O desassoreamento do Rio Arade em 2022?

A história de Silves encontra-se ligada umbilicalmente ao rio Arade. Este constituiu ao longo dos séculos a via privilegiada de acesso à velha capital algarvia, naquilo que poderíamos hoje classificar de o TGV de antanho.

Como primordial via de comunicação, o seu assoreamento determinou, desde cedo, uma forte decadência da cidade. Em 1442 tinha apenas 271 fogos, num máximo umas 1000 pessoas. Nas palavras de Garcia Domingues, no seu «Guia Turístico da Cidade e do Concelho»: «a cidade despovoava-se. Vivia pobremente, e o paludismo resultante do assoreamento do rio causava muitas vítimas». O mais elevado centro de cultura do Garbe português, no tempo dos árabes, para continuar a citar aquele autor, era agora uma pequena vila, de ares doentios.

Nos séculos seguintes a ruína e o despovoamento não cessaram. É certo que nestes períodos também houve épocas de algum vigor, todavia por breves trechos. Os clérigos, que desde o século XIII abandonavam Silves na época estival, devido ao calor e à insalubridade do lugar, viram a sede episcopal transferida para Faro em 1577. Cerca de 130 anos depois, em 1705, compunham a cidade 40 habitações, das quais metade foram destruídas em 1755, quando mais um violento sismo estremeceu a região.

Baptista Lopes escrevia, em 1844, na sua «Relação da derrota naval, façanhas, e sucessos dos cruzados que partirão do Escalda para a Terra Santa no anno de 1189», sobre Silves: «Hoje em dia apenas contêm 70 fogos dentro dos muros, 170 fóra delles com 1:092 habitantes em toda a freguezia!!! Corte dos Reis Mouros, cidade mais opulenta e rica do que Lisboa, residência de Bispos, e seu Cabido, dos Fronteiros-mor, e principaes authoridades do Algarve, é hoje em dia menos que huma aldeia em riqueza, população, e edifícios !!!».

Vinte anos antes, as Cortes consideravam o desassoreamento do rio Arade como uma prioridade nacional. Este não se fez, todavia, a cidade conheceria um incremento de construções a partir de meados do século XIX, advindas do surto da indústria corticeira. É certo que em 1839 já existiam fábricas em Silves, contudo, é após 1870 que a cidade assume a sua feição industrial. Por esses anos encontravam-se aí famílias de todas as partes da região, atraídas pelo trabalho certo e constante, proporcionado por aquela indústria, de tal forma que não existiam casas para alugar.

O rio é primordial no escoamento da cortiça feito em barcas até Portimão, função que manterá até meados dos anos de 1950, quando aquela indústria quase desaparece. Entretanto, a rodovia ganha primazia sobre todos os transportes, e Silves e o Algarve despertam para o turismo de massas. O turismo, motor da economia regional há mais de 50 anos e a beleza fluvial do curso do rio não esmorecem os silvenses, que continuam a acalentar o desassoreamento do seu rio até hoje. Há algumas décadas ocorreu mesmo uma intervenção entre a velha ponte e a nova, que as cheias logo trataram de assorear. Entretanto desenvolveram-se projetos, aliás como sucedera em 1822, nunca concretizados.

Mas em 2022 fará sentido desassorear o rio? Desaparecida há muito a insalubridade e perdida a função de via de comunicação, qual a sua importância para os silvenses na atualidade? Apenas para o transporte de turistas?

Hoje é premente a diversificação da economia regional, para além do turismo, a que se adicionam as modificações climáticas. Estas últimas vão-nos trazer, entre outros aspetos, intensa precipitação em curtos intervalos temporais e o regime torrencial dos rios do sul vai ser incrementado. Ora ao retirar-se as areias do leito do rio entre Portimão e Silves, não se vai evitar o transporte dos sedimentos localizados entre a barragem do Arade e a cidade, que inevitavelmente serão depositados no curso desassoreado. Em poucos anos, após milhões de euros dispendidos, o rio poderá ficar semelhante ao que conhecemos. A desflorestação da serra não permite a retenção dos solos nem das águas. Uma problemática antiquíssima e ultimamente potenciada pelos incêndios.

Face ao exposto acreditamos que o desassoreamento do rio teria sido profícuo para Silves e para o Algarve, essencialmente do ponto de vista turístico, se se tivesse concretizado até à década de 1990. Atualmente, mais de 30 anos depois, é um erro. Não podemos projetar o futuro com se vivêssemos ainda no passado. Impõe-se adaptar o concelho à nova realidade, seja na necessária diversificação da economia, seja no combate às alterações climáticas, num terrível mundo novo que nos roubou a tranquilidade climática, agrícola e económica que conhecíamos. Ignorar estas premissas é atraiçoar o futuro. A cidade e o concelho carecem de grandes investimentos (criação de emprego, acessibilidades, infraestruturas físicas e digitais, tecnologias de ponta, reflorestação da serra) e é para eles que esses fundos devem ser canalizados. O desassoreamento do rio Arade para fins turísticos é pois inoportuno e uma falácia.

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