Cristaleira

O mês de dezembro tem sido um momento de recomeços. Inimaginavelmente, muitos acontecimentos, relevantes na minha vida, ocorreram nos dias finais do ano, desde o começo dos tempos, como o meu nascimento. É como se antecipasse em alguns dias a vontade de recomeçar, própria do início dos anos vindouros. Mas este recomeço do tempo também resulta, por outro lado, num findar de outros projetos, com a conclusão de tarefas.

As memórias, associadas à reconstrução da moradia dos meus pais, neste mês, relembraram-me a história de um móvel da sala, uma cristaleira. A sua história (ou será estória) começa com o forte sismo de mil novecentos e sessenta e nove.

Nessa época vivíamos numa casa térrea, sem grandes comodidades, na principal rua da cidade, denominada de Dr. Oliveira Salazar, alegremente rebatizada de 25 de Abril. As ruas ou caminhos existem antes dos nomes e ao longo da história assumem diferentes designações. Este mesmo espaço urbano fora outrora designado por rua dos Soldados Portugueses Desconhecidos.

Regressemos à madrugada daquele último dia do mês de fevereiro. Uma pequena torre cimeira, alinhada com a entrada de uma casa senhorial, desmoronou, destruindo parte do telhado da nossa moradia. As grandes pedras apossaram-se do corredor, destruindo alguns bens, entre eles o meu triciclo (talvez um presente de Natal). O triciclo era baixinho com um selim de madeira e, naturalmente, com dois pequenos pedais, uma roda dianteira e duas rodas traseiras. Hoje, guardo a memória da sua forma, mas já não retenho os ecos das tristezas e das alegrias que o mesmo terá provocado em mim, nos dias soalheiros de inverno.

Durante as obras de reposição do telhado, vivemos em casa de gente amiga, sem qualquer apoio estatal. Mas, mais tarde, muito mais tarde, quem sabe se em dezembro, os meus pais receberam uma verba da autarquia de indemnização pelos estragos, pelo meu triciclo. Foi com parte desse dinheiro que foi adquirida a cristaleira, um móvel horizontal, envidraçado com duas gavetas e uma porta de madeira, numa das laterais, coroado por um espelho simetricamente recortado numa ligeira ondulação. Nunca possuiu cristais, mas vários copos de vidros e a louça do enxoval de minha mãe.

A cristaleira foi a nossa ascensão do proletariado à burguesia, depois vieram os eletrodomésticos. Contudo, os presentes de Natal continuaram a ser roupa nova e uma miscelânea de chocolates.

Festas Felizes.

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