Memórias Breves (36) – Quando António Aleixo passou por Messines

O  MEU TEMPO de conhecer o Filósofo do Povo: Poeta António Aleixo, na minha Terra – MESSINES.  Foi num dia de Feira da Senhora da Saúde. Era o dia do meu aniversário, ainda muito menino. Meu Pai um homem que gostava das desgarradas e boémio suficiente, lá me levou à taberna do Galinha, ali perto das casas dos meus avós. Lembro, rua do Cemitério. Perto da taberna do Galinha, assim chamado. Minha Mãe, dizia-me que era o dia dos meus anos, vai ver onde está o Pai. E logo informa: Vai à  taberna do Galinha ou do Abóbora, ou do Estravanca ou da Ti Joaquina Borges. Decidi ir à taberna, perto da casa dos meus avós paternos: do Galinha. Lá  estavam os do costume, o Madeira, os que não me lembro. E o meu pai, que não faltou. Lá estava um homem alto e magro a dedilhar guitarra: era o Poeta Aleixo. Ficamos a saber que o Poeta do Povo estava tuberculoso, assim se afirmava, em verdade. Nesse dia de Feira, chamada da Senhora da Saúde, ficou na memória do garoto, que eu era, para uma “Eternidade”, a Imagem desse Homem magro e alto.

Recordo, que nesse tempo, ouvia dizer, que os e as Messinenses, ou seja, uma parte da população da terra, estava em “fraquezas”, era a maldita  doença. Não admira. A 2.ª grande guerra deixava a fome e o mal, nas casas dos pobres, e, ainda a doença  do bacilo (bacilu), um caminho para a tuberculose, pela míngua da alimentação e falta dela nas casas, mesmo dos trabalhadores. Era o tempo da engorda dos comerciantes e dos senhores das fazendas.

Fui lembrando esse Poeta. O tempo passa. Fui trocando o poeta pelo cineasta Humphrey  Bogart, dizendo à malta : “Aquele é o poeta Aleixo”. Tal a memória se fixou na minha infância! Na minha puberdade de adolescente, chego a Faro… Já o Aleixo falecera. Porque o meu cunhado me leva ao Aliança, fico nesses  enlevos dos homens que frequentam a “Casa dos Poetas”. Fixo-me na cidade de Faro. O moço fez-se rapidamente homem. Entro nos conhecimentos do saber, assim julgava: trabalho e estudo. Toda a cidade fala dos Senhores doutores. Desviei-me do Poeta Aleixo. Começo a ser rapaz frequentador do Aliança. Entram outros Poetas no meu conhecimento, como Emiliano da Costa, como, sobretudo, pela juventude, o Poeta António Ramos Rosa, nas suas explicações, nas suas conversas culturais.

Depois, vamos às livrarias, que Faro as tinha em abundância, sempre vigiadas pela Pide: Emiliano da Costa, Cândido Guerreiro, Lionel Neves, Elviro Rocha Gomes, Vicente Campinas, Tossan eram os senhores, sempre , pelo ALIANÇA + o professor Joaquim Magalhães e a geração, como o cantor-professor-poeta  José Afonso. Foi um tempo marcante, na minha juventude-rapaz, feito na escrita, em publicações nos semanários de Faro: “O ALGARVE” e “CORREIO DO SUL”, este, um semanário muito cultural, dirigido por uma figura de advogado. E, juventude em risco.

