Pelo direito à saúde – Concelho sem médicos

O dia do protesto organizado pela Comissão de Utentes do Serviço Nacional de Saúde, à porta da Extensão de Saúde de São Bartolomeu de Messines foi escolhido com critério.
Após o feriado no dia anterior, o dia 2 de novembro é, para estes efeitos, o primeiro dia do mês. O que significa um aglomerado de dezenas de pessoas em frente à porta. A razão é simples: quem quer consulta tem de ir para a porta no primeiro dia de cada mês. Com sorte conseguirá consulta para esse mês. Se não conseguir, o que acontece frequentemente, terá de voltar no mês seguinte – na madrugada do primeiro dia de cada mês.

Má sorte tem quem vê a sua saúde dependente destas unidades de cuidados básicos. Má sorte ser pobre, dizem uns, má sorte ser velho, dizem outros. Não é má sorte, são opções políticas o facto de haver dinheiro para tantas coisas e os centros de saúde estarem nesta miséria, dizem os oradores neste protesto. Dizendo melhor, em mais este protesto, que muitos têm sido os promovidos em Messines nos últimos anos.

As exigências deste protesto também se repetem. Mais médicos, mais consultas, mais pessoal no atendimento, alargamento do horário de funcionamento.

À porta da Extensão do Centro de Saúde os presentes escutam as palavras de revolta da presidente da Junta de Freguesia, Carla Benedito que reclama da ausência de respostas por parte do ACES-Barlavento, a quem manda emails a que ninguém responde. E escutam Bruno Luz, da Comissão de Utentes, que se indigna em nome das pessoas que fazem mais de 30 quilómetros para marcar uma consulta, porque não há marcação de consultas por telefone, e muitas vezes têm de repetir a viagem, ou que esperam 4 ou 5 horas na esperança de uma consulta do dia que também não é certa e frequentemente não acontece. O vereador da Câmara Municipal de Silves, Tiago Raposo, fala da preocupação que a autarquia sente com a sua população e recorda que a Câmara tem um apartamento alugado que disponibiliza aos médicos, como forma de incentivo a fixá-los neste concelho. Mas sem conseguir disputá-los ao que chama “grupos privados da doença”.

Presente também o deputado do PCP no Parlamento Europeu, João Pimenta, que quer deixar uma “palavra de solidariedade” e critica o desinvestimento no Serviço Nacional de Saúde, ao mesmo tempo que “40% do Orçamento Nacional de Saúde serve para alimentar o sistema privado de saúde”.

Todos temos direito à saúde, por igual, repetem os oradores e há acenos concordantes nos que ouvem. Entre eles também o vereador do PSD, Luís Guia, residente em SB Messines e Marco Jóia, membro da Assembleia Municipal de Silves, da CDU. Há quem se queixe espontaneamente dos telefones que ninguém atende, dos dois meses que esperam para uma consulta, mais dois meses para vir mostrar as análises, dos caminhos entre a serra que têm de percorrer…

Bruno Luz lança um apelo, para que as populações não deixem de reivindicar “o que é seu por direito” e reafirma que “ o dinheiro público tem de ser investido em todos”. Exijam, reclamem, incentiva a presidente Carla Benedito, em última nota antes do final do protesto. É o momento dos que não estão doentes ou a precisar de consulta partirem para os seus afazeres que a manhã ainda vai curta, o protesto estava marcado para as 9 horas….

À porta da Extensão de Saúde de SB Messines continuam dezenas de pessoas. É o primeiro dia do mês. Dia de marcar consultas para todo o mês. Dia de levantar muito cedo. Dia de esperar horas à porta onde há um cartaz a avisar que só entra uma pessoa de cada vez. Dia de fila, empurrões e confusão. Com sorte a maioria irá conseguir o que pretende. Mas não os que vierem no dia seguinte. “Já não há consultas para este mês”, ouvirão. Ouvirão e não entenderão.

Em 2018, quando o Terra Ruiva fez uma reportagem semelhante, segundo os dados fornecidos pela Administração Regional de Saúde (ARS) Algarve, existiam, no Centro de Saúde de Silves e suas sete Extensões, apenas 10 médicos. A tutela reconhecia então que o concelho de Silves era um dos mais carenciados a nível de profissionais de saúde. É do conhecimento público que o Algarve é uma das regiões do país que mais dificuldade tem em atrair profissionais e que muitos concursos ficam com as vagas por preencher.
Neste momento é voz unânime de que a situação está pior do que há dois anos atrás, antes da pandemia. No sentido de confirmar essa perceção, o Terra Ruiva procurou atualizar os dados junto da ARS, mas não obteve resposta até ao momento.

 

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