Não é inevitável

Há dores que nos machucam, mesmo não sendo nossas. Imaginem umas dezenas de corpos comprimidos junto a um edifício, olhos cansados de quem se levantou cedo, máscaras azuis a esconder a expressão. São pessoas, muitas, que se amontoam no primeiro dia de cada mês, à porta das unidades de saúde, com o único objetivo de conseguir uma consulta para esse mês. Vi há dias este quadro em Messines. Mas no mesmo dia falei com uma moradora de Tunes que me disse: venha aqui amanhã que vê a mesma coisa. E em Armação… e em Alcantarilha, dizem-me do outro lado. E leio relatos que se repetem nas redes sociais, umas vezes reclamações, noutras desabafos, por vezes histórias reais que nos arrepiam.

E lembro aquele programa da SIC, que perguntava: e se fosse consigo? E se fosse comigo? Há poucos dias levei uma familiar ao hospital, a quem tinham sido prescritos exames urgentes, por uma situação grave. Esperara mais de um ano para fazer os referidos exames. Isto com a Covid, anda tudo assim, dizem no hospital. Reconheço que terá dificultado o atendimento dos doentes “normais”. Mas não me iludo. Muitos e diversos foram os protestos dos utentes no concelho de Silves ou à porta do Hospital de Portimão… muito antes da pandemia.

E se fosse consigo? Eu tenho um seguro de saúde, qualquer coisa vou para um privado, dizia-me há tempos um dirigente de um partido que defende a extinção do Serviço Nacional de Saúde. Ok, não te preocupas, porque podes pagar um serviço privado, mas isso é só para algumas situações. Se tiveres um acidente grave, um ataque cardíaco ou um AVC, é a ambulância do INEM que te vem tentar salvar, é no hospital público que tens a garantia que tudo farão, independentemente da dimensão da tua conta bancária.. Não te iludas… Não te iludas- premonitórias palavras. Quando a grande crise de saúde global surgiu vimos quem veio em nosso socorro.
Com a pandemia muitas pessoas descobriram recentemente o que todos aqueles que precisaram e/ou precisam já sabiam – faz-nos falta um serviço nacional de saúde em condições. É profundamente desumano este quadro a que assistimos em todo o país: dezenas de pessoas amontoadas, dezenas de olhos e corações desamparados, na esperança de uma simples consulta… e volte cá para o próximo mês se hoje não conseguir.
E se fosse comigo?

No estudo “A Pobreza em Portugal – Trajetos e Quotidianos”, promovido pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, recentemente divulgado, afirma-se que um quinto da população portuguesa é pobre. Mas a maior parte das pessoas que se encontra em situação de pobreza trabalha e não se encontra em situação de precariedade. Pelo contrário, tem um vínculo laboral seguro.

No estudo são identificados 4 perfis de pobreza em Portugal: os reformados (27,5%); os precários (26,6%), os desempregados (13%) e os trabalhadores (32,9%).
De onde se conclui que um terço dos pobres são trabalhadores. O que significa que “ter um emprego seguro não é suficiente para sair de uma situação de pobreza”

No balanço desta reflexão e na indignação que se sente, quero acreditar e defender que nada disto é inevitável. Não é sina nossa, pessoal ou nacional. A pobreza que muitos ordenados apenas disfarçam, a repartição dos dinheiros públicos que nos deixa sob um céu carregado de chuva, à porta de um centro de saúde- nada disto é inevitável. Estas situações não são uma consequência do nosso fracasso pessoal, são evidências de que vivemos num sistema económico e social que tem de ser mudado. Repito: nada disto é inevitável. E pode ser mudado.

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