crónica para um jornal local, sobre a minha discordância com a data de três de setembro para dia da cidade. Na prática, nesse dia, comemora-se um massacre na cidade, neste caso com a transferência de poder entre duas formas de entender o mundo. Lembro-me que, curiosamente, a primeira crónica que escrevi para o jornal Terra Ruiva passava-se em Marraquexe, quase parece uma ligação com a anterior, mas foi uma casualidade. Depois ganhei gosto e foi, também, uma forma de aprender a escrever, aprender progressivamente a desenvolver uma ideia num curto espaço de caracteres. O meu compromisso tem sido cerca de uma página A4, que se lê em dois, três minutos. Porque o faço atualmente? Nem sei bem, apenas talvez porque acabo por encontrar uma ideia de que considero interessante a propósito de algum acontecimento, de alguma viagem, não necessariamente turística, de um filme.

No fundo escrevo para falar com os outros.

Em determinada altura diz que o livro foi escrito “para partilhar a inquietude, os meus pontos de vista, por acreditar que a ausência de comunicação é a principal forma de solidão”.  Costuma receber comentários aos seus textos?

A inquietude, inquietação, inquietação, como dizia o José Mário Branco. Eu acho que a inquietação ainda é mais revelante do que a comunicação, mas estou a desviar-me da sua pergunta. Comentários formais, nem tanto. Lembro-me de alguns, não muito simpáticos, quando defendi a supressão da estátua que glorifica a matança no Largo dos Mártires da Pátria. Andava tudo muito exaltado. Mas existem outros comentários orais de sentido contrário sobre vivências comuns, sobre lugares-comuns. Agora mesmo, algumas pessoas que já leram o livro de crónicas, referem que se identificaram com algumas, mais do que outras, naturalmente, devido a essa partilha de sensações, de vivências nos mesmos lugares, como Coimbra ou Silves. Depois existem algumas abordagens na cidade, de pessoas que referem uma ou outra publicação ou que genericamente partilham que leem as minhas crónicas com regularidade. Às vezes algumas abordagem são interessantes, porque inesperadas, por exemplo pessoas idosas que me parabenizam ou pessoas da minha geração que me dizem: Como é que te foste lembrar daquilo? Mas os comentários não são muito vulgares.

As crónicas são textos que exigem perícia, na observação do quotidiano e na sua transposição para textos curtos. Como chega às suas crónicas e quais os temas que aborda mais frequentemente?

Às vezes começo só com um título, outras vezes com uma ideia base. Depois começo por construir a estrutura do escrito, sempre só mentalmente, penso assim: primeiro vou falar disto, depois daquilo e remato com um último parágrafo ou uma frase, tipo síntese. É como planifico uma aula, muita das vezes também mental, primeiro proponho um tema, depois desenvolvo esse assunto, neste caso com os alunos, e por fim, sintetiza-se a aula. No fundo é o meu trabalho que me ensinou, também, a escrever estas crónicas. Sendo vítima das minhas vivências, os temas são, naturalmente, o quotidiano, desde logo a educação, há já algum tempo que acho que não abordo este tema. Outro tema são as viagens, mas também depende de viajar ou não. Estas não são necessariamente um roteiro turístico, pode ser uma viagem a Portimão, acho que nunca escrevi, mas é esse o conceito. Algo que encontrei para refletir e para inquietar.

A política surge, mas tenho sempre muito cuidado para não cair na tentação de ser politiqueiro.

É um exercício difícil, porque envolve, normalmente, um certo posicionamento político. Eu não tenho problemas em me posicionar politicamente, mas estas situações não são lineares, brancas ou pretas, tento sempre não cair na provocação da crítica pessoalizada. Outro tema, mais ou menos recorrente, são algumas questões que eu poderia catalogar como culturais, são o cinema, a literatura, não na lógica da critica cinematográfica ou literária, não tenho de todo conhecimento para isso, mas uma referência a um filme que vi, ou a um livro que li, ou um espetáculo de música, por exemplo, que assisti, são âncoras para depois falar sobre algum assunto do dia a dia, tentando incentivar os outros a interessarem-se por o referido livro, filme, músico. Existe ainda alguns lugares na cidade, mas não naquele sentido de roteiro turístico, nunca escrevi sobre o castelo ou a sé, mas já escrevi sobre um café ou uma barbearia, mas também sobre o museu de arqueologia, sobre a biblioteca. No caso da sé, de alguma forma, uma brincadeira que escrevi numa crónica natalícia sobre uma criança que não queria pintar o céu de verde, esse espaço estava implicitamente presente. Nestes espaços encontro-me com o presente e com o passado, o meu passado, não o passado em termos históricos.

