Cuidados paliativos

Terminaram os dias de agosto e no coletivo dos habitantes do Algarve há assim como que um suspiro e um sentimento de que voltamos à nossa vidinha tranquila… Este suspiro, curiosamente, é partilhado por muitos dos que se sustentam do sector do turismo, empregados ou patrões.

Porque agosto é demais. Sim, em todos os sectores.

A questão é: e não seria possível evitar uma parte do caos que se instala na região?

Tomo como exemplo a questão do lixo. Foi de tal forma neste mês que obrigou várias autarquias, como Silves, Portimão e Albufeira, a tomarem uma posição pública criticando o serviço prestado pela Algar, empresa responsável pela recolha dos resíduos nos ecopontos. O que qualquer cidadão pode constatar é que essa recolha, já deficiente na maior parte do ano, deu mostras de total incapacidade durante o verão.

E a minha questão é: tendo os municípios (que pagam esse serviço, que não é barato) conhecimento da “invasão” a que região vai estar sujeita e sabendo dos constrangimentos da Algar, por que razão o problema não é avaliado e não são tomadas medidas adequadas a tempo?

O mesmo raciocínio se aplica à questão do lixo na vila de Armação de Pêra. Sujeita em julho e agosto a um aumento desmesurado da sua população, a incapacidade crónica que revela em resolver a situação do lixo é confrangedora. Mas, se já se sabe que este problema existe, por que razão passam os anos, as estações, os verões e não se notam melhorias?

Se as redes sociais fossem um barómetro da avaliação que os turistas fazem sobre o local onde passam férias, Armação de Pêra estaria “lixada”. Dois temas dominam todas as conversas e grupos: a beleza indiscutível da baía e a convicção de que é uma das terras com mais lixo que conhecem…

Infelizmente, quem  passear na avenida à beira mar, usufruindo de toda a beleza da baía, não poderá deixar de reparar nas exíguas papeleiras, poucas em quantidade e que não comportam praticamente nenhum lixo. A Junta de Freguesia tenta colmatar a questão com “cuidados paliativos”, pendurando sacos para o lixo, pretos e grandes, que em nada beneficiam a estética… e que, rompendo-se ainda pioram a situação… sendo que o epicentro da sujidade se concentra na zona do mini-golfe, zona de excelência para passeios e eventos…

Na minha opinião, é evidente que estas papeleiras foram um erro de conceção, que não foram pensadas para servir os milhares de pessoas que todos os dias percorrem a beira-mar, desde o hotel Holiday Inn à Praia dos Pescadores. E não consigo entender porque se persiste em mantê-las, se está à vista de todos que não servem a finalidade.

Não poderiam, a Junta de Freguesia e a Câmara Municipal de Silves pensar numa solução diferente, concebida de raiz e pensada para o espaço e suas particularidades?

Uma das grandes dificuldades em resolver o problema do lixo, principalmente nas zonas urbanas e turísticas, passa pela falta de civismo dos cidadãos, indiscutivelmente. Caixotes vazios e sacos de lixo no chão, monos abandonados em qualquer local, garrafões de água e caixas de cartão colocadas de qualquer jeito nos ecopontos… todos vemos estas situações… mas isso não deverá servir de argumento para as falhas do sistema de recolha e de limpeza por parte das autarquias. Se não têm os meios suficientes terão de empreender medidas extraordinárias para o período de verão. E se não o conseguem fazer pelos próprios meios terão de pensar noutras soluções. Não sei se não seria possível, por exemplo, a Junta de Armação, usar parte das verbas que recebe das concessões de praia que explora para reforçar o pessoal e os equipamentos? E se a Junta não tem capacidade para cumprir com a sua responsabilidade no domínio da limpeza urbana, não seria o momento da Câmara Municipal de Silves avaliar essa situação e intervir mais ativamente ou assumir essa competência?

Cuidados paliativos, como contratar mais um funcionário ou colocar mais uma papeleira, não vão ser suficientes para afastar esta imagem negativa do destino de sol e praia de excelência do concelho de Silves.

As estatísticas divulgadas pela associação hoteleira AHETA há poucos dias mostram que, por zonas geográficas, uma das maiores subidas do número de turistas, face a 2019, ocorreu em Armação de Pêra (+3,6pp). Mas, quase no mesmo dia ouvi num programa de grande audiência da RTP 1, o apresentador referir-se a Armação de Pêra para exemplificar um destino de férias de segunda categoria…

Estas são duas forças antagónicas que têm de ser estudadas e compreendidas. Não basta termos um território com grande potencial. E este está a ser desperdiçado, com uma imagem constante de lixo na rua e ruas sujas… é constrangedor… e triste…

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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