O Menino

Nasci uma semana antes do menino.

Nasci na baixa comercial da cidade de Silves, numa segunda-feira ao final da tarde, já noite, ainda a tempo da interrupção letiva. Dias pequenos, noites longas. As ruas iluminadas com decorações em filigranas concedem brilho às noites e festividade aos dias. O frio, que sempre chega, aconselha ao reforço de mais uma mantinha no aconchego da pequena criança. O catraio chora, ri e é amamentado por sua mãe, na companhia de sua tia. Ainda não tem idade para desejar um brinquedo, um carro de bombeiros, um livro de histórias, um perfume. Ainda não acredita nas dádivas do mês de dezembro.

Tudo contribui para o recolhimento ao domicílio na companhia de todos os outros, neste dia de solstício de inverno. A programação televisiva é reforçada com filmes nas tardes para toda a família. As pessoas percorrem as lojas em busca de oferendas para familiares e amigos e decoram a sua própria casa com pinheiros, luzes, anjos e outras figuras terrestes, presépios com laranjas e pequenas searas de trigo, cevada, milho, centeio ou alpista. Os presentes são matutados ao longo do ano ou inspirações do momento, já no estabelecimento comercial.

São mãos e corações que embalam os presentes, que acompanham os enfermos e os recém-nascidos de suas mães e de seus pais, que trabalham para garantir os cozinhados e os doces dispostos sobre a mesa de jantar, que dão música e comédia à tarde televisiva numa sala de hospital. A presença da televisão é uma constante nestes dias frios de pausa escolar.

Estrelas de cinco pontas, bolas coloridas, fitas e luzes ornamentam o pinheiro. E os chocolates, prateados com cores, bolas, pinhas, peixes, renas e o velhote, embelezam a árvore à espera do menino. O sapatinho junto à árvore adivinha uma longa noite e uma curta manhã. A criança dorme, já tem uma semana. Um dos pequenos sapatos repousa junto à cama à espera das novidades trazidas pelo seu parceiro. Um saquinho de chocolates de diferentes formatos embrulhados em pratas coloridas em que não falta a pequena sombrinha para os dias de chuva.

O menino nasceu e a criança, de todos os anos, foi espreitar o sapatinho.

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