Anda tudo à vontadinha

Limitados e até esmagados pelas circunstâncias do dia a dia, imersos em problemas de juros a subir, inflação, carências graves no Serviço Nacional de Saúde, na educação, nas forças policiais e militares e na justiça, esgotados pelos noticiários que se empenham, cada um mais do que o outro, em encontrar casos e casinhos que comprovem ao povo que a política perdeu credibilidade, somando tudo isto às crises pessoais de cada um, sobra pouca margem para pensarmos em problemas que consideramos frequentemente de segunda linha.

E no entanto… e no entanto… “as coisas” estão a acontecer, independentemente das nossas circunstâncias. Há poucos dias, a associação Zero, divulgando os estudos relativos à pegada ecológica de cada país, mostrou que, a 7 de maio, Portugal esgotou os recursos disponíveis para todo o ano. (A Pegada Ecológica avalia as necessidades humanas de recursos renováveis e serviços essenciais e compara-as com a capacidade da Terra para fornecer tais recursos e serviços).

Dito de uma forma muito direta, andamos por aqui a deixar um tal PegadÃO que, se cada pessoa no planeta vivesse como uma pessoa média portuguesa, seriam necessários 2,9 planetas para sustentar a Humanidade.

E no entanto… e no entanto, no que respeita às questões ambientais, andamos quase todos a fazer de conta que ainda não é para hoje.

Veja-se o caso da seca e da falta de água. Na verdade, “anda aí tudo à vontadinha”, com a água, como se não estivéssemos a viver sob recordes de temperaturas, com ondas de calor em abril (que de águas nada teve), e como se o país não estivesse em seca severa, em 80% do seu território. Particularmente atingida é a zona do Barlavento Algarvio, sim. Mas quem foi por nestes últimos feriados à praia viu o que se pode ver em todo o verão… Onde existem duches, bicas ou afins, é ver como a água desperdiçada corre pelo chão, ou como se lavam esplanadas e ruas sem qualquer cuidado, como se regam jardins… E este é apenas um exemplo…

No ano passado, a agricultura algarvia, incluindo a do concelho de Silves, sofreu cortes no abastecimento de água, as autarquias tomaram medidas preventivas e de poupança, e num golpe de sorte, bem mais do que premeditado, foi possível manter o abastecimento da rede pública. Mas, este ano, todos os indicadores apontam para uma situação mais complicada, até porque, como todos sabemos, tardam – e muito – as prometidas e anunciadas medidas de fundo… Os últimos estudos preveem não só a continuidade da seca no território português, e especialmente a Sul, como vão dizendo que nos próximos anos, em cada 10 haverá 7 de seca…

Este desleixo (?) ambiental repercute-se em muitas áreas. Num país tão cheio de sol, as estatísticas mostram que temos uma taxa extremamente baixa de utilização de painéis solares, na ordem dos 3%. O que significa que “97% das pessoas em Portugal que podem ter um painel solar em casa ainda não o têm”.

No citado estudo sobre a Pegada Ecológica (disponível para consulta no site da Zero), mostra-se que a nossa posição, tão desequilibrada, se deve fundamentalmente ao consumo de alimentos (consumimos cerca de 3 vezes mais proteína animal do que deveríamos) e à mobilidade (área em que o gosto bem português de levar o carro para todo o lado, idealmente até à porta, é agravado pela carência de transportes públicos). Por outro lado, o nosso modelo de consumo continua assente na ideia de “usar e deitar fora”, enquanto o ideal seria optar por ter menos mas de melhor qualidade, apostando no conceito de redução, reutilização, troca, compra em segunda mão… (A circularidade dos materiais em Portugal é de apenas 2,2%, quando a média comunitária está quase nos 13%).

Trazer para cima da mesa as questões ambientais e colocar-lhes um carimbo “URGENTE” não é fácil para decisores e cidadãos, quando tantas outras questões nos surgem como vitais para a nossa qualidade de vida. Mas teremos de o fazer, mais tarde ou mais cedo… Por agora, como se mostra, andamos ainda à vontadinha, mas já a viver de crédito. E esse, como sabemos, mais tarde ou mais cedo, esgota-se.

 

 

 

 

 

 

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