O último voo para o Cairo

Mehran Karimi Nasseri (1945-2022) merece esta pequena evocação no Dia Mundial da Tolerância.

Conheci-o sem nunca ter chegado à fala com ele. A Maria Alexandra sim, foi quase íntima, por um instante. Quase nada. Devemos-lhe uma noite de insónia menos penosa no Aeroporto Charles De Gaulle, de Paris. Só anos depois ficámos a saber quem era.

Conto tudo. Em 1989, estávamos no Terminal 1 do aeroporto, de regresso a Portugal. Eu tinha ido para uma reunião com o meu professor, Jean Delumeau, no Collège de France. Com a Júlia e o Rui, aproveitámos para passar uns dias à beira do Sena.

No regresso à pátria, o voo da Air Sul, uma manhosa e breve companhia de charters, deixou-nos apeados e angustiados. Impossível contactá-la. Adivinhámos que nunca antes do dia seguinte embarcaríamos.

A noite foi ensombrando-nos a alma. Os passageiros desapareciam a cada chamada para o embarque. Restava o último voo. Cairo. Nós os quatro desamparados e mais o último passageiro estendido à nossa frente, com a cabeça turbo-ressonante apoiada num saco de viagem.

À última chamada para o embarque, a Maria Alexandra viu tragédia. Um passageiro em trânsito que perdia o avião de regresso a casa.

Levanta-se aflita. Dirige-se ao senhor. Saca-o dos braços de Morfeu. Agita-o vigorosamente, em grita no seu perfeito inglês da Ria Formosa:

– SIR! SIR! YOUR LAST FLIGTH TO CAIRO!

E o infeliz, estremunhado, mal se aguentava de pé, balbuciava:

– BUT I’ AM NOT GOING TO CAIRO!

Na sua cabeça compassiva, Maria Alexandra não distingue um paquistanês de um senegalês. Considera-os todos seres humanos que merecem respeito e dignidade.

O senhor espojou-se, de novo. A coisa acalmou.

A Júlia continuou a desbravar os espaços públicos do terminal. O Rui e eu voltámos a tentar dormir sentados. A Maria Alexandra, mais desperta que uma rata dos esgotos de Paris, moía no ignoto país de origem do infeliz.  Afinal a sua boa acção não o tinha sido. Ficou triste e ensimesmada.

Só muitos anos depois, ficámos a saber quem era o senhor Nasseri. Foi Steven Spielberg quem nos revelou, embora o ignore. O seu filme «The Terminal» (2004), com Tom Hanks no protagonista, foi inspirado num dos escritos que Nasseri gatafunhava no terminal do aeroporto onde viveu dezoito anos como um sem-abrigo mal abrigado. Spielberg já tinha caminho desbravado no filme francês «Lost in Transit» (1994) e na ópera «Flight» (1998), criações que foram beber a história a Nasseri.

Nasseri nasceu em 1945 em Soleiman, uma parte do Irão ainda pertencente à coroa inglesa. Era filho de pai iraniano e mãe britânica. Foi estudar para Inglaterra em 1974. Regressou ao Irão e acabou preso por protestar contra o xá. Expulso do país sem ter direito a passaporte, pediu asilo político em vários países da Europa, mas foi rejeitado. O certificado de refugiado, atribuído pela ONU na Bélgica, terá sido roubado no metro de Paris. Quando finalmente, conseguiu autorização legal, foi hospitalizado, em 2006.

Era tratado pelos funcionários do aeroporto por Lord Alfred. Lia revistas, escrevia no seu diário, conversava com os passageiros, interessava-se por economia.

O terminal do aeroporto passou a ser a sua prisão e a sua liberdade. A longa permanência aqui debilitou-lhe a saúde mental. Morreu no sábado passado.

Tinha regressado, havia poucas semanas, ao aeroporto. Onde foi feliz. Ou nem tanto. E nunca voltou a ver o seu Irão.

A terra de Nasseri continua ajoelhada a uma feroz ditadura, como no tempo do Xá. A repressão contra jovens e mulheres prossegue impiedosa. A intolerância e a brutalidade são exportadas a bordo dos drones que são despejados pela Rússia sobre o povo da Ucrânia. Uma tentativa infame de tentar vergar pelo frio, sede e terror gente indefesa, como Nasseri que não fazia mal a uma mosca.

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