À conversa com Teresa Sousa Uva Paul, trineta de José Joaquim de Sousa Reis- o Remechido

A família «Remechido» tem vindo a alienar nos últimos anos o património urbano que ainda detém em São Bartolomeu de Messines, como recentemente aconteceu na rua 25 de Abril (números de polícia 14 a 18). A memória física de uma família que marcou a terra está a desaparecer com as novas gerações, hoje residentes nos grandes meios urbanos, nomeadamente Lisboa e Porto.

Nesta sequência, marcámos encontro com a Dr.ª Teresa Sousa Uva Paul, que conhecemos pessoalmente há alguns anos. Nascida em Faro em 1939, filha do Prof. José de Sousa Uva Júnior e de Maria Zulmira Remechido Mendes (bisneta do célebre guerrilheiro e de sua mulher Maria Clara), professora de História aposentada, residente em Lisboa, onde nos recebeu amavelmente.

 

Terra Ruiva (TR): Os seus avós foram praticamente a última geração da família que viveu em São Bartolomeu de Messines. Que memórias guarda deles?

Passava grande parte do verão em sua casa. O meu avô, João António Mendes, era natural de Beja, veio para Messines para trabalhar na empresa de Joaquim Tomé Remechido, que viria a ser seu cunhado. Apesar de o conhecer já inválido (a diabetes havia-lhe subtraído uma perna), andava de muletas, mas era muito dedicado ao trabalho. Não deixava de se deslocar à moagem e à casa de comércio anexa (cereais, mercearias, etc.), na rua João de Deus (edifício coroado com estatuetas), com o auxílio do empregado Salvador. Uma vez por semana deslocava-se também aos Campilhos, a maior propriedade rústica que detinha, acompanhando os negócios e actividade agrícola. Austero, mas de coração mole, sentava-se junto à porta no edifício onde residia, em frente ao mercado, na rua da Liberdade e eu fazia-lhe companhia numa cadeira baixinha. Eram momentos de tranquilidade e bom entendimento.

João António Mendes

A minha avó, Maria Emília, foi uma dona de casa muito activa. Na época havia o costume de os empregados terem direito a dormida e alimentação, os «caixeiros» que trabalhavam na parte comercial. A minha avó organizava as refeições para essas pessoas, além do governo da casa com uma família numerosa. Não conheci essa parte da sua vida, lembro-me dela já com alguma idade. Não era pessoa muito expansiva, mas contava algumas histórias, umas ligadas a Messines, outras ao imaginário popular, que, mais tarde, transmiti aos meus filhos e netos. Recebia visitas de muita gente, principalmente comadres que vinham da zona rural da freguesia.

TR: Nas conversas com a sua avó [nota: neta de Maria Clara e de José Joaquim de Sousa Reis, o Remechido] e tias avós, que memórias lhe foram transmitidas do seu antepassado Remechido?

Muito reduzidas. Era um tema pouco abordado. A minha mãe e as irmãs falavam, gostavam de usar o nome e de se manifestar contra as injustiças de que ele foi alvo. Mas propriamente a minha avó e tias avós não tocavam no assunto, podiam referir-se acidentalmente, mas não era um tema que gostassem de abordar.

José Joaquim de Sousa Reis – o Remechido

 

TR: Que memórias tem de S. B. de Messines na sua infância?

Em Messines adquiri muitos conhecimentos e só vim a perceber isso mais tarde, já na Faculdade de Letras. Num trabalho lá realizado para uma cadeira do professor Oliveira Marques, foi pedido que fizéssemos a interpretação de uma iluminura, uma cena agrícola e eu fiz a descrição com todo o rigor, de tal forma que o professor me questionou se eu era do campo e respondi negativamente [a infância passou-a em Faro, onde nasceu e o pai era professor na Escola Comercial]. Eram os conhecimentos adquiridos nas férias em Messines. Aprendi muito com um empregado, o Mário, que trabalhava no quintal com os machos, mulas e com os carros de tração. Ensinou-me as diferenças entre as árvores, as plantas, os seus nomes, os animais. Eu adquiri ali uma cultura rural que me foi útil. Mais tarde, o meu filho, quando era estudante de engenharia Florestal, tinha dúvidas e eu consegui ajudá-lo mesmo à distância, pois conhecia as hortícolas e compreendi que aqui em Lisboa a maioria das pessoas não tinha esses conhecimentos.

