Comunidade piscatória de Armação de Pêra – documentário mostra pescadores e a sua vida

“ Um Olhar Entre Redes” é o título do documentário que recentemente foi exibido nas freguesias do concelho de Silves. O tema é a comunidade piscatória de Armação de Pêra e suscitou bastante interesse pelos locais onde o documentário passou.

Qual a realidade desta comunidade, como é a sua vida e o desafio que enfrenta a sua continuidade são questões que passam por este “olhar”.

O Terra Ruiva ouviu a realizadora Ana Medeira.

 

Como surgiu a ideia para fazer este documentário?

Perto do ano de 2008, conheci a Tânia Oliveira que na época era a presidente da Associação dos Pescadores de Armação de Pêra. Em diversas ocasiões, convidou-me a fazer parte das suas iniciativas de carácter cultural sobre os pescadores de Armação. Na altura não se proporcionou essa minha colaboração, no entanto, graças às nossas conversas, fui tomando conhecimento das várias questões que preocupavam a comunidade, nomeadamente os desafios que enfrentava para manter a sua existência. Isto foi sem dúvida o que me fez despertar para este tema. Depois, no decorrer dos anos fui falando com mais pescadores e todos sublinhavam o facto da comunidade piscatória local estar a ficar envelhecida, sem jovens interessados em trabalhar na pesca.

Não me esqueci destas conversas e em 2018 achei que devia realizar um documentário sobre o tema, mostrando a realidade desta pequena comunidade e a importância da sua manutenção. Convidei a Fulvia Almeida, que é jornalista e uma grande amiga, para, juntas, trabalharmos no projeto e convidei, igualmente, o fotógrafo Pedro Noel da Luz, que é um amigo e grande profissional, para ele fazer um levantamento fotográfico, que seria mostrado conjuntamente com o documentário no verão de 2020. Devido à pandemia esta ideia teve de ser adiada, pois todos os apoios que tínhamos acordado caíram e deixamos de ter condições para fazer avançar com a estreia do trabalho.

Ana Medeira

 

Qual a vossa ligação a Armação de Pêra e a esta comunidade?

Eu sou realizadora independente e trabalho como freelancer, normalmente por encomenda, mas este trabalho foi um desejo pessoal. A minha ligação à vila é grande e genuína. Não nasci aqui, sou Alentejana, do concelho de Castro Verde, mas sempre passei férias em Armação de Pêra e desde 2007 que vivo aqui. Não tenho ligação familiar à comunidade piscatória, são meus vizinhos e conterrâneos e ao longo dos anos fui conhecendo-os melhor e criando laços.

Quando foi feito o documentário?

Comecei a recolher imagens em 2016, mas a maior parte do que gravei é de 2019, 20, 21 e 22. Estes foram os anos durante os quais me dediquei a ir à praia, quando tinha tempo, para recolher imagens. De uma forma muito informal, tentava captar o ambiente da Praia dos Pescadores, que cada dia era distinto e concreto,  apanhando momentos e situações inusitadas. Quase todas as entrevistas que fiz, ou que fizemos, não foram marcadas, encontrava as pessoas por acaso, explicava-lhes o que estava ali a fazer e convidava-as para uma conversa gravada, para uma entrevista. Algumas diziam não, mas quase todas aceitavam participar. Foi rara a entrevista em que fui propositadamente procurar alguém específico. Os casos em que isso aconteceu foram poucos. Um deles foi a Dona Ana Gonçalves, pois faltavam testemunhos femininos e, daí, decidi procurar uma senhora, esposa de um pescador. A ideia era que ela nos desse a visão das mulheres. Além disso, procurei ativamente um jovem pescador, neste caso encontrei o André  Ribeiro, já que o documentário por várias vezes menciona o risco da comunidade estar a desaparecer e achei que fazia sentido ter um jovem que nos mostrasse a sua perspetiva. E também convidei o Rui Prudêncio, que é historiador e filho da terra e de um pescador, o senhor Bonifácio Prudêncio. O Rui Prudêncio pareceu-me a pessoa certa para falar do passado e para fazer a ligação da comunidade às origens da vila. Foi essencial, pois falou-nos igualmente sobre as artes de pesca e outros temas que o documentário aborda.

