De um tempo presente

Para a minha filha Marta

De um tempo novo a crescer como esperança em ti e mais ameaçador do que nunca lá fora. Um planeta ameaçado, explorado nos seus recursos e beleza única, sem dó nem piedade. E uma guerra que parecendo longe nos bate à porta da consciência todos os dias. Sim, eu sei, há sempre aquelas explicações muito adultas e bem elaboradas da geoestratégia, da política internacional, das zonas de influência e dos interesses económicos Mas concordo contigo, filha, e para além da complexidade, há esse sentir justo, mais verdadeiro e jovem de quem não aceita e quer respostas imediatas.

Recordo da minha infância, os índios e cowboys, de como cedo percebi quem eram os maus. Nas produções de Hollywood, a visão maniqueísta e europeísta do homem branco, civilizador, chegado ao novo mundo, desbravando e explorando terras e minérios. Levando cultura e humanidade aos selvagens. E não sei bem porquê, criança, não acreditava nessa versão única do índio mau e violento e do índio bom que era aquele que aceitava a ocupação, a humilhação e o roubo das terras dos seus antepassados.

Esses mesmos índios das grandes pradarias da América do Norte, cavalgando livres como o vento, que aceitaram bem, de início, o homem branco, pois a terra era imensa e generosa, a perder de vista, para depois se verem atraiçoados. Acossados e massacrados, vítimas de genocídio, eles que foram os primeiros ecologistas na sua ligação íntima à natureza e ao espírito da Terra. Das palavras do chefe índio Seattle dirigidas ao presidente norte-americano, em 1854, Como podereis comprar ou vender o céu? Como podereis comprar ou vender o calor da terra? A ideia parece-nos estranha. Se a frescura do ar e o murmúrio da água não nos pertencem, como poderemos vendê-lo? à revolta de Greta Thunberg e dos jovens que iniciaram o movimento das greves climáticas vai um passo de gigante. São ingénuos, pois sejam, mas ao menos gritam o seu inconformismo e inquietação a quem governa e decide o destino do mundo.

Na invasão russa da Ucrânia, em pleno século XXI, quando já não queríamos acreditar na possibilidade destas usurpações e lógicas imperiais, a velha História escancara de novo a constante da guerra e do sofrimento dos povos. E de quem, tão impunemente, nos seus gabinetes, manda os soldados avançar e bombardear. Lembram-se da canção (Menina dos Olhos Tristes) do José Afonso o soldadinho não volta... Os ditadores, tão diferentes nas suas ideologias e tão iguais na sua lógica de pensar; do povo irmão eslavo e vizinho que se quer vergar à força ao Angola é terra portuguesa (Salazar) vai um imenso pedaço de História que o lado mais atávico e cínico dos poderosos deste mundo aproxima numa elipse do tempo. A Rússia de Putin e do seu governo não é um cão atiçado mas sim um cão raivoso que morde, indiscriminadamente, os seus e os outros e os aniquila cruelmente no isolamento, no frio e na morte.

            A História faz nos perder todas as ilusões. Mas não nos preocupemos apenas com o aumento do preço do gasóleo e as nossas reivindicações salariais…

Sabes o que é um sentido de vida?… é um campo aberto com a morte ao fundo e tu a correres, ignorando-a. Ou as luzes da cidade, desconhecida, cintilantes pontos de vida agora tristemente apagadas pelo inimigo, milhares de corações pulsando como um grande e único coração humano, tão longe e tão próximo, ecoando de Kiev a Portimão, de Lisboa ao Qatar, de Barcelona a Berlim.

 

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Um Comentário

  1. PRABENS PAULO, belas palavras e reflexões.
    QUESTÃO: O q podemos nós, idosos, fazer? Motor motivar os jovens para obter mudanças?
    Em 1968, em Paris começámos um movimento que fresultou nalguma melhora nos 70
    e piora nos 80. NA PRÁTICA, COMO E O QUE FAZER?

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