A COP26

Ouvimos, por estes dias, falar na COP26 ou 26ª Conferência das Partes. Reúne países, organizações não governamentais e cientistas, entre outros, para definir metas que minimizem os impactos humanos no clima, e decorre em Glasgow, na Escócia. Trata-se um tabuleiro político e diplomático, no qual se joga o nosso futuro comum.
Devemos olhar de modo crítico para as ações dos líderes mundiais mais do que para as suas palavras. Serão, por estes dias, produzidos belíssimos e inspirados exemplos de oratória, mas não correspondem a políticas concretas e eficazes que ataquem o problema, visto que a situação continua a deteriorar-se. Podemos estar quase a atingir danos irreversíveis, com feedbacks positivos que tornem a situação imparável. Esse ponto atinge-se se não conseguirmos manter a temperatura da Terra com um aumento inferior a 1.5ºC até ao fim do século relativamente ao período pré-industrial.

Não estou otimista, confesso. E tenho bons motivos para isso. Passaram 25 conferências como esta e a concentração de dióxido de carbono na atmosfera continua a aumentar. Tivemos uma pandemia, durante a qual houve uma pequena diminuição das emissões de dióxido de carbono, mas voltamos depressa a níveis de emissões comparáveis aos pré-pandémicos.
E porque é que isso importa? Porque o dióxido de carbono é um gás causador de efeito de estufa. Quando a radiação do Sol atinge a Terra alguma é absorvida, outra é refletida de volta para o espaço. O dióxido de carbono age como o plástico de uma estufa, impedindo a radiação de ser refletida, aumentando a temperatura. A solução para este problema é fazer com que exista menos concentração de dióxido de carbono na atmosfera, ou seja retirar o “plástico” da estufa.

O mais importante objetivo para limitar as alterações climáticas é o de atingir a neutralidade carbónica até 2050, ou seja, capturar a mesma quantidade de carbono que é emitido. Este objetivo implica imensas alterações no nosso modo de vida, nas políticas públicas. A energia elétrica obtida à base da queima de combustíveis fósseis, tem de ser gradualmente substituída por outras fontes, não poluentes e renováveis. Os carros com motores de combustão têm de ser substituídos por carros elétricos. Estas medidas contribuem para a neutralidade carbónica reduzindo as emissões de carbono. Por outro lado, temos de retirar carbono da atmosfera, permitindo que se acumule sob a forma de floresta. Um dos “ingredientes” principais das árvores (e dos seres vivos em geral) é o carbono. Ao aumentar a área de floresta aumentamos o volume de carbono que está nas árvores. Está nas árvores, não está na atmosfera.

No entanto, as medidas que estão propostas até agora levariam a um aumento de temperatura de 2.9 ºC até ao fim do século, se comparados com as temperaturas de períodos pré-industriais. Compromissos adicionais, anunciados pelos diversos governos, reduziriam mais 0.5ºC. Até agora 131 países anunciaram compromissos de emissões neutras. Se esses compromissos fossem cumpridos a temperatura aumentaria até ao fim do século 2ºC. O que ainda é muito, visto que os objetivos definidos em Paris em 2015 apontam para um aumento não superior a 1.5ºC. Infelizmente a Índia, um dos maiores responsáveis pelas emissões anunciou já que só atingirá a neutralidade carbónica em 2070, o que é 20 anos mais tarde.

Os países têm correspondido a esta emergência? Não, de acordo com o Climate Action Tracker, um grupo de cientistas e outros peritos que avaliam os compromissos dos governos de cerca de 40 países. Desses, 29 têm compromissos considerados “criticamente insuficientes” a “insuficientes”.

Entre estes estão alguns dos maiores poluidores, como a Rússia, Brasil, Índia, Estados Unidos e União Europeia. Sete países têm políticas “quase suficientes” (dos quais só o Reino Unido pertence ao grupo dos países industrializados), são compatíveis com a meta de 2ºC. Unicamente a Gâmbia apresenta políticas compatíveis com a manutenção da subida média de temperatura abaixo dos 1.5ºC.

Queremos mesmo ser a espécie que destrói as condições ideais para a sua sobrevivência? Não se trata de salvar a vida na Terra. A vida já superou crises mais dramáticas. Trata-se de salvar esta vida: as espécies que conhecemos e a nossa.

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