No condado das duas damas

Apesar da aparente pacatez nas terras do condado, com sua mui nobre cidade, de altivo Castelo e vetusta Sé, de belas e bem aparelhadas pedras grés, reinava algum descontentamento entre os habitantes do burgo.

É certo que hordas nórdicas de turistas aí aportavam, alguns descendo o Arade como os cruzados de 1189, não para guerrear, mas conquistados pelos seus monumentos, sol e boa comida, inundando esplanadas da baixa e subindo como imensa maré humana ruas acima até à sua parte alta.

O negócio corria. O turismo os restaurantes enchia, o comércio satisfazia com o ganho do dia. À noite a cidade morria.

Nestes anos da graça, de que novas vos dou, governava a dama vermelha, cuja corte e conselheiros tinha nas terras a leste e nos campos e coutadas de Messines o seu núcleo duro. Mas com forte e legítimo suporte popular no partido mais enraizado na cidade, o mesmo que um velho ditador outrora quis erradicar de tão vermelha que era esta terra de laboriosa gente operária.

Contudo, a indústria migrara e o presente século não vira singrar nova zona industrial. De um dos burgueses da terra, um dia ouvira, referindo-se à sua cidade natal: Silves, cidade do passado, vila do presente, aldeia do futuro. Triste dizer – pensou. Se verdade é que de tão docemente adormecida vila alentejana parecia, a recordação de quem a conhecia dificilmente tal destino permitia.

Terra da laranja, afamada pelos seus imensos laranjais, agora à míngua de água, em tempos idos por outra condessa tinha sido governado. A dama laranja. Não da fruta, mas da cor do partido. Senhora dominadora e influente no burgo, eleita pelo partido rival, dito interclassista, ou seja, para todas as classes, mas sem dúvida mais ligado à burguesia local e aos grandes interesses. Grandemente reinara, vistosa obra deixara, de parques a banhos municipais, até que os vigamentos de tão vigorosa mandança no oiro da corrupção desabaram. Então outras águas demandara em busca de fortuna mor na capital do reino.

O povo mais vida queria, mas no desânimo esmorecia. Até ao tempo do Bispo, que maldita praga rogara, as sandálias ao chão lançara, até aí por vezes a lamúria no tempo se estendia.

De grandes festas e eventos a gente não se queixaria, mas quando ao mercado acorria, mais frutas e legumes nas bancas gostaria. O peixe sempre mais povo atraía. Mas por todo o lado se ouvia que tão bela praça mais mercância pedia.

Alguns, mais abastados, em Armação, a segunda casa habitavam, da praia desfrutando. Outros, definitivamente, concelhos fronteiriços habitavam. Uns e outros ausentes de vivências diárias e vontades empreendedoras na terra mãe.

Se a alegria festivaleira acontecia o povo em massa a vivia, tanto os de cá como os de fora, pois gostosas papas de milho havia e a cerveja nas bocas escorria.

Mas moradores havia, de alma mais inquietos e memória mais profunda, que outras danças e teatros queriam e há muito já não viam. Porém, nem sala de espectáculos para tal haveria. E do definhar ledo e triste do antigo cineteatro silvense nenhuma das damas cuidaria. Os grandes entusiasmos das diferentes vereações eram os projetos de muitos milhões, quase sempre imobiliário$, especulação e golfe$construção, anunciados como uma espécie de salvação.

E o espelho do tempo, num simulacro refletido, confundia gestos e tiques de poder, vestes e cores diferentes nas damas reinantes, numa mesma duplicidade funcional, despojada de toda a maquilhagem ideológica, apenas certezas absolutas e leques pouco abertos ao ar e à mudança.

Reconhecido no reino dos Algarves pelo esplendor do seu passado, grandeza histórica, imensidão da sua comarca e das suas terras da serra ao mar, o condado perdera incremento e influência regional nos anos de que vos falo e ao Senhor agradeço poder testemunhar.

Cavaleiro da distância, por ambas renegado, o santo graal noutras terras tendo procurado, com o arauto se tendo cruzado, o cavaleiro no seu íntimo cismava se seria de voltar e a cidade conquistar ou definitivamente se afastar.

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