Depois desta experiência, como vê a comunidade piscatória de Armação, quais os seus principais problemas e caminhos para o futuro?

O bom de fazer um trabalho desta natureza é justamente o que se fica a saber e as pessoas que, durante o processo, conhecemos. Depois de ter ouvido todos estes testemunhos, sem dúvida que a minha opinião sobre o tema é agora mais fundamentada e mais próxima da realidade.

Acho que a comunidade piscatória, tal como existe atualmente, dificilmente poderá prolongar-se no tempo, por muitos mais anos, pois como atividade enfrenta vários obstáculos que parecem ser pouco atrativos para os jovens. Se houver vontade política para mudar algumas das circunstâncias da atividade, tais como: melhorar os apoios de praia, a qualificação do pescado, como oriundo de zona protegida (e desse modo contribuir para a valorização do pescado), a lota voltar a funcionar,  permitir a venda direta ao consumidor final, agilizar a burocracia para novas embarcações, e por fim se o Estado permitisse aumentar a frota destinada à pesca, talvez os jovens se sentissem mais atraídos.

Não obstante, é importante realçar que a pesca, mesmo nas condições em que é feita atualmente, parece continuar a ser rentável, especialmente devido ao preço alto do pescado e à perseverança e domínio das artes, por parte dos pescadores que fazem desta a sua profissão há anos. Já os mais novos, pela falta de experiência, talvez não tenham a vida facilitada para viver da pesca.

A estreia do documentário foi em Armação de Pêra

O documentário foi exibido em várias freguesias do concelho de Silves, qual a receção que teve e que comentários/impressões recolheu desse processo?

Fizemos um ciclo de exibições pelo concelho de Silves, e pareceu-nos bastante positiva a receção do público, por várias ocasiões recebemos os parabéns e ouvimos comentários animadores, tais como:

“ Fiquei a gostar mais de Armação de Pêra…”, “ Não sabia que havia isto aqui ao lado…;, “ Fiquei com vontade de ir ver os pescadores”; “… até me custou segurar as lágrimas”; “Não sabia que os pescadores correm o risco de desaparecer…”; “Fez-me lembrar muitas memórias, muitas coisas que vivi na praia”;“Está muito natural, muito autêntico”;“ O seu documentário é uma pedrada no charco” ;“Trata-se de um inquestionável e valioso contributo para a divulgação e perpetuação das memórias coletivas dos Armacenenses”…

Tais considerações, fazem-nos pensar que este trabalho foi feito na altura certa, e teve alcance suficiente para levantar o debate sobre o tema.

Em face das reações que o seu trabalho recolheu, que importância atribui a este “Um olhar entre redes”?

A importância deste documentário é sem dúvida a urgência do tema que trata, o momento tão delicado que a pesca tradicional vive, o caso da praia de Armação de Pêra que pode perder um património que depois dificilmente se poderá recuperar. Quando as pessoas desaparecem, os conhecimentos e as suas partilhas também. Não fazer nada, pode levar ao desaparecimento desta atividade que por muitos anos deu trabalho e sustento a uma boa parte dos habitantes da vila. Talvez muitas pessoas não estejam conscientes desta situação e acredito que este documentário pode trazer um contributo para despertar as consciências.

No entanto, o mundo está a mudar muito rápido, está a haver grandes transformações sociais, não só em Portugal mas em todo o lado,  pode acontecer que a pesca não desapareça, pois o turismo em Armação é uma atividade que pode ser muito afetada com os novos acontecimentos. A crise que se avizinha, nos próximos anos, pode levar a que muitas pessoas, ao verem-se sem trabalho, olhem para a pesca como uma possível forma de sustento.

Para quem não teve oportunidade de assistir,  o documentário será colocado online  ou ainda o poderá ver nalgum local?