António Aleixo visto pelo pintor Isolino Vaz

Regressemos ao António Aleixo, nessas memórias recontadas em misturas. E o Aleixo nessa fama de frequentador do Aliança, o café dos negócios : quarta-feira e sábado.  E o Poeta em quadras pedidas ou recusadas, que não foi o meu tempo. O “Aliança”, um café exclusivo, sendo a segunda sala para a malta-culta, assim chamada. Quero saber quem foi o Poeta António Aleixo: publico no semanário aberto à minha escrita: “O ALGARVE”, de raiz Republicana. O professor do Liceu, Joaquim Magalhães é reconhecido como seu “secretário”. Vamos lá saber quem foi Aleixo, já falecido, no meu tempo. Quero  publicar. O Diretor do semanário informa-me: “Não se meta nisso. Já temos o professor Magalhães, controlado pela PIDE”. E assim foi, sem desistir. Corria por Faro, pelo Aliança, a publicação do Aleixo, pelo Circulo Cultural do Algarve, uma Casa de referência cultural e política, a sua 1ª publicação, 1100 livros: “Quando Começo a Cantar”- 1943. Era o que eu sabia, para além da vida trágica do Poeta: Doença e miséria. Vou escutando as pessoas mais idosas, no conhecimento do “Poeta do Povo”. Luís Santos Ramos, figura de Faro, em conversas, que não devemos perder as conversas nas Pessoas dos tempos, em palavras reais:   Não obstante  o Poeta ter tido uma vida de grande sofrimento moral e físico, sempre doente, com graves carências económicas, sobrevivendo nas ajudas  dos Amigos que o rodeavam, por terras algarvias: Messines, Salir, Loulé, Faro, Vila Real de Santo António,  sendo a sua terra de nascimento, os Amigos e admiradores estiveram sempre nesse apoio ao Poeta. Alguns têm sido os meus escritos, palestras, lições sobre o Poeta Aleixo. Posso afirmar, quando levei António Aleixo, a Siracusa (Itália). E eu agarrado ao “meu” Aleixo, em Siracusa, aos pés de Itália, num Teatro , chamado dos Gregos, levando o Poeta, no seu “Livro”, “Auto da Vida e da Morte”, pronunciado na língua portuguesa, como os demais presentes nas suas próprias línguas.

E assim me pronunciei :  “Vida fútil, sabes quem sou ? Sou a vida / O mundo de mim se ufana / E sou por ele mais querida / Porque sou a vida Humana/ Vês este engenho?  Foi uma invenção /Por ele feita da matéria morta / Tal  como o homem fez o avião / E o automóvel que se transporta/ És bela, és nova,, ela contigo sai/ serve-se de ti até te romperes/ Depois… és o eu foste, e ela vai / Dar força ao Movimento a outros seres.”

Reparei no interesse dos demais, em admiração ao nosso Aleixo-Poeta. Não parei mais: lições, conferências, como na sua terra de Loulé, num convite, em pleno ano de 2000, no Café Calcinha. Algumas das minhas publicações, como palestras/lições. Não poderia ter esquecido Aleixo, no livro, “Quem Passou pelo Aliança”, numa edição “Ministério da Cultura – Algarve. O Poeta, após a sua morte, tem tido o reconhecimento merecido. No meu livro publicado em 1995, “Trilingo”: Português, Inglês e Alemã. O Poeta António Aleixo, “percorreu” a Europa , em ITS PHOTOS- ITS Hisyory- “Seine Fotos- Seine Geschichte. Nisso agradeci aos editores, na minha exigência de edição. Que António Aleixo “vagueava” pelo Aliança, em apoios de admiração. Lembro a sua máxima : “Quem nada tem, nada come/E ao pé de quem tem comer/ Se alguém disser que tem fome/ Comete um crime sem querer.” O meu amigo Jhon Russel traduziu no seu melhor : “He who has nothing, eats / And close to those who can eat/ If you  say the staring / You break the law mistakenly.

António Aleixo viveu na ironia, alheio a qualquer apoio ou sentimento. Viveu 50 anos, muito consciente das injustiças. Homem infeliz. Observador justiceiro, marginalizado da sociedade, da política . Viveu na ironia, alheio a qualquer apoio ou sentimento. Ditou Teatro ao seu conterrâneo Tossan (António Santos), num sanatório em Coimbra, quando enganava uma cura de tuberculose. Morreu como sempre viveu. E viveu como os seus pares: como Camões, como Bocage, talvez como João de Deus; ou como Pessoa, talvez. Em vida, deixou um livro que os Amigos do Círculo Cultural do Algarve-Faro, lhe publicaram: “QUANDO COMEÇO A CANTAR”-1943.

Sempre admirei os Amigos, nas ausências, como o meu Vizinho Educador: João de Deus, nas suas Causas pela Educação. E Camões, enterrado numa vala perdida, mas não nas memórias dos séculos presentes. Só quando morrem, quero dizer, quando mortos, julgando esse pirosos que os grandes HOMENS, já não incomodam, julgam-se nas suas “eternidades”. É que ELES estão vivos nos seus pensamentos presentes e futuros.

Uma memória da minha meninice, na minha TERRA de MESSINES, quando vi o Poeta do século XX, passando pela Terra do Nosso JOÃO, na sua admiração.

 

 

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