Desafios em tempo de crise

Portugal sofre de escassez de recursos humanos, mão-de-obra não-qualificada e qualificada em diversas áreas da atividade económica, do turismo e atividades afins até à construção civil e obras públicas.

Este último setor é considerado um motor ou barómetro do crescimento económico, que incorpora uma cadeia de valor muito extensa e gera efeito multiplicador significativo a montante e jusante, com fortes repercussões no emprego e no produto. A dureza do trabalho e as remunerações pouco atraentes são um dos fatores da escassez de mão-de-obra, que levam os trabalhadores portugueses a procurarem outros empregos e a saída da emigração, a par de outras razões como o défice demográfico, o insuficiente volume imigratório ou o próprio sistema de formação profissional, pouco robusto e exigente, desajustado das necessidades do mercado de trabalho e da economia nacional.

Para a realização das obras, obviamente, são necessários projetos técnicos. Também nesta esfera nos debatemos com problemas idênticos. No segmento das empresas/gabinetes técnicos, não existe uma resposta adequada às exigências do mercado. O seu universo é insuficiente. Genericamente, há dificuldades no cumprimento dos prazos contratados, e nem sempre a qualidade das soluções técnicas é a melhor.

Ora, esta realidade, é um desafio que o país, agentes económicos, empresas, governo e municípios, enfrentam, no preciso momento em que abundam colossais fundos europeus, que ultrapassam os 45 mil milhões de euros, quando é imperioso encerrar o Portugal 2020 (final de 2023), arrancar com o Portugal 2030, que vigora até 2029, e aplicar os fundos do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), apelidado popularmente de “bazuca”, com período de vigência até 2029. É na verdade um desafio que é vital para o desenvolvimento económico e social, oportunidade única, que coloca à prova as reais capacidades do país em termos de dinâmica, organização, planeamento, engenho e inteligência de pessoas e estruturas.

No plano local, é reconfortante saber que a autarquia silvense é uma das melhores, no acesso e aplicação dos fundos comunitários, afigurando-se esta condição, certamente, como uma das razões para os elevados níveis de investimento que se verifica em todo o concelho de Silves. A aprovação recente de três candidaturas no âmbito do PRR e do Plano Regional de Eficiência Hídrica, são disso um bom exemplo. Com o mérito de duas dessas candidaturas corresponderem a obra concluída e a autarquia ter já avançado com a submissão de outras candidaturas ao mesmo programa, apresentando projetos na sua maturação máxima, i.e., projetos de execução.

Contudo, não devemos nos iludir com a realidade. A complexa conjuntura económica, provocada pela guerra na Ucrânia e pelas sanções económicas, expressa em brutais aumentos de preços, escalada nas taxas de juro, redução da atividade económica, quebra nos rendimentos do trabalho e prenúncio de tempo de recessão, terá consequências a nível do Poder Local e do Município de Silves, em particular, por via de uma menor capacidade de investimento.

Todas as dificuldades mencionadas são agravadas com os incumprimentos financeiros do Governo para com os municípios e as consequências da imposição do chamado processo de descentralização de competências (Educação, Saúde, Ação Social …), vulgo transferência de encargos para as finanças públicas locais. Não resta outra alternativa ao Poder Local, senão, o aumento dos patamares de organização e planeamento, o acréscimo de eficácia e eficiência na gestão, a visão e ação estratégicas, maior rigor e precisão nas prioridades, não desistindo, porém, de ir o mais longe possível na satisfação das necessidades coletivas, em conjugação com prudência e contas equilibradas.

 

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