Por isso, por vezes, questiono-me, se aquilo que escrevo é, de alguma forma, relevante para quem me lê?

Não sei, acho que não, até porque algumas vezes os comentários que me fazem não têm nada a ver com aquilo que eu tentei escrever e ainda bem, é isso que é a literatura, ao contrário dos textos académicos que devem ser tendencialmente rigorosos e de entendimento singular.

Além dos temas de que já falou, a cidade, a infância, Coimbra, há nas suas crónicas um espaço também para a crítica social e política, uma crítica que passa não só pelo combate às ideias predeterminadas, como aquele que fala “quando eu era criança, a minha mãe, a minha avó, a minha tia-avó acreditavam que sempre houve ricos e pobres e existiriam ricos e pobres para todo o sempre (e talvez tivessem razão) e que pior do que isso, tudo era consequência de um destino, de uma fatalidade, os filhos dos pobres, pobres seriam e de igual forma, os filhos dos ricos seriam igualmente ricos. Tudo era imutável e jamais seria diferente, jamais os pobres teriam a honraria devida a todos os seres humanos”, mas também pela crítica à pobreza cultural da cidade. Qual o papel da crítica na sua obra?

Uma pergunta difícil, como no outro dia a propósito de uma aula do terceiro ano de escolaridade que fui supervisionar em que eu questionava um grupo de alunos sobre a seguinte situação: se uma dada figura, quadrilátero, tinha cinco centímetros de comprimento e quatro centímetros de largura, podia ser um quadrado? E um aluno, de um outro grupo, observou: uma pergunta inteligente. Assim estou eu, aqui tenho uma pergunta desafiadora e longa. Este texto, retirado de uma crónica, remete-me para o vinte e cinco de abril de setenta e quatro, em que a minha tia-avó Belmira, que hoje teria mais de cento e vinte cinco anos, portanto, na altura, já teria setenta e tal anos, comentava com a minha mãe sobre a desgraça que ia ocorrer para as gentes jovens, os pequenos no seu dizer, e vindouras com a revolução. Foi esta memória que tentei escrever. Claro que é a negação desse pensamento da minha tia-avó, claro que sim. Eu considero que a minha vida atual existe, acima de tudo, em consequência do vinte e cinco de abril. Aquele abril que transformou de facto, não tanto a economia ou as diferenças sociais, mas as mentalidades, o acreditar em tempos novos. Não sei se a crítica social está presente nos meus escritos? Eu verdadeiramente acho que vivo numa bolha social da classe média, sem algumas daquelas práticas burguesas de envolvimento social e religioso. Nunca falei de pobres, verdadeiramente de pessoas que vivem abaixo do limiar da pobreza, elas existem no nosso concelho, mas eu não convivo com elas, não é arrogância, é um facto. A crítica cultural, acho que é diferente, mas o que eu critico não é tanto os eventos culturais, mas é mais a sua lógica organizativa e a divulgação dos mesmos. Voltemos ao início da entrevista, a comunicação, o que falha é a intenção cultural e a comunicação.

Contudo, acho que a aposta cultural na cidade, no concelho, deve ter uma visão estratégica com duas vertentes distintas, valorizar o local e dar a usufruir o global.

O que eu quero dizer com isto é que devemos dar valor aquilo que se faz localmente ou aqueles locais que tem potencialidades culturais, sem descurar a vivência local do melhor que se faz na região, no país, para não ser mais universalista.

No prefácio que escrevi, considerei que as suas crónicas são duplamente desafiadoras. Em primeiro lugar porque muitas vezes nos inquietam e nos obrigam a procurar nas entrelinhas… mas principalmente porque apelam à ação, à revolução. Estarei certa nesta análise?

À ação, à revolução, não acha que existe algum exagero nessa demanda. Algumas crónicas assumem uma ideia, diria eu, anarquista, no sentido da possibilidade de todos sermos iguais, não no sentido literal de igualdade, isso não existe, mas no sentido social de igualdade, de possibilidade de negociação entre iguais. Vou tentar explicar, eu adorava uma sociedade em que cada um de nós com as suas valências, com os seus méritos e suas capacidades, tivesse igualdade na negociação sobre o seu bem-estar. Imagine duas pessoas, em negociação, uma produz alfaces e outra produz conhecimento sobre as alfaces, o que eu idealizo que ambas estariam em igual direito de negociar o valor das alfaces e o valor do conhecimento sobre as alfaces, ou seja não existiria entendimento entre os dois de forma desequilibrada, isto é, nem o produtor de alfaces iria explorar o conhecedor sobre as alfaces, nem vice-versa. Esta seria a minha sociedade para todos, é neste sentido que eu imagino e defendo a anarquia. E é com este olhar que escrevo algumas das crónicas mais exaltado, mais provocador, mais, e porque não, anarquista. É neste sentido anarquista que escrevi algo como rios de gente que desaguam nas ruas e nas praças trazendo flores e raiva e canções antigas, num certo sentido, foram os dias iniciais de abril.

