A minha doce laranja do Algarve

Estes pequenos e grandes lábios e o volumoso clitóris emergente agradeço-os ao meu amigo Manel, produtor de citrinos. Vinham à tona num pesado caixote a abarrotar de laranjas.

Esta, que me pôs em sentido, pesava 760 gramas. Cascarruda, como gosto. Quem não gosta de uma cascarruda que se acuse.

Agradeço, sobretudo, o que se escondia dentro da casca das laranjas. O doce, muito doce. Sorvo-lhes todos os dias os gomos, com um prazer quase pecaminoso. Vou até ao âmago. Dos beiços, os meus, escorre-me este precioso líquido – quase mel de flor de laranjeira de S. Bartolomeu de Messines – até ficar extasiado.

Não me entendam mal. Sou casado e bom chefe de família, salvo seja o bom. Não persigo lábios carnudos. A minha sexóloga, perdão, a minha lavradeira cá de casa já desativou tudo. Beiços, desejos por fruta de qualidade. E é tudo menos cascarruda. Juro.

A laranja, para mim, nunca foi um fruto proibido. Pelo contrário. Em casa dos meus avós e dos meus pais, nesta época, era sempre farta à mesa. Na idade em que ninguém desconfia – e muito antes de usar as cangalhas que escondem o olho de lince ibérico que tinha– o meu pai punha-me uns óculos que recortava com o seu canivete da casca de uma só laranja. O petiz ficava doce e amacacado. Com pior acuidade visual, mas bem perfumado.

O meu avô, Alberto d’ Oliveira, era comerciante de citrinos do Algarve. Exportava para todo o país. Arrendava pomares em vastas terras do Barlavento, de Messines a Lagos. Carreteava um enorme bando de homens e mulheres para a recolha. E também a mulher, a minha avó, jovem e parideira que, quando não desovava, ajudava na safra.

Dos oito filhos, a maior parte lá foi brotando em flor de laranjeira. A minha mãe, Laura, deu os primeiros guinchinhos em Vale de Lousas. Tinha muito orgulho em aqui ter arribado. Toda a vida se lambuzou com laranjas. Não estranhem a minha afeição pelo município de Silves.

O meu avô tinha uma estatura olímpica mínima. Era um taco de pia, inquieto e buliçoso. Franzino, ossudo, mal disfarçava o frenesim que a actividade lhe incutia no corpinho. Muito negócio apalavrado deu-lhe cómodos, terras de pomar nas Fontes da Matosa, casas e armazéns em Portimão.

Aquele olhinho vivo, muito azul, tinha capturado a minha avó. E salpicado os olhos da minha mãe que, por sua vez, borrou os meus da mesma cor. Mais ou menos.

O meu avô antecedeu de muitas décadas os grandes distribuidores de citrinos da actualidade que, juntamente com os produtores pequeninos e grandes, são os verdadeiros heróis da reanimação do sector primário no Algarve.

O avô nunca foi grande. Nem teve uma frota de camiões para levar laranjas, tangerinas e limões a todo o país e pela Europa fora. Tinha, isso sim, uma pequenina frota de carroças, tiradas por pachorrentas bestas de carga, mulas e machos. A distribuição era feita entre relinchos e poitas largadas pelo caminho. Sim, um animal de tiro nunca estaca para ir à retrete.

O seu filho varão, o meu tio José Alberto, era um dos cocheiros de serviço. Sempre a ler, uma mão no livro, a outra na arreata, a viagem fazia-se mais curta. A mula sabia de cor o caminho, da Penina até à praça de Portimão. Não esperava grandes instruções da arreata. O tio cansava a vista com o raio da letra miudinha. Não o canastro, com os baldões da estrada.

O avô só sossegava a fazer as contas, lápis numa mão e copinho de tinto na outra. Contas moderadamente alegres, de haver e dever. O dia seguinte não se comprazia com azias.

No fim da vida, não eram as laranjas que o saciavam. Bastava apenas um copinho de vinho para entrar no sétimo céu.

Ficava alegre, dengoso, novíssimo. A minha avó nem precisava de fugir. Coitado, há muito que não podia com uma gata pelo rabo.

E lá partiu para o último pomar de laranjeiras, o do paraíso, aos oitenta anos.

 

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