Regulação emocional e autoconsciência

Algo que surgiu como mera hipótese de trabalho em questões mentais – o reconhecimento das emoções inconscientes como motivação primária do comportamento – tem captado cada vez mais a atenção de diferentes áreas das ciências humanas.
Todos temos mecanismos de defesa e em muitos aspetos da vida são necessários, mas, será que a sua presença pode comprometer a nossa saúde mental?

As emoções não podem ser evitadas. Quando falamos de emoções, falamos de um conjunto de respostas químicas, que têm como base as memórias emocionais construídas a partir do surgimento de caminhos neuronais, gerados ainda na vida uterina. Durante a vida uterina, o bebé sente as emoções dos seus pais, especialmente da mãe, e mesmo sem entender de forma consciente, inicia um processo de significação das emoções compartilhadas nesse período. Quando nasce, a criança traz já uma carga emocional, as emoções básicas. Ao longo da vida, a partir das experiências, vão sendo desenvolvidas formas de lidar e interagir com as emoções.

As emoções acontecem, ampliam e diluem-se, funcionando como um guia do nosso comportamento e das nossas aprendizagens. Por esta razão, é tão importante conhecê-las e entrar em contato com elas. Ignorá-las ou tentar eliminá-las sem as compreender, não vai ajudar no desenvolvimento da capacidade de regulação emocional. Todas as emoções são importante e cumprem um papel na nossa existência, por isso não as devemos separar entre boas e más. Elas podem ser vividas de forma mais ou menos intensa, mas tanto o excesso como a escassez, significam que algum trabalho interno necessita ser realizado. As emoções são um produto da evolução que nos ajudaram a proteger de perigos e a aproveitar as oportunidades de desenvolvimento.

Se as emoções primárias não poderem ser expressas em segurança (devido ao contexto ou à sua intensidade), a ansiedade e o mal-estar, associado à sua expressão neurobiológica, surgem. Como forma de defesa, desligamo-nos das emoções, o que gera um crescendo de sentimentos inibitórios: ansiedade, culpa ou vergonha.

Estes sentimentos inibitórios têm impacto no corpo, sendo alguns dos seus efeitos bem conhecidos: peso no peito, coração apertado, insónias, problemas de pele, nó na garganta, entre outros. Face aos mesmos, recorremos a mecanismos de defesa para evitar sentir as emoções que habitualmente classificamos como negativas, sendo que para alguns“vale tudo” para as não sentir. Um bom exemplo deste “vale tudo” são os comportamentos aditivos (álcool, drogas, alimentação, trabalhar demais, prática excessiva de exercício físico, entre outros), racionalização, sarcasmo, cinismo, falar demais, não falar ou evitar falar sobre assuntos sensíveis, não saber dizer que não ou a tudo dizer não.
Estes mecanismos de defesa psicológicos inconscientes, são formas de adaptação do indivíduo ao ambiente circundante. Em certos momentos a supressão emocional é importante, mas converte-se num problema quando esse modo de resposta se generaliza a todas as interações com o exterior, passando a ser um modo de estar na vida. Todos em algum momento sentimos raiva, mas viver constantemente com raiva requer um trabalho interno mais aprofundado, pois estaremos a ultrapassar a linha do saudável. O mesmo acontece quando nunca se demonstra este tipo de emoções. Os mecanismos de defesas funcionam como escudos protetores, mas podem também funcionar como limitadores do crescimento e desenvolvimento pessoal.

O conceito de regulação emocional tem um papel central no funcionamento psicológico saudável, uma vez que todas as emoções são necessárias. A regulação emocional é o processo pelo qual os indivíduos moldam as emoções que têm, quando as têm e a forma como experienciam essas emoções e as expressam.
A autoconsciência, conhecendo o que nos motiva e o que nos limita, é o melhor caminho para alcançar a regulação emocional, permite uma melhor relação com o próprio e com os outros, e abre caminho para um processo de desenvolvimento pessoal.

Ter capacidade de identificar e diferenciar as emoções, perceber a sua função e ponderar sobre elas, são competências essenciais para o individuo, para uma compreensão e regulação emocional adequadas
 (Barett&Gross, 2001, cit inVaz,2009)

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