Conto de Natal

Silves, dezembro 1972.

O senhor padre já se deslocara àquela moradia para averiguar da ausência aos deveres religiosos do mancebo de quase dez anos que andava na escola pública. A mãe da criança, ocupada com mais dois catraios e os afazeres profissionais e domésticos, não tinha qualquer objeção ao cumprimento de tais deveres, para além da hora matinal do evento domingueiro:

– A criança é pequena e gosta de dormir.

Naquela manhã, após algum esforço, a criança lá foi, sozinha, à missa e, em consequência, à catequese. A espaçosa igreja, em tempos sede de bispado, estava lotada, mas a criança sentia-se sozinha, esmagada pela liturgia. As pessoas sentavam-se, levantavam-se, falavam em coro, cantavam em coro, testemunhando que Ele estava no meio de nós. A criança, com o raciocínio matemático apurado, interrogava-se: «A ser verdade, Ele estaria no corredor central, entre a nona e a décima fila». Como a criança não enxergava ninguém de pé naquele lugar tinha a certeza de que Ele seria para todos, pelo menos para si, invisível.

Na catequese, as crianças partilhavam desejos sobre a época natalícia que se aproximava. Pequenas vontades de brinquedos e chocolates, colocados numa meia de lã. A catequista distribuíra pelos meninos e pelas meninas, separados em dois grupos, uma gravura do presépio para pintarem, o estábulo, a vaquinha e o burro, São José e a Nossa Senhora e o menino Jesus deitado nas palhinhas.

António queria pintar o céu de azul, tal como era para si, de um azul-claro brilhante. Os lápis azuis estavam todos distribuídos a outras crianças e a catequista incentivou-o a escolher uma outra cor. Relutante, decidiu pintar o céu de verde, como nunca tinha visto em parte alguma, de um verde-escuro. A catequista elogiou a opção da criança e ainda, perante a dificuldade na disponibilidade das cores mais solicitadas, disse:

– Podes pintar as palhinhas do menino Jesus de vermelho.

A criança relutante começou a pintar as palhinhas da manjedoura de vermelho. Desassossegada, com o desenho na mão, levantou-se e caminhou até à nona fila, e, lacrimejante, olhando para aNossa Senhora e para aquele senhor com um menino ao colo, disse:

–Meu Deus, eu não queria pintar o céu de verde nem as palhinhas de vermelho.

– Que bonito, uma aurora boreal. O céu do Pai Natal.

Olhou e não viu ninguém.

Boas festas a todos.

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