TR: Como era a aldeia nessa altura?

Era relativamente pequena, não tem comparação com o que é hoje. Lembro-me bem da praça de «pêxe», de ter sido demolida e construído o edifício que hoje lá está, semelhante a muitos outros no país [inaugurado em 1948]. Atrás do mercado municipal já era campo, e na direção da estação, quase em frente à casa do Dr. Contreiras, acabavam as casas contíguas, tanto de um lado como do outro. Mais à frente estava ainda, em meio quase rural, a casa do meu primo José Cândido Guerreiro e do Sr. Domingos Matias. Das traseiras da casa dos meus avós viam-se hortas. Junto às casas do Sr. Ramiro era o «Ribeiro». Na direção de Silves, havia a horta do Dr. Cabrita e campo, ainda que mais cultivado, com árvores. A nascente a aldeia terminava junto ao cemitério velho.

TR: Além das memórias urbanas, que outras recordações guarda?

Os Campilhos. O meu tio, o irmão mais novo de minha mãe, João Remechido Mendes, ficou com a propriedade e eu apreciava essa estadia campestre. Arranjou as casas dos caseiros, onde permanecíamos; passeava-se a certas horas, tomávamos banho no tanque.

TR: Nos Campilhos produz-se atualmente um vinho que tem ganho vários prémios, o «Barranco do Vale».

Não sabia. O meu avô só cultivava trigo. O meu tio empenhou-se em alterar a situação, queria fazer outro tipo de exploração e cultura, mas precisava de água. Fez imensas perfurações e nada conseguiu. A água era fundamental para alterar as culturas. Faleceu novo e a mulher e as filhas acabaram por vender a propriedade ao Sr. Ramiro. Lembranças da minha infância, nos Campilhos recordo os passeios de burro, as estradas eram quase intransitáveis

Em Messines, propriamente, fazia muitas digressões com a minha tia Maria Leonilde, sempre de manhã. Levantava-se muito cedo, que era o que me custava mais. Passeios que consistiam em: «dar a volta à estação», pela estrada por onde passavam os automóveis até à estação ferroviária e depois o regresso pelo túnel; «ir passar as portadas», à passagem de nível, em direção a Silves, não existia a estátua de João de Deus. Um pouco antes da cancela a minha tia ficava à conversa com o pai do Dr. Cabrita, o Sr. Domiguinhos, muito baixinho, junto à horta deste e depois íamos junto à linha, o que não era muito recomendável, até à estação propriamente dita.

Com a minha outra tia, Maria Emília, a mais nova, que pintava, também fiz alguns percursos, ajudava-a a levar a malinha das tintas, e íamos para outros sítios: a São Pedro, onde foi lá pintar a ermida, e também para a zona da estação, onde havia um monte com um moinho.

TR: Essas suas tias viviam na casa dos seus avós, em frente ao mercado, ou na Rua João de Deus, na casa da Poetisa?

Na casa dos meus avós. A minha tia Leonilde sempre, a Maria Emília até se casar. Na casa dita da poetisa, ou na casa ao lado, não tenho bem a certeza, vivia uma prima, a Júlia Maltesinho, creio que modista bastante apreciada em Faro, mas que depois as coisas mudaram e foi para Messines, acolher-se às tias velhas, que lhe cederam aquela casa e a ajudavam. As minhas duas tias, a Leonilde e a Aristotelina, herdaram a casa frente ao mercado.

TR: Como é ser descendente de uma figura histórica, como o Remechido, que ainda hoje alimenta ódios e paixões?

