Velhice

A velhice faz-nos mais rugas no espírito do que na cara.

Montaigne

O tempo solta-se impiedosamente. A memória distrai-se da sua passagem. Queremos sempre regressar onde fomos, supostamente, felizes. Não cuidamos que a via, lenta ou rápida, tem um só sentido.

Desdenhamos a alegria escavada na pequena sabedoria dos anos.

Atentamos apenas nas marcas visíveis do corpo. Ou nos pequenos desacertos dos movimentos, quando ele começa a titubear, deslizando para o silêncio crepuscular.

Tentamos esquecer que o espelho nos empurra todos os dias para mais perto da morte, onde seremos trocados pelo olvido e ninguém nos visitará, por mágoa, ou apenas negação da saudade.

No entanto, podemos ser belos por instantes, ignorando o sénio dos dias. Por palavras trocadas no limite da ironia, sem azedume. Deixando fios de afecto, de amor, ou apenas de simpatia.

Esperando que toda a fome de universo, se estreite numa pessoa. Ou num sorriso, que se desvanece, porque sonhámos, na sua ausência, a ventura que não chegará.

Entretanto, podemos carregar, como novíssimas, as ideações impossíveis da vida eterna, porque novíssimos estaremos, enquanto nos for permitido sonhar, para além da clausura do quotidiano.

Nunca saberemos antecipadamente quando, lá longe, lá muito longe, estará a mais preclara das alegrias a visitar-nos na larga passagem para a luz do futuro, onde todos nos encontraremos inertes, na ausência dos que julgámos amados e amáveis.

Só sei hoje que vivia uma mentira persuadida quando me sugeriam que era belo na frescura caduca dos anos leves, pouco somados de razão e de lucidez. Apenas porque o corpo saía incólume de outros corpos ardidos por instantes em gritos que não eram de dor.

Por muito que nos custe, haverá vestígios de felicidade nas fissuras do rosto, nas cicatrizes do corpo, nas cesuras tardias das mãos do enlevo, ainda que a alma seja renitente em fazê-las suas.

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Um Comentário

  1. Muito lindo e realista.

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