Passando para um registo mais pessoal, o António tem a sua formação académica em Matemática, uma área aparentemente inconciliável com a escrita. Como concilia uma e outra?

A minha matemática não é bem aquela linguagem cheia de hieróglifos que assusta o comum dos cidadãos. Claro que conheço a referida linguagem, mas o que eu quero dizer é que o meu trabalho é mais em educação matemática. Por exemplo, uma coisa é a pessoa ser um desportista de alta competição outra coisa é a pessoa conhecer o seu corpo, as suas valências e limitações para a prática desportiva. É neste sentido que eu falo em educação matemática, uma forma de educar matematicamente, que pode resultar ou não num matemático de alta competição, entre aspas claro. Se eu tivesse continuado como professor de matemática no ensino básico e secundário possivelmente teria uma abordagem diferente a propósito da matemática, mas a visão académica, neste sentido de educação, exige muito da escrita, nomeadamente de artigos de natureza científica, que são essencialmente escritos, que no fundo têm quase a mesma estrutura das minhas crónicas. No mestrado aprendi a escrever e defendi este grau académico em mil novecentos e noventa e oito. Os meus escritos, mais públicos, são posteriores a dois mil. No entanto, acho que estou sempre a aprender. Neste sentido, acho que o meu percurso académico também está ligado à escrita, de certa forma às crónicas.

Mas sempre gostei de escrever, desde adolescente, talvez uma forma de comunicar comigo. Acho que posso reformular uma das primeiras respostas, na prática acho que escrevo as crónicas para comunicar comigo. Não serão assim todos os escritores?

As Crónicas em Pedra Grés foram a sua primeira “aventura” literária, mas sei que está a preparar um outro trabalho, de âmbito bastante diferente. Quer adiantar alguma coisa?

Este ano, numa conjugação com o município de Silves, irá ser publicada uma obra, em estilo narrativo, quase com um pendor jornalístico, sobre os acontecimentos de 22 de junho de 1924, em que morreu um operário corticeiro. De alguma forma, é, da minha parte, um género de homenagem aos valores desses operários anarquistas.

É interessante imaginarmos as dificuldades materiais e de toda a espécie de uma classe operária numerosa, mal alimentada, a trabalhar muitas horas diárias, no meio do pó e dos fumos produzidos pelo manuseamento da cortiça, numa cidade miserável na alta intramuros, onde viviam os trabalhadores, e sofisticada na baixa extramuros, onde viviam os burgueses e os industriais, sem luz nem água canalizada.

Mas o livro não é sobre o fabrico corticeiro é sobre as greves de abril, maio e junho, as manifestações dos operários e a morte e os feridos de uma carga da guarda republicana.

 

Para um leitor interessado, onde pode adquirir as Crónicas em Pedra Grés?

Neste momento, existem exemplares disponíveis para entrega imediata na FNAC do Algarve Shopping, na Guia. Também pode ser encomendado em outras FNAC ou na Livraria Bertrand, para além da editora cordel de prata.

Esta entrevista será publicada na edição de abril, na qual o Terra Ruiva comemora o seu 24º aniversário e se assinalam os 50 anos do 25 de abril. Uma feliz coincidência?

Não é bem um coincidência, é mais o universo a conspirar, neste caso, a meu favor. Posso sorrir com esta questão. Claro que, para mim, é honroso, sair, como entrevistado, num número do jornal tão especial. Até porque considero o vinte e cinco de abril uma referência para mim, particularmente pela abertura que o mesmo veio possibilitar na minha vida.

Às vezes questiono-me sobre o meu percurso pessoal, e da sociedade, se o vinte cinco de abril não tivesse acontecido.

Não acredito que o regime fascista tivesse perdurado muito mais, até porque em Espanha o franquismo também terminou em setenta e cinco, mas o que aconteceria se a transição tivesse sido tipo espanhola, sem aquele dia inicial?

 

 

 

 

 

 

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