“Terras de Fogo” de Julião Quintinha apresentado em Silves

Numa tarde dedicada à vida e obra do jornalista e escritor Julião Quintinha, foi apresentada a reedição centenária do livro “Terras de Fogo” publicado em 1923.

No mesmo evento, precedeu o lançamento do livro a conferência “Julião Quintinha e o legendário Egipto antigo – todo um sonho convertido em realidade”, pelos historiadores e egiptólogos José das Candeias Sales e Susana Mota.

Por ocasião do centenário da descoberta do túmulo de Tutankhamon, José das Candeias Sales e Susana Mota, foram responsáveis pelo projeto de investigação “Tutankhamon em Portugal. Relatos na Imprensa Portuguesa (1922-1939)”, e, no âmbito das suas investigações sobre esta temática, puseram em relevo os importantes trabalhos jornalísticos e literários do silvense Julião Quintinha, designadamente na obra “Terras do Sol e da Febre” (1932), que dedica um fascinante capítulo ao Egipto e a Tutankhamon.

A conferência foi apresentada pela Doutora Luísa Martins, investigadora no Cidehus da Universidade de Évora e no projeto Diaita da Universidade de Coimbra.

A moderação coube ao Doutor João Baptista de Medeiros Vargens, da Universidade do Rio de Janeiro.

 

Terras de Fogo

“Terras de Fogo” é a segunda obra de Julião Quintinha reeditada por ocasião do centenário da sua primeira edição, pretendendo dar a conhecer as notáveis obras deste consagrado escritor algarvio, que se encontram esgotadas há várias décadas.

É editada pela Arandis Editora, em parceria com o Centro de Estudos Luso-Árabes de Silves (CELAS).

O historiador João Vasco Reis fez a apresentação da obra

A apresentação do livro foi feita por João Vasco Reis, com uma introdução que reproduzimos na íntegra:

« Em 1921, o insigne escritor silvense Julião Quintinha surpreendia e ofuscava as elites “intelecto-literárias” nacionais com a publicação de Vizinhos do Mar, livro de novelas “meridionais”, que mereceu as mais elogiosas referências da crítica especializada. A obra afirmou-se pelo talento e inexcedível ousadia do seu autor que, sulino e provinciano, se permitiu interferir no panorama da literatura da época.

Considerado, “contra tudo e contra todos”, pelo jornal República, como uma das «obras-primas da literatura do nosso tempo», o livro Vizinhos do Mar constituiu o reflexo de um todo poético que Julião Quintinha denominara de Alma Algarvia, e a publicação esgotou-se num ápice; a primeira edição de 1921; a segunda de 1923; a terceira e última de 1929.

No intuito de reabilitar e preservar o importante legado cultural de Julião Quintinha, a Associação de Estudos e Defesa do Património Histórico-Cultural do Concelho de Silves reeditou os Vizinhos do Mar em 2021, por ocasião do centenário da sua primeira edição[1].

Em 1923, confiante nas excelências das críticas, o autor arriscou publicar a segunda edição de Vizinhos do Mar e decidiu dar continuidade às suas novelas, surpreendendo com o lançamento de um segundo livro: Terra de Fogo, em que, das “histórias” do Algarve, passou às “histórias” do Alentejo. E, surpreendentemente, de uma penada, esgotou tudo o que publicou nesse ano: a segunda edição de Vizinhos do Mar e a singular novidade das Terras de Fogo.

Esse novo livro de novelas, embora chancelado pela Livraria Depositaria Portugal – Brasil, foi, inevitavelmente, uma edição de autor, assim registada e por ele custeada. A primeira edição – logo esgotada – consistiu, de facto, de três edições, ou seja, dividida por três “milhares” de exemplares. Não foi suficiente, perante tamanha procura. Passados dois anos, deu à estampa a segunda edição e, novamente, em três impressões sucessivas: 1.º milhar, 2.º milhar e 3. Milhar. Todas as edições esgotaram rapidamente. No entanto, e paradoxalmente, as Terras de Fogo nunca mais foram publicadas.

Coube, também agora, à Associação de Estudos e Defesa do Património Histórico-Cultural do Concelho de Silves dar à estampa esta edição centenária de Terras de Fogo, passados cem anos da sua primeira edição.

Sem nos perdermos em considerações repetidas acerca deste inquestionável legado literário de Julião Quintinha (que reportamos para o “riquíssimo” apêndice desta edição, de críticas e apreciações à obra aquando da sua primeira edição), sintetizamo-las nas palavras de Cromwell, que sublinhou, no Notícias de Evora, de 6 de Dezembro de 1923, que Terras de Fogo constituía «um verdadeiro hino á terra bemdita onde nascemos!». Por sua vez, rematava Augusto d’Ezaguy, na edição de 30 de Novembro do mesmo ano do jornal República: «As Terras de Fogo são o sucesso da nossa epoca literária». E isso, em síntese, diria tudo.

…Talvez dissesse tudo, mas acresce, por exemplo, referir, no que respeita ao alcance desta obra invulgar e inovadora, indubitavelmente identificativa do Alentejo, por “obra e arte” de um algarvio, silvense, artista das palavras, das emoções e dos sentimentos, que a sua novela Os Ciganos teve, previamente, publicação privilegiada na conceituada Revista Contemporanea, na sua edição de Janeiro-Março de 1923. Ora, aí estava o intruso, o provinciano “escrevinhador”, com a sua escrita devidamente estampada numa das publicações de referência dos pensadores do seu tempo, na mesma edição que incluía trabalhos da “nata” dos intelectuais e artistas da época, do nosso país e fora dele, como Henrique Vilhena, Columbano, José de Almada Negreiros e Fernando Pessoa, entre outros[2]. Curiosamente nessa edição, Pessoa publicava em língua francesa Trois Chansons Mortes, e Almada, em separata, A Scena do Odio. Entre eles, também figurava o belíssimo texto Os Ciganos, de Julião Quintinha.

A reedição, prometida e merecida, de Terras de Fogo está aqui, na íntegra, respeitando cuidadosamente a sequência que o autor lhe deu, a sua peculiar ortografia, revivendo e homenageando a “beleza” do seu pensamento criativo.

Merece, também uma palavra, o ilustrador “por excelência” de Julião Quintinha. O autor contou, em todos os seus trabalhos, com a inigualável arte do seu conterrâneo, silvense, Bernardo Marques.

Nesse sentido, além de se reproduzir a capa original de Terras de Fogo, entendeu-se, também, homenagear Bernardo Marques, com a inclusão de outros trabalhos seus referentes às terras alentejanas, incluindo o desenho publicado na referida Contemporanea, de 1923, que ilustrou superiormente a novela Os Ciganos, na mesma edição que contou com desenhos de Eduardo Vianna, Columbano, Vasquez Dias e Almada Negreiros.»

 

[2]Revista Contemporânea, Direcção de José Pacheco, Vol. III, nºs. 7-9. Lisboa: Imprensa Libano da Silva – Ed. Sociedade Edições Contemporânea, Janeiro-Março 1923.

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