Laranjas de Silves e do Algarve, notas históricas (conclusão)

(conclusão)

A produção de laranjas no nosso País teve, no século XVII, uma significativa mudança com a introdução da laranja da China, mais doce e sumarenta do que as variedades agridoces, as chamadas laranjas bicais, de cultivo bastante difundido no séc. XVI.

Ao que parece, considerando as fontes históricas conhecidas, a introdução das laranjas da China em Portugal teve origem numa única laranjeira: D. Francisco de Mascarenhas trouxe a Lisboa, no ano de 1635, uma laranjeira que mandou vir da China a Goa e daí para o seu Jardim de Xabregas, onde a plantou (Duarte Ribeiro de Macedo, Obras Inéditas, Lisboa, 1817, citado por José Mendes Ferrão, Acerca da Introdução da Laranjeira Doce em Portugal, Lisboa, 1979); As laranjas da China trouxe a Goa D. Francisco Mascarenhas, sendo Governador de Macau na China e daí as trouxe a Portugal no ano de 1624. A laranjeira, donde todas procederam, que chamam a Eva, ainda neste ano de 1671 deu fruto na Quinta do Grilo para onde a transplantaram. (cf. Manuscrito de Manuel da Silva Tadim, 1764, citado por J. M. Ferrão, op. cit.)

Quer tivesse sido em 1624, ou em 1635, as fontes são concordantes na pessoa que trouxe essa primeira laranjeira da China, onde a plantou, e no facto de ser um só exemplar.

Vendedeira de laranjas, séc. XIX

Uma publicação recente (Anabela Ramos, Laranjas de Portugal, 2022, p. 35-40) demonstra, com diversa documentação que, em meados do séc. XVII, as laranjas da China já se difundiam por toda a Europa, a partir de Portugal, e era tal o entusiasmo com a nova planta que D. Pedro II determinou, por alvará de 30 de Janeiro de 1671, a proibição de se exportarem laranjeiras da China: Hei por bem e mando que se não embarque para fora destes meus portos laranjeiras algumas. A proibição régia não teve praticamente nenhum efeito e o sucesso das laranjas doces “portuguesas” foi tal que, em vários países, a palavra “laranja” passou a ter uma denominação próxima da palavra “Portugal” (exs.: Itália – portogallo, Grécia – portocalo, Albânia – portukalli, Bulgária – portocal, Túrquia – portacal).

A esse tempo, em algumas zonas do Algarve, desenvolvia-se a cultura da nova variedade de laranjeiras. Em 1671, temos notícia de que um mercador de Faro mandou para Antuérpia 400 laranjas da China, tendo pago de imposto 3 réis por cada uma (cf. Joaquim Romero de Magalhães, O Algarve Económico, 1988, p. 173).

Em Silves, também estaria presente o cultivo da laranjeira doce, a julgar por uma corografia, escrita em finais do séc. XVII e publicada em 1712 (Pe. Carvalho da Costa, Corografia Portuguesa (…), Tomo III, p. 5): É esta cidade cercada de fortes muros e banhada de um ameno rio, revestido de várias árvores frutíferas, especialmente de espinho, tão aprazível e deliciosa que parece um paraíso.

Sabemos também que nos anos de 1739, 1740, 1741 e 1757, seguiram de Faro para o Norte da Europa 70 milheiros de laranjas agras (azedas) e 550 milheiros de laranjas da China, em média (J. R. Magalhães, op. cit., p. 283).

As Informações Paroquiais de 1758, relativas a todas as freguesias do Algarve, referem a produção de laranjas em Faro, Boliqueime e Algoz. Desta última freguesia, do termo de Silves, informa o pároco: poucos pomares, frutas poucas, tem cinco hortas de regadio, com noras, todas dentro do lugar, só uma está no fim, dão hortaliça com abundância para a terra e também para os povos vizinhos, duas têm seus laranjais e várias frutas.

Embora alguns párocos não tenham mencionado a produção de laranjas nas suas freguesias, há notícias da mesma época que comprovam essa produção, casos de Moncarapacho (1759), Alte e Monchique (1774). Na sua viagem a Portugal, em 1797-1799, o naturalista alemão Hans Friedrich Link registou pomares de laranjeiras em Monchique e Faro.