Às vezes traz aborrecimentos. Há quem não perceba que o tempo passou, que as coisas mudaram. O que é que a nossa situação atual tem que ver com o tempo da guerra civil? Nada! Ainda há pessoas que têm essas ideias enraizadas e por vezes tomam atitudes inesperadas e no fundo pouco inteligentes. Mas quando a ocasião se proporciona, eu digo que tenho esse antepassado e não me envergonho nada de o dizer, muito pelo contrário.

TR: É a família…

É a família, e acho que foi uma figura incompreendida. Um homem muito corajoso, culto e devoto, arrastado e atirado para a guerra, para uma situação que nunca desejou e a guerra traz situações complexas.

TR: Uma vez que essas memórias de família não lhe chegaram pela tradição oral, vai ser durante a idade adulta que vai aprofundar o conhecimento desta figura histórica?

Sim, depois fui estudando, dando atenção, comprando os livros que iam saindo. E procurando informar-me melhor.

TR: Em 1945 o Dr. Alberto Iria publicou um opúsculo, «As relíquias do Remechido», ia-lhe perguntar se ainda existem? 

As relíquias? As armas?

TR: Uma espada, um revolver, um cinto, um colete…

Sim, estão neste ramo da família. Na casa onde está a placa da rua Remechido viviam as minhas tias avós solteiras, Maria Amália e Maria do Rosário, que deixaram a maior parte dos bens à geração da minha mãe, privilegiando esses sobrinhos.

Eu conheci esses objetos nas mãos do meu tio João, ele teve contacto com o Dr. Alberto Iria. Quando foi a exposição de D. Miguel, aquando a sua transladação para Portugal em 1967, houve uma exposição no Museu de Arte Antiga, onde estiveram expostos. Depois permaneceram com a minha tia Maria Emília.

Umas joias que terão pertencido à Maria Clara também estão na posse da família. Conta-se que quando os soldados de Sá da Bandeira deitaram fogo à casa de Remechido, um criado tê-las-á salvo, entregando-as posteriormente à família.

Colete e cinto usados pelo guerrilheiro Remechido

TR: Presentemente têm vindo a alienar o património urbano em São Bartolomeu de Messines. O que pensa da criação de um centro interpretativo das Lutas Liberais na vila? 

Acho que seria interessante.

TR: Seria possível a família expor ali as ditas «relíquias»?

Não sei, já não tenho nada na minha posse. Há sempre o problema da segurança, mas garantida… Em Lagoa, em 2005, não foram cedidas porque tivemos receio que não ficassem seguras, fornecemos apenas umas fotografias.

TR: A sua geração é a última com ligação afetiva a São Bartolomeu de Messines. Aos seus filhos, netos e sobrinhos a terra não lhes dirá muito. O que representa para si Messines na atualidade?

Sempre considero que tenho ali uma raiz, embora eu praticamente já não conheça ninguém em Messines. Vou lá, mas nunca como uma terra estranha, vou ao jazigo e ao outro cemitério. Terei sempre uma ligação afetiva a Messines, não há dúvida que tenho. Os meus filhos têm, apesar de desligados, algum interesse na terra. Eles realmente nunca lá permaneceram…

TR: Ainda por cima fica longe do mar. Antes de terminar há algum outro aspeto que gostasse de referir?

Há pouco, quando disse que aprendi muito em Messines, faltou um aspecto, a parte do vocabulário. A Dr.ª Lídia Jorge tem divulgado muitas palavras quase desconhecidas e eu acho graça quando as leio e as reconheço. Durante algum tempo tive de corrigir a minha linguagem para não as utilizar nas aulas, mas depois tenho vindo a verificar que algumas são arcaísmos que persistiram, o «tem avonde» (já chega) e outras, são engraçadas, o «alavão» (muita gente), «dar de vaia», os «charazes». Enriqueci também o meu vocabulário com essas palavras que aprendi em Messines.

 

Entrevista de Aurélio Nuno Cabrita

 

 

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