A Junta de Freguesia de Armação de Pêra, contactou-me no sentido de agendar uma exibição no seu auditório. Ainda não temos data, mas brevemente haverá uma sessão. O documentário por agora não está disponível para visualização livre nas redes sociais, mas no futuro talvez esteja.

Que apoios tiveram para a realização do documentário?

O documentário contou com o financiamento do programa Garantir Cultura do Ministério da Cultura, da Direção Regional da Cultura do Algarve e da Câmara Municipal de Silves. A Associação das Terras e das Gentes da Dieta Mediterrânica, foi uma parceira na administração e na produção executiva.

A Associação dos Pescadores de Armação de Pêra, desde a primeira hora que a contactamos, mostrou total disponibilidade em participar e divulgar o projeto entre a comunidade piscatória.

Na fase de divulgação/ exibição tivemos o apoio logístico da Câmara Municipal de Silves, da Junta de Freguesia de Armação de Pêra, da Junta de Freguesia de São Bartolomeu de Messines, do Cine Algarve, da União de Freguesias de Alcantarilha e Pêra, do Centro Pastoral de Pera, da Associação dos Pescadores de Armação de Pêra e da Junta de Freguesia de Silves.

E por último, mas de igual modo importante, o documentário teve o apoio de muitas pessoas que participaram com os seus testemunhos e de outras que contribuíram para que este trabalho se realizasse. A todas estou profundamente agradecida, tendo por elas o meu maior apreço.

Veja Também

O céu de fevereiro de 2023

Neste mês de fevereiro de 2023, a anoitecer dá-nos um espetáculo planetário – virados a …

Um Comentário

  1. * * ARMAÇÃO DE PÊRA * *

    ** EU : CIDADÃO PORTUGUÊS **
    Emídio Nunes

    ** NATURAL DO CONCELHO DE CALDAS DA RAINHA **

    ** CIDADE DA RAINHA D.LEONOR **
    (( Distrito de Leiria ))

    ** RESIDENTE ANUAL NESTA VILA NATAL **
    (( Desde 2009 ))
    * * QUE ME APAIXONEI PELA MESMA **

    ** AO QUAL FOI UMA OPÇÃO :
    — POR UMA MELHOR QUALIDADE DE VIDA **

    ** TRABALHO E DEDICAÇÃO DE EXCELÊNCIA COMPROVADA **
    ****************

    ** A MINHA AVALIAÇÃO SOBRE ESTE TRABALHO **

    * * É DE EXCELÊNCIA PROFISSIONAL E MUITÍSSIMO MÉRITO PESSOAL **

    ** REALIZADORA TOP dos TOP **
    ************************

    * * SOBRE AS SUAS CAPACIDADES E DEDICAÇÃO A ESTA POPULAÇÃO **

    ** É DE UMA MENINA COM MUITO AFECTO **

    * * SOBRECA CLASSE PISCATÓRIA **

    ** É DE UMA MENINA PRODÍGIO COM DEDICAÇÃO INVEJÁVEL EM APOIAR OS MAIS NECESSITADOS **
    (( Esta Menina Prodígio é Uma Dádiva de Deus ))

    ** RESUMIDAMENTE DIGO !-**

    ** ESTA MENINA PRODÍGIO REALIZADORA **

    TEM TODAS AS SUAS CAPACIDADES E QUALIDADES
    INVEJÁVEIS
    (( Tanto Pessoal Como Profissional ))

    ** COM AS SUAS CAPACIDADES E QUALIDADES **
    (( Sou Um Dis Seus Admiradores Atento ))

    ** PESSOALMENTE CONHECI ESTA MENINA PRODIGIO
    REALIZADORA DE EXCELÊNCIA **

    ** NAS SUAS INTERVENÇÕES COM OS PESCADORES **

    * BEM HAJA E MUITOS SUCESSOS PARA A SUA VIDA *
    (( Pessoal, Familiar e Profissional ))

    * * * * * SAÚDE * * * * *

    ** LHE FICO MUITO GRATO **

    Emídio Nunes

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.