Nas primeiras décadas do século XIX, exportavam-se laranjas do Algarve para a Holanda, havendo informação de no ano de 1819 terem seguido 408 caixas, um número apreciável, mas bastante inferior ao das exportações a partir de Lisboa e Setúbal (José Tavares de Macedo, A Cultura da Laranjeira em Portugal, 1854, p. 20).

Em 1841, João Baptista Silva Lopes (Corografia ou Memória Estatística (…) do Reino do Algarve) refere o avanço de figueirais, olivais e vinhas em terrenos onde houvera pomares de frutas de espinho e destaca a boa qualidade das laranjas de Silves e de Vila Real de Santo António. A excelência das laranjas algarvias levava a um acréscimo das exportações (p. 151): Frutas de espinho – Estas frutas são talvez (as de certos sítios), as mais preciosas do reino. Exportam-se, não poucas, em navios belgas, holandeses, franceses e ingleses. Entretanto, notava-se a dificuldade de escoamento das laranjas de Monchique (p. 249): As laranjas de Monchique carregadas por almocreves, 3 léguas de péssima estrada até Boina e daí a Portimão.

Vendedeira de laranjas- Roque Gameiro, 1897

Um inquérito, realizado em 1863, apresenta o Algarve como o maior produtor de laranjas e o concelho de Silves em 7º lugar, a seguir a Faro, Olhão Monchique, Loulé, Tavira, Castro Marim (citado por Aurélio Cabrita, Sul Informação, 18.Fev. 2018).

No ano de 1873, o Jornal de Horticultura Prática, vol. IV, fazia o ponto da situação da cultura da laranja: Em tempos não muito remotos, a exportação de laranja constituiu no Algarve um importantíssimo ramo do comércio. Sobreveio depois uma época de decadência e desânimo, devida à epifitia destruiu a maior parte dos nossos laranjais. Hoje felizmente pode dizer-se que o flagelo desapareceu (…); por isso esta importantíssima cultura tende a reanimar-se; já nos últimos anos tem tomado notável incremento. As plantações de novos laranjais vão-se multiplicando, e é de esperar que em breve possamos exceder as importantes exportações de outro tempo. Em todos os mercados da Europa, a laranja portuguesa tem sempre gozado justas preferências. [Em Portugal, é a zona algarvia a mais propícia à sua cultura. A não serem alguns frutos excepcionais, originários da América do Sul [p. ex. laranja da Baía], ainda não vimos laranja mais fina e primorosa do que a do Algarve, especialmente dos concelhos de Vila Real de Santo António, de Monchique e alguma dos subúrbios de Faro.

A publicação não refere Silves que, por seu turno, é mencionado, em 1876, por João Maria Baptista, (Corografia Moderna do Reino de Portugal, p. 564): Em Silves, frutas de espinho, especialmente laranja que é excelente. Todavia, a área de cultivo estava bastante reduzida, em 1891, segundo F. A. B. Weinholtz (cit. por Maria Carlos Radich, O Algarve Agrícola, 2007, p. 21): na Quinta de Mata-Mouros, Silves, milhares de laranjeiras tinham dado lugar a romeiras, uma cultura menos lucrativa. Refere que uns 50 anos antes, um hectare de laranjal rendia o suficiente para manter uma família agrícola.

No início do séc. XX, Joaquim da Silva Tavares (A Cultura da Laranjeira em Portugal, 1924) afirmava: os melhores laranjais são os de Faro e a melhor laranja da Baía é a do Algarve.

A história recente é conhecida. A cultura da laranjeira em regime extensivo só ocorreu a partir dos anos 60-80. Apuraram-se as variedades de melhor qualidade e adequado calendário de produção (p. ex. Navel e Valência Late). Actualmente, mais de 80% da produção nacional é algarvia (cerca de 380 mil toneladas). No concelho de Silves, em particular nas freguesias de S. Bartolomeu de Messines, Alcantarilha, Algoz e Silves, produz-se 60% da laranja do Algarve e é justa e naturalmente considerada a “Capital da Laranja”.

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