E o que era a Rua da Sé, em Silves, antes de ser a Rua da Sé?

Hoje é conhecida como a Rua da Sé, em Silves. Mas as descobertas arqueológicas revelam a sua história ao longo dos tempos. Começando pelo tempo em que não era uma rua…

A história da Rua da Sé é o tema da exposição inaugurada no dia 18 de maio, Dia Internacional dos Museus, no Museu Municipal de Arqueologia de Silves e que estará patente até ao final do ano.

A apresentação foi feita por Maria José Gonçalves, diretora do Museu, que explicou que a exposição “ Oh minha rua da Sé” pretende “partilhar com a comunidade os resultados das escavações” que têm sido feitas ao longo de duas décadas, em diferentes momentos, porque não é suficiente fazê-lo com a comunidade científica, “mas também com a população, dar a conhecer a história com cerca de mil anos”.

Também a vice-presidente da Câmara Municipal de Silves, Luísa Conduto Luís, concordou com a importância de mostrar à população as descobertas feitas durante as obras, em particular aos próprios habitantes da atual Rua da Sé, os mais afetados durante os cerca de dois anos que demoraram as obras no Centro Histórico da cidade.  “As obras cansam e há sempre transtornos e é bom que hoje possam ver o que aqui existia e compreender o que se estava a passar”.

Maria José Gonçalves e Luísa Luís abriram a exposição

 

Foi Maria José Gonçalves quem orientou os presentes na interpretação da figura que representa a Rua da Sé e indica todos os locais e conteúdos das descobertas, começando num enterramento do final do século XI início do século XII, o que “levanta uma série de questões”, disse, porque os enterramentos se faziam na época islâmica afastados das povoações e este encontra-se no interior das muralhas.

O percurso, rua acima, desvendou a existência de fossas com resíduos domésticos, um silo para armazenamento de cereais, um cenário de guerra com esqueletos de animais em articulação e de uma criança, um poço comunitário, mais enterramentos à volta da Sé, estes da época cristã, com cerca de 80 esqueletos, uma cisterna islâmica e desemboca no segundo “mistério” da Rua da Sé. Ao cimo da rua foram encontradas várias estruturas, duas delas com dimensões bastante numerosas, que levam a pensar na existência de um grande edifício público. Poderá ser a mesquita principal da cidade? – interroga Maria José Gonçalves, para logo acrescentar que esta descoberta poderá dar resposta à velha questão sobre a localização da mesquita principal de Silves. Mas, sublinha, é “apenas uma proposta inicial”, que terá de ser estudada e confirmada.

Além desta espécie de “história ilustrada”, a exposição apresenta ainda várias vitrines com materiais arqueológicos de várias épocas que aqui se agrupam “por função”.

A representação da Rua da Sé

 

 

A Rua da Sé…

A Rua da Sé, caminho que liga a Porta da Cidade ao Castelo, nem sempre foi uma rua. Neste espaço, com menos de 5m de largura e cerca de 200m de comprimento, acumulam-se múltiplas vivências ao longo de mais de mil anos.

O subsolo desta área mostrou-nos que quando a cidade era dominada por muçulmanos, a sua parte sul foi utilizada como espaço de enterramentos e que, dali até ao seu topo, se ergueram habitações com diferentes tipologias. Nesse tempo, a rua da Sé não era uma rua!

Quando a cidade foi conquistada pelos cristãos (c.1248) operaram-se profundas alterações urbanísticas na antiga Xilb islâmica tendo a monarquia, entre a 2ª metade do século XIII e a 1ª metade do século XIV, ditado a construção da monumental porta que acede a uma nova rua, que leva o caminhante até à igreja em construção e à velha alcáçova transformada em castelo. É a rua Direita!

Em Silves, como na maioria das urbes medievais, traçam-se vias que ligam as cidades de um extremo ao outro e que se assumem como elemento viário estruturador e como principal via de circulação. São o coração das cidades e o seu centro comercial. Estas ruas designadas nos documentos medievais como rua Direita mostram-se por vezes algo sinuosas e delas derivam as ruas travessas (secundárias).

Em Silves, documentos medievos de que é exemplo o “Livro do Almoxarifado de Silves” (1474) descreve bem a Rua Direita da cidade numa época em que aqui se viviam tempos menos bons. Na mesma localizam-se várias tendas (lojas), a Casa da Aduana (onde se cobram as dizimas dos produtos vindos de fora do reino), a casa onde se cobram as sisas (imposto sobre bens imobiliários) e a casa onde se vendia o sal do Rei, mas também muitos pardieiros (casas devolutas e/ou em ruínas).

Nesta altura Silves era sede de bispado e a Sé Catedral já havia tomado o lugar à velha mesquita muçulmana impondo-se na encosta onde a cidade se implanta. Terá sido a sua presença que, já no dealbar da modernidade, dá novo nome à nossa rua, que passa a designar-se por Rua da Sé. Ao seu redor, dispunha-se um dos cemitérios da cidade tendo a nossa rua voltado a ser palco de morte. Na verdade, tal como em todos os lugares da Terra, a vida e a morte sempre estiveram presentes neste espaço.

 

A mesquita da cidade

 

Ao longo dos tempos foi-se defendendo a localização da mesquita maior da cidade sob a Sé Catedral. Tal pressuposto não era desprovido de senso se pensarmos que, nas cidades milenares e com sucessivas ocupações, há tendência para se manter a sacralidade dos lugares reutilizando ou sobrepondo os edifícios religiosos.

Ainda assim, uma certa corrente de investigação com trabalhos arqueológicos sistemáticos na cidade de Silves foi, ao longo das décadas, defendendo a localização da mesquita noutros pontos da alta da cidade.

Após a década de 2000 foram muitos os trabalhos arqueológicos realizados na parte alta sem que vestígios da mesquita fossem colocados a descoberto, o que nos continuava a remeter para a possibilidade de a mesma se encontrar totalmente sob a igreja cristã.

Em 2019, no decurso da intervenção arqueológica numa área limitada a este pela torre sineira da Sé e a norte pela escadaria de acesso, a esse monumento, colocou-se a descoberto, um significativo conjunto de estruturas de alvenaria construídas com “grés de Silves”, cuja implantação topográfica e estratigráfica desde logo denunciaram ser anteriores à construção daquele edifício religioso. Tratava-se de muros com cerca de 1,2 m de espessura que, dada a sua robustez, só poderiam integrar um edifício público de grande envergadura. Estas estruturas têm continuidade para debaixo da Sé Catedral não sendo possível colocá-las totalmente visíveis. Ainda assim, a localização e características destas evidências arqueológicas, às quais se associavam fragmentos cerâmicos da época islâmica, deixam pouca margem para dúvidas sobre a natureza religiosa destes restos de edifício, que permitem agora, com alguma veemência, afirmar que a mesquita de Silves foi, finalmente encontrada.

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