A Escola Velha dos Calvos e a sua história

O mês de Outubro é para as gerações mais velhas sinónimo de regresso às aulas, por a escola principiar na sua infância somente a sete deste mês. Foi também em Outubro que ocorreu a proclamação da República, constituindo o ensino uma prioridade para os republicanos. Afinal, era através de uma escola laica que pretendiam formar «um homem novo», cidadão consciente, patriota e participativo na sociedade. Para os republicanos, o atraso do país residia, em grande parte, nas elevadas taxas de analfabetismo, cerca de 75 % em 1910. Não é por acaso que, logo após implantação desta forma de governo, a 5 de Outubro de 1910, os novos poderes instituídos procuraram colmatar essa lacuna, que envergonhava Portugal.

A construção da escola dos Calvos, que aqui recordamos, insere-se nesse tempo, que se queria novo, de igualdade e de esperança. Na freguesia de São Bartolomeu de Messines existiam, nas vésperas da revolução, três escolas, uma masculina (a funcionar desde 1822), outra feminina (1882) ambas na sede de freguesia e uma terceira, mista na Cumeada (1906), enquanto a taxa de analfabetismo rondava os 90,6%.

O primeiro estabelecimento de ensino criado depois da Revolução foi o da Amorosa, em 1911, para, em março de 1913, o presidente da Câmara, António Vaz Mascarenhas solicitar ao governo a criação de mais duas escolas mistas, Calvos e Portela de Messines. Se no último caso, através do aluguer de uma casa a Jacinto Elói Cabrita, a escola era uma realidade em Junho de 1914, nos Calvos, a autarquia avançou com a construção de um edifício próprio. Não sem antes a população de Joinal solicitar que a escola fosse para ali desviada, ou a contenda travada com a criação da escola do Barrocal, pedida pela Inspecção do Circulo Escolar de Silves à Câmara. O edifício acabou por ser construído às portas dos Calvos, não muito longe do Joinal, num terreno de Francisco das Neves e de Maria Paula. Sendo os proprietários ressarcidos por uma Comissão representada por António Vaz Mascarenhas, que o ofereceu à autarquia. O ato de altruísmo motivou que fosse exarada em Ata da Comissão Executiva da Câmara, na sessão de 12/11/1917, «um voto de reconhecido agradecimento ao mencionado cidadão António Vaz Mascarenhas» estendido «a todas as pessoas que colaboraram em tão benemérita dádiva».

A antiga escola dos Calvos

As obras, a cargo de José Martins Júnior, tiveram um custo de arrematação de 1 839$50, acrescidos de 152$60 por trabalhos extraordinários, ficando concluídas em Janeiro de 1918. O edifício foi inaugurado a 17 de Fevereiro seguinte.

Apesar da alteração política nacional e da turbulência advinda do golpe de Sidónio Pais, em Dezembro de 1917, por exemplo com a exoneração da vereação eleita que presidia aos destinos da autarquia silvense, o novo presidente da Comissão Administrativa, Dr. João Vitorino Mealha, convidou os seus antecessores a participarem no momento solene.

Neste e de acordo com o semanário «Voz do Sul», afecto ao Partido Democrático, de 22/2/1918, «assistiram pessoas de todas as cores políticas», decorrendo a cerimónia de inauguração do «lindíssimo edifício», na mais «perfeita ordem». Com carácter provisório fora nomeada a 4/2/1918 a professora diplomada Georgina do Carmo Godinho.

Embora construído expressamente para escola, como ainda hoje evidenciam as enormes janelas, o edifício viria a apresentar precocemente problemas estruturais. No início dos anos de 1960 era considerado um dos piores do concelho, por ameaçar ruir, sendo inclusive motivo de críticas severas à autarquia silvense. Na impossibilidade de alugar uma casa para instalar a «sala do saber», a Câmara avançou novamente para a construção de um outro edifício, a sul, concluído em Agosto de 1966.

A antiga escola ficou abandonada e em ruínas durante várias décadas, até que pouco depois da viragem do milénio, foi recuperada para habitação. Ostentando desde então um justa e oportuna placa de mármore, a qual refere «Escola Velha Calvos», atestando assim o propósito inicial daquele já secular